Duas grandes operações realizadas esta semana revelam, mais uma vez, a força e a complexidade das rotas internacionais do narcotráfico que ligam a América do Sul à Europa – com Portugal identificado como ponto estratégico de passagem. A mais relevante ocorreu no Aeroporto Internacional de Confins, em Minas Gerais, onde uma ação conjunta da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal do Brasil (RFB) resultou na apreensão de 1,2 tonelada de cocaína pronta para embarcar com escala programada em Lisboa antes de seguir para Madrid, o destino final da carga.
A droga, embalada em blocos prensados e preparada para evitar deteção, encontrava-se já no terminal de cargas internacional. Segundo os investigadores, faltava pouco para que o carregamento entrasse oficialmente na rota comercial. A documentação da carga estava regularizada e o envio declarado como material industrial, numa tentativa de reduzir suspeitas e escapar ao controlo alfandegário.
Para as autoridades brasileiras, a rota escolhida – Brasil → Lisboa → Madrid – confirma uma tendência consolidada no tráfico internacional: usar Portugal como porta de entrada, aproveitando a conectividade aérea com o resto da Europa e a circulação facilitada dentro do espaço comunitário. Investigadores reforçam que Lisboa é, há vários anos, um dos principais pontos de trânsito para cocaína sul-americana destinada ao mercado europeu.
Na fronteira, a polícia do Paraguai realizou uma das maiores apreensões de maconha da região
Enquanto o caso de Confins expõe a dimensão do tráfico aéreo internacional, a fronteira agrícola do Paraguai continua a ser palco de operações de grande escala relacionadas com a produção e distribuição de cannabis. Em território paraguaio, e no âmbito de operações de repressão ao narcotráfico, a polícia do Paraguai confiscou recentemente uma carga que rondaria as 89 toneladas de maconha, considerada uma das maiores apreensões do ano na região.
Ao contrário da apreensão de Confins, não há confirmação de que esta remessa tivesse como destino a Europa. No entanto, o volume extraordinário e o padrão cada vez mais sofisticado das operações na zona fronteiriça levantam preocupações de que parte da produção local possa ser integrada, direta ou indiretamente, em redes internacionais de tráfico.
As autoridades paraguaias têm intensificado a destruição de plantações, acampamentos de processamento e estruturas logísticas utilizadas pelos cartéis que dominam a produção de cannabis no país. Mesmo assim, especialistas reconhecem que a dimensão total da produção continua muito acima do que é apreendido.
Portugal permanece como porta de entrada preferencial das redes sul-americanas
Com a apreensão em Confins, reforça-se o alerta sobre a posição estratégica de Portugal nas rotas do narcotráfico. A facilidade de ligação com vários países europeus, a elevada movimentação de cargas e passageiros e a rapidez na redistribuição dentro da União Europeia tornam Lisboa um ponto sensível e frequentemente explorado pelos grupos criminosos.
O caso da cocaína apreendida no terminal mineiro segue precisamente esse padrão: chegada prevista a Lisboa, entrada legalizada no espaço europeu e redistribuição imediata para Espanha — e, potencialmente, para outros centros de consumo.
Cooperação internacional intensifica-se, mas o tráfico mantém escala global
Apesar das operações bem-sucedidas tanto no Brasil como no Paraguai, especialistas em segurança lembram que o narcotráfico se adapta rapidamente à pressão policial. A diversificação de rotas, o uso de documentação falsificada e a criação de redes logísticas paralelas tornam o combate diário e complexo.
As duas apreensões revelam faces distintas da cadeia criminosa: a produção massiva na região paraguaia e a tentativa de envio altamente profissionalizado para a Europa, através de um corredor aéreo que inclui Portugal como ponto-chave.
Veja a reportagem do enviado especial do 24Horas, Diego Leite: