O descontentamento com o aumento do custo de vida está a levar milhares de pessoas às ruas em vários países europeus. Da habitação aos preços dos alimentos, passando pelos salários, pela educação e pelo estado dos serviços públicos, as manifestações têm revelado dificuldades sentidas por muitas famílias e uma crescente contestação às políticas governamentais. A violência, essa, também tem estado presente.
França, Espanha, Itália, Albânia e Bélgica estão entre os países onde se registaram protestos nas últimas semanas. Em Portugal, sindicatos e movimentos ligados ao direito à habitação também convocaram manifestações, com iniciativas em várias cidades.
Embora as reivindicações não sejam iguais em todos os países, a pressão sobre os orçamentos familiares é um dos pontos comuns. Os manifestantes contestam o peso das despesas básicas e exigem medidas que permitam melhorar as condições de vida.
Portugal: habitação e salários no centro da contestação
Em Portugal, as manifestações convocadas pela CGTP e por movimentos pelo direito à habitação colocam em destaque o aumento dos preços das casas, dos combustíveis e dos alimentos. Os trabalhadores reclamam melhores salários, pensões mais elevadas e serviços públicos com mais recursos.
No Porto, a mobilização pela habitação mantém-se na Praça D. João I, onde uma ocupação iniciada por algumas dezenas de pessoas terá crescido significativamente nos últimos dias.
Entre as principais exigências dos movimentos estão a alteração da lei das rendas, a imposição de limites aos valores das rendas, o fim dos despejos e a construção de mais habitação pública. Os ativistas defendem também a recuperação de imóveis devolutos para habitação e medidas contra a aquisição de casas por fundos de investimento que consideram especulativos.
Em Lisboa, o movimento Acampada de Lisboa pela Habitação anunciou uma iniciativa no Rossio para exigir soluções que permitam às pessoas continuar a viver nas cidades onde trabalham.
França: protestos económicos com confrontos e detenções
Em França, as mobilizações começaram em meados de setembro, com protestos estudantis em Paris, e acabaram por se alargar a outras regiões. Às preocupações com os recursos disponíveis nas escolas juntaram-se críticas ao custo de vida, à crise da habitação e às medidas de austeridade associadas ao orçamento do Estado para 2027.
A contestação tem reunido estudantes, bombeiros, sindicatos e antigos participantes no movimento dos coletes amarelos. Se há muita violência nas ruas, em alguns locais, porém, as manifestações decorreram pacificamente.
Espanha: crise na habitação e greve de professores levam milhares às ruas
Em Madrid, milhares de pessoas mantêm um acampamento na Praça Puerta del Sol, numa mobilização que ganhou força após o caso de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos que foi despejada da casa onde viveu durante décadas por não conseguir suportar um aumento de 275% na renda. A situação contribuiu para ampliar a contestação às políticas de habitação, num país onde as rendas subiram, em média, 84% na última década. Maricarmen acabou por morrer, mas os protestos continuaram e espalharam-se a outras cidades.
A crise na habitação coincide agora com uma nova frente de contestação: a educação. Milhares de professores manifestaram-se em Madrid pelo segundo dia consecutivo, no início de uma greve por tempo indeterminado convocada por vários sindicatos, entre os quais a UGT e as CCOO. Os docentes exigem aumentos salariais, horários mais reduzidos, turmas com menos alunos e mais recursos para a escola pública.
Os representantes sindicais apelam ao executivo regional para que abra negociações e evite que o conflito se prolongue durante todo o ano letivo. Também estão anunciadas greves nas seis universidades públicas da região para 4 e 5 de novembro, com os sindicatos a denunciarem falta de financiamento e uma alegada privatização do setor.
Albânia: estudantes contestam custos do ensino
Na Albânia, as manifestações começaram com estudantes universitários, mas passaram a envolver também alunos do ensino secundário e outros setores da sociedade civil. Os participantes denunciam os custos elevados do ensino superior, as condições das universidades, a falta de apoio financeiro e as dificuldades de acesso ao emprego.
A contestação ocorre num contexto de descontentamento mais amplo com o governo de Edi Rama. Em maio, já tinham surgido protestos contra projetos turísticos de luxo na costa albanesa, alguns dos quais associados pelos contestatários a interesses ligados a Donald Trump. O movimento ficou conhecido como 'Revolução Flamingo'.
Itália e Bélgica: educação, preços e tensão nas ruas
Em Itália, os estudantes saíram à rua nos últimos dias para exigir mais investimento na educação e menos despesas militares. Entre as palavras de ordem ouvidas nas manifestações estavam "dinheiro para as escolas, não para a guerra" e "menos armas, mais direitos".
Algumas ações terminaram em confrontos violentos com a Polícia, com lançamentos de pedras, petardos e engenhos artesanais, bem como a destruição e o incêndio de contentores do lixo usados para bloquear estradas. Em Turim, um grupo de professores chegou a formar uma barreira entre os agentes policiais e os estudantes. Em Milão, uma escola secundária foi vandalizada, enquanto outras cidades também registaram incidentes.
Na Bélgica, os protestos contra o custo de vida deram origem a confrontos em Bruxelas e Liège. As manifestações juntaram-se a uma vaga anterior de mobilização estudantil contra o aumento das despesas com a educação e as dificuldades sentidas nas escolas, incluindo a falta de professores.

















