Jack Ako chegou a comer cerca de 10 mil calorias por dia. Apesar de levar almoço de casa, parava várias vezes no trajeto até ao trabalho para comprar pizzas ou frango frito. Aos 25 anos, pesava 300 quilos.
Quatro anos depois, o britânico, natural de Wakefield, perdeu cerca de 190,5 quilos e prepara-se para a primeira competição de culturismo. Hoje, com 29 anos, é personal trainer qualificado e garante ter uma relação completamente diferente com a comida, o exercício e a vida.
"Eu era o miúdo grande, depois o adolescente grande e, por fim, o adulto extremamente grande", contou à BBC no passado dia 27 de setembro. O aumento de peso começou ainda na infância, com uma alimentação pouco equilibrada. Como os pais têm mais de 1,80 metros, Jack foi sempre visto como "o rapaz grande" e ouviu repetidamente que era uma questão de genética. Acabou por aceitar que aquele era o seu destino.
Na adolescência jogou rugby e comia em grandes quantidades. Mesmo depois de deixar a modalidade, os hábitos mantiveram-se, e para ele tudo aquilo era normal.
Trabalhou primeiro nos caminhos de ferro, mas o peso começou a dificultar as exigências físicas da profissão. Mudou para apostador profissional em casinos, um trabalho que o obrigava a passar longas horas sentado e que facilitava comer às escondidas. "Diferentes pessoas têm diferentes vícios. Para mim, era a comida", admite.
Apesar de tudo, tinha uma vida estável: namorada, emprego, casa e carro. Ainda assim, percebeu que a saúde tinha chegado a um ponto crítico. Depois de pedir aconselhamento ao NHS, o serviço nacional de saúde britânico, optou por uma cirurgia de bypass gástrico no setor privado, preocupado com os tempos de espera. Nos primeiros 18 meses, perdeu cerca de 89 quilos.
Mesmo com os elogios de todos, Jack sentia que não havia motivo para orgulho e que precisava de ir mais longe. Foi então que se inscreveu num ginásio. No início, a experiência foi intimidante: chegou a ficar sentado dentro do carro, sem coragem para entrar, com medo de ser julgado. Estava habituado a que olhassem e se rissem dele.
Surpreendentemente, alguns dos maiores apoios fora do círculo de amigos e familiares vieram dos culturistas que, à primeira vista, mais o intimidavam. Ao encontrar uma comunidade que o acolheu e ao apaixonar-se pelo desporto, começou a pensar em competir.
A mudança despertou-lhe ainda a vontade de ajudar os outros. Como personal trainer, trabalha sobretudo com os mais novos e, ao lado da mulher, que é professora, quer criar programas de educação alimentar para crianças.
Jack reconhece que a relação com a comida continua a ter uma componente de dependência, mas garante que a forma de lidar com ela mudou. Hoje, diz, vai buscar a dose de dopamina às pequenas conquistas e aos desafios diários.

















