Gisèle Pelicot, de 73 anos, decidiu contar, pela primeira vez pela sua própria voz, a história que a transformou num símbolo mundial da luta contra a violência sexual. 'Um hino à vida', escrito em conjunto com a jornalista e romancista francesa Judith Perrignon, chega esta quinta-feira, dia 20, às livrarias portuguesas pela editora Presença.

“Quero contar a minha história pelas minhas próprias palavras. Com este livro, espero passar uma mensagem de força e coragem a todos os que possam estar a passar por momentos difíceis. Que nunca sintam vergonha”, escreveu Gisèle Pelicot sobre a decisão de publicar as memórias.

A obra acompanha a vida da artista francesa muito para além do processo judicial que correu mundo. Gisèle recua à infância em Indre, recorda a morte da mãe quando tinha nove anos, o casamento de quase cinco décadas com Dominique Pelicot e a família que acreditava ter construído, antes de descobrir uma realidade completamente diferente.

O momento que alterou definitivamente a sua vida aconteceu a 2 de novembro de 2020. Depois de Dominique ter sido apanhado a filmar mulheres por baixo das saias num supermercado, Gisèle acompanhou-o à esquadra. Foi aí que um polícia lhe mostrou fotografias e vídeos que revelavam que tinha sido drogada pelo marido e violada, enquanto estava inconsciente, por dezenas de homens recrutados através da Internet.

Ao recordar esse instante, Gisèle escreve que não reconheceu a mulher que aparecia nas imagens, descrevendo-a como “uma boneca de trapos” e admitindo que o seu “cérebro deixou de funcionar”.

A investigação encontrou cerca de 20 mil fotografias e vídeos dos abusos praticados entre 2011 e 2020. Foram identificados pelo menos 72 homens, mas apenas 51, incluindo Dominique Pelicot, acabaram formalmente acusados e julgados.

Um dos momentos decisivos da história aconteceu quando Gisèle optou por abdicar do anonimato e recusou que o julgamento decorresse à porta fechada. A frase “a vergonha tem de mudar de lado”, que se tornou uma das mais associadas ao caso, serve agora também de subtítulo ao livro.

'Um hino à vida' aborda também a reconstrução pessoal depois do fim do casamento. Gisèle revela que voltou a apaixonar-se, por Jean-Loup, relação que descreve como parte importante do processo de recuperação.

Há ainda uma decisão que pretende concretizar: visitar Dominique Pelicot na prisão. Gisèle garante que não se trata de perdão nem de fraqueza, mas de uma despedida e de uma oportunidade para procurar respostas que ainda lhe faltam, incluindo sobre a possibilidade de o ex-marido ter abusado da filha, Caroline.

No final do livro, Gisèle afirma que, apesar de tudo o que viveu, continua a confiar nas pessoas. Aquilo que em tempos considerava a sua “maior fraqueza” tornou-se, escreve, a sua força.

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