Charles Spencer, de 62 anos, irmão da princesa Diana, decidiu voltar a falar publicamente sobre a irmã e sobre alguns dos episódios mais polémicos relacionados com a família real britânica. O conde lançou esta terça-feira, dia 22, ‘O Canto do Cisne: Diana, a minha irmã’, um livro que recupera memórias pessoais e aborda alguns dos momentos mais delicados da vida da princesa.
Em entrevista ao El País, Spencer explicou que decidiu avançar com o projeto por considerar que este era o momento certo para deixar registadas as suas memórias. "Por Diana e por mim, eu queria esclarecer os factos para a posteridade", afirmou, acrescentando que a proximidade dos 30 anos da morte da irmã também pesou na decisão.
O livro recupera episódios da vida de Diana e aborda igualmente a relação da princesa com a família real. Para Spencer, a monarquia britânica não conseguiu aproveitar o impacto que Diana teve a nível internacional e acabou por encará-la como uma ameaça à própria instituição: "A tragédia para a família real é que eles não souberam aproveitar essa oportunidade. Eles viram-na como uma perturbação, como um cisne negro. Não lhes ocorreu que esse cisne pudesse voar e que tudo seria melhor com ela."
As palavras de Carlos III antes do funeral
Um dos episódios mais sensíveis relatados por Charles Spencer diz respeito a uma conversa que terá tido com Carlos III (77) antes do funeral de Diana.
Segundo o irmão da princesa, o então príncipe de Gales referiu-se à ex-mulher com a frase: "Em breve a esqueceremos". Spencer admite que ficou "arrepiado" ao ouvir aquelas palavras.
O conde recorda ainda o conflito em torno da participação de William (44) e Harry (42) no cortejo fúnebre. Spencer diz que não queria que os sobrinhos caminhassem atrás do caixão, considerando a situação “monstruosa”, mas que Carlos insistiu: “Eu sabia que isso causaria controvérsia, mas também guardei muitas coisas para mim que eram controversas.”
Para Spencer, a decisão de tornar o episódio público prende-se também com o seu papel de jornalista e historiador: "Como jornalista, devo dizer a verdade. E, como historiador, devo opor-me àqueles que detêm o poder."
O irmão de Diana não poupa igualmente críticas à imprensa britânica e aos paparazzi que perseguiram a princesa.
Na sua opinião, a morte de Diana deixou os meios de comunicação confrontados com a própria responsabilidade no comportamento excessivo dos fotógrafos: "A imprensa britânica ficou chocada com a morte de Diana porque sabia que era em parte culpa dela. Os paparazzi estavam fora de controlo."
Spencer considera, no entanto, que houve mudanças desde então, incluindo a aprovação de legislação mais restritiva.
"Diana tinha o coração de uma leoa"
Ao longo da entrevista, Charles Spencer também procura recuperar uma imagem mais pessoal da irmã, para lá da figura pública.
Descreve Diana como uma mulher complexa, mas com uma capacidade particular para compreender as pessoas e mobilizar atenções para causas que considerava importantes.
“Ela tinha o coração de uma leoa”, afirmou, recordando o trabalho que desenvolveu em campanhas relacionadas com o VIH/SIDA e outras causas sociais.
Spencer acredita ainda que, caso estivesse viva, Diana continuaria hoje a desempenhar um papel relevante na esfera pública.
Poucos meses antes da morte da princesa, os dois tinham estado juntos na Cidade do Cabo. Segundo o conde, Diana falou-lhe então do desejo de conhecer Nelson Mandela e de colaborar em iniciativas de combate à SIDA na África subsaariana: “Hoje, certamente a veria a fazer grandes coisas.”
Relação com William e Harry
Sobre os sobrinhos, Charles Spencer garante que procura manter uma presença discreta, sobretudo quando estes precisam de apoio: “O meu papel é estar presente quando eles precisam de mim, mas discretamente.”
Em particular, referiu-se a Harry, dizendo que este recorre por vezes ao tio e que terá sido por isso que levou a família a Althorp durante o verão: “Estou aqui quando ele precisar de um ombro amigo, ou algo do género. Para mim, ele é um dos dois filhos que a minha irmã deixou. É para isso que serve a família.”
Spencer reconhece que não mantém contacto diário com os sobrinhos, mas considera que a família deve continuar a ser um ponto de apoio.
Sobre a relação entre William e Harry, admite que a situação é dolorosa, mas considera difícil avaliar de fora os motivos que levaram ao afastamento.
Apesar das críticas dirigidas a Carlos III, Charles Spencer procura afastar a ideia de que acompanha atentamente a atualidade da família real: “Não acompanho de perto os assuntos da família real. Não por hostilidade, é simplesmente algo que não me interessa muito.”
Questionado sobre o reinado de Carlos III, reconheceu que o monarca tem desempenhado um trabalho que considera aceitável.
“Todos dizem que ele está a fazer um trabalho decente”, afirmou, acrescentando que Carlos não concretizou os receios de quem antecipava que poderia interferir excessivamente em assuntos públicos.
















