Há letreiros que passam despercebidos durante anos. Fazem parte da paisagem, confundem-se com as fachadas e com a rotina de quem passa todos os dias pelas mesmas ruas. Mas basta desaparecerem para que a ausência se faça sentir. Com eles vão-se também as memórias de um café onde se tomava o pequeno-almoço, da mercearia do bairro ou da loja onde tantas gerações fizeram compras. É precisamente essa memória que a Letreiro Galeria procura preservar.

Criado em 2014 pelos designers Rita Múrias e Paulo Barata, o projeto nasceu de uma paixão pela tipografia e pelo design gráfico. A ideia inicial era simples: fotografar os letreiros históricos de Lisboa. Mas rapidamente perceberam que muitos deles desapareciam assim que começavam as obras de reabilitação dos edifícios.

"Pensámos: porque é que estamos apenas a registá-los, se depois acabam no lixo?", recorda Paulo Barata, em exclusivo ao 24Horas. A resposta transformou por completo o projeto. Em vez de apenas documentarem este património gráfico, começaram a resgatá-lo.

Hoje, a coleção reúne cerca de 500 letreiros, provenientes de estabelecimentos comerciais que fecharam portas ou mudaram de identidade. Cada peça representa um fragmento da história da cidade, mas também horas de pesquisa, contactos com proprietários, operações de desmontagem e um trabalho contínuo de documentação.

O processo começa muito antes do resgate. São Rita Múrias e Paulo Barata quem identifica os letreiros, percorre bairros inteiros à procura de peças em risco e estabelece contacto com os proprietários. Durante anos, caminharam rua após rua à procura de fachadas que ainda conservassem vestígios do comércio do século XX.

"Apanhava o metro, saía numa estação e andava a pé. Era a melhor forma de descobrir letreiros", conta Paulo Barata.

Ao longo dos anos, ganharam experiência, criaram uma rede de colaboradores e passaram a contar com o apoio de especialistas na desmontagem destas estruturas, algumas delas de grandes dimensões ou particularmente delicadas. Ainda assim, muitos resgates continuam a acontecer em cima da hora, quando a alternativa é ver o letreiro seguir diretamente para o lixo.

Mais do que preservar objetos, a Letreiro Galeria procura conservar as histórias que lhes estão associadas.

Essa dimensão torna-se especialmente evidente durante as exposições que o projeto tem organizado em diferentes pontos do País. Embora a coleção esteja atualmente armazenada num espaço em Oeiras, sem condições para receber visitantes, já passou por locais como o MUDE, a Stolen Books ou a Amadora BD.

É nesses momentos que os letreiros deixam de ser apenas peças de design e voltam a cumprir uma função inesperada: despertar memórias. "As pessoas não estão à espera de encontrar um letreiro da sua infância ou de um estabelecimento que já desapareceu. Há uma grande emotividade", explica Rita Múrias.

A reação repete-se de exposição para exposição. Há quem reconheça a antiga padaria do bairro, quem recorde uma loja onde ia com os pais ou quem aproveite para contar histórias que ajudam a completar a investigação feita pela equipa.

E Rita Múrias acrescenta: "Os letreiros fazem uma espécie de triângulo: as pessoas olham, lembram-se de um lugar, emocionam-se e começam a contar histórias."

Esses testemunhos fazem hoje parte do próprio projeto. No futuro, Rita e Paulo gostariam mesmo de criar um arquivo de memórias orais, convidando sobretudo pessoas mais velhas a partilhar recordações ligadas aos estabelecimentos representados na coleção.

O objetivo mantém-se o mesmo desde o primeiro letreiro resgatado, a antiga Sapataria Elite, um exemplar dos anos 40 desenhado pelo arquiteto Raul Tojal, cuja importância histórica só descobriram mais tarde. Esse objetivo passa pela criação de um museu permanente dedicado aos letreiros comerciais portugueses.

Mas esse sonho enfrenta atualmente um dos seus maiores desafios.

O armazém onde a coleção está guardada, cedido desde 2017 pela Fundação Marquês de Pombal, vai dar lugar a uma nova urbanização. Isso significa que os cerca de 500 letreiros terão de encontrar uma nova casa. "É isso que nos tira o sono", admite Paulo Barata.

Apesar dos contactos com autarquias e entidades privadas, ainda não existe uma solução definitiva. A prioridade passa agora por garantir um espaço onde a coleção possa continuar protegida e, sobretudo, onde possa finalmente ser visitada pelo público.

Para os responsáveis pelo projeto, preservar estes letreiros nunca foi um exercício de nostalgia. É uma forma de documentar a evolução das cidades, do comércio, da arquitetura e da identidade visual portuguesa.

Daqui a cem anos, esperam que quem visite a coleção consiga perceber como eram as ruas, as lojas e os bairros que marcaram grande parte do século XX. Porque, quando um letreiro desaparece, raramente desaparece sozinho. Com ele perde-se também uma pequena parte da história coletiva de uma cidade.