O treino intenso realizado por Iker Casillas poderá ter sido o gatilho para o enfarte sofrido pelo antigo guarda-redes do FC Porto, em maio de 2019. A hipótese foi defendida esta quarta-feira, dia 16, pelo cardiologista Luís Seca, ouvido no processo em que o espanhol pretende ver o episódio reconhecido como acidente de trabalho. Uma tese contestada pelo médico de medicina legal Duarte Nuno Vieira, que considera mais provável uma causa natural.
Luís Seca, médico da CUF Porto e especialista em cardiologia de intervenção, revelou em tribunal que foi o próprio Casillas a relatar-lhe que o enfarte ocorreu após um esforço de máxima intensidade. Para o cardiologista, esse esforço terá sido o gatilho mais provável para a rutura de uma placa aterosclerótica.
O médico afastou ainda qualquer possibilidade de regresso do espanhol ao futebol profissional depois de um episódio daquela gravidade. “O homem teve um enfarte; a partir do momento em que tem um episódio major, tem um risco permanente. Deve praticar desporto, deve, mas não é desporto de alta competição”, afirmou, garantindo que nunca assinaria uma autorização para Casillas voltar à competição.
O caso levou Luís Seca a defender também uma mudança nos exames realizados a atletas com mais de 35 anos. “Não podemos olhar para um atleta de 35 anos como olhamos para um de 20. O paradigma tem de mudar”, sustentou. Segundo o cardiologista, exames como a AngioTAC cardíaca poderiam ter permitido detetar mais cedo a doença coronária de Casillas e tratá-la antes do enfarte.
Duarte Nuno Vieira apresentou, porém, uma leitura diferente. O especialista admitiu que exercício físico vigoroso pode desencadear um enfarte, mas considerou não estar demonstrado que Casillas tenha realizado naquele dia um treino excecionalmente intenso. “Se o tribunal demonstrar que foi um treino particularmente intenso, diferente do habitual, não tenho dúvidas de que poderia ter sido um trigger”, afirmou. Perante os elementos disponíveis, entende ser “muito mais provável” uma doença natural, lembrando que a maioria dos enfartes ocorre sem um fator precipitante.
Na mesma sessão, o diretor de Recursos Humanos do FC Porto, Hugo Esteves, confirmou que o clube pagou o salário de Casillas até junho de 2020, incluindo um complemento do subsídio de doença. O contrato terminou a 30 de junho desse ano. A decisão sobre a natureza do enfarte será determinante para saber se o episódio pode ser juridicamente considerado um acidente de trabalho.

















