O projeto europeu para criar uma Internet quântica entra numa nova fase, com um reforço de 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia. O objetivo é transformar a investigação feita até agora num protótipo completo, capaz de funcionar em condições reais.
A iniciativa é da Quantum Internet Alliance (QIA), um consórcio europeu em que Portugal participa desde o início, através do Portuguese Quantum Institute (PQI). O novo financiamento, atribuído através de um acordo específico, garante 42 meses de investigação e desenvolvimento.
A segunda fase dá continuidade aos resultados da primeira, que decorreu entre outubro de 2022 e março de 2026. Nesse período, o consórcio alargou a plataforma europeia de desenvolvimento da Internet quântica, juntando investigação em hardware, software e redes, de modo a criar as bases tecnológicas do futuro protótipo.
Nos próximos três anos e meio, a QIA vai integrar as tecnologias já estudadas num protótipo completo e programável, capaz de executar aplicações de redes quânticas. Um dos grandes objetivos é demonstrar a ligação entre duas redes quânticas à escala metropolitana, através de uma ligação de fibra ótica de longa distância com repetidores quânticos. O consórcio considera este um passo importante para viabilizar a comunicação quântica em larga escala.
A nova fase serve também para dar os primeiros passos na Quantum Internet Initiative, que pretende levar as redes quânticas dos laboratórios para aplicações no mundo real.
Em entrevista ao TEK Notícias, o presidente do PQI, Yasser Omar, explicou que a QIA é neste momento o único projeto da União Europeia dedicado à Internet quântica, e que reúne os principais atores da área, da academia à indústria. Reconhece que outros países estão mais avançados noutras vertentes, como a China nas comunicações e os Estados Unidos na computação, mas defende que "a Europa é, neste momento, líder na Internet quântica" e que não deve perder essa vantagem.
A regulação foi um dos grandes temas da conferência "Building the Quantum Internet in Europe", realizada em Lisboa. Yasser Omar admite que existe receio de que as regras travem a inovação, mas sublinha que são tecnologias de soberania e que, por isso, exigem alguma regulação. Como estão ainda numa fase inicial, argumenta, há margem para antecipar problemas e resolvê-los, e é preciso equilibrar soberania, regulação e competitividade.
O responsável defende que Portugal não pode perder esta oportunidade. Como as tecnologias quânticas estão numa fase relativamente precoce, o país não parte de uma posição de desvantagem e pode apostar em nichos onde desenvolva competências e se industrialize. Com a nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²) a definir as áreas estratégicas para os próximos anos, Yasser Omar considera que esta deve ser uma delas.
O financiamento será decisivo. O modelo europeu deverá passar a exigir um maior contributo dos Estados-Membros, a somar ao apoio da Comissão Europeia. Se Portugal não assegurar essa componente nacional, avisa, os investigadores e as empresas portuguesas arriscam-se a ficar de fora dos próximos desenvolvimentos.

















