A Polícia Federal do Brasil concluiu o relatório pericial sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que provocou a morte de 62 pessoas em Vinhedo, no estado de São Paulo. A análise do gravador de voz da cabina e dos dados de voo revela que o desastre resultou de uma combinação de falhas técnicas, desvios operacionais e falhas na gestão da segurança da companhia aérea.

De acordo com a investigação, o alerta AIRFRAME FAULT, que indica falha no sistema pneumático de degelo do ATR 72-500, foi registado no voo da tragédia e em três voos anteriores. As gravações mostram que a tripulação tinha conhecimento do problema logo após a descolagem em Cascavel. Ao surgir a primeira mensagem de erro, o comandante afirma: "É o 'Airframe' que deu 'fault'… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…"

Perante a persistência dos avisos e a presença de nuvens favoráveis à formação de gelo, os pilotos discutiram a possibilidade de alterar a altitude para evitar o problema. O copiloto comenta: "Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?" Logo em seguida, o comandante compara a aeronave a um carro do cinema: "Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo."

À medida que o avião se aproximava de São Paulo, a acumulação de gelo agravou-se. Ao observar o cenário exterior, o copiloto avisa: "Bastante gelo!" E tenta acionar novamente o equipamento ("Ligar o airframe"). Perante a falta de resposta do sistema, o comandante desabafa: "Essa bosta não tá funcionando, né?", recebendo a confirmação do copiloto: "É".

Segundo o relatório da Polícia Federal, o gelo acumulado na estrutura alterou a aerodinâmica da aeronave. Em seguida, os computadores emitiram alertas sucessivos de degradação de velocidade e de perda de sustentação (estol), até ao acionamento do alarme crítico de proximidade do solo ("Pull-up… Pull-up"). Os peritos concluíram que a tripulação não aplicou os procedimentos recomendados pelo fabricante para sair da zona de gelo severo nem para recuperar a aeronave antes do parafuso.

A investigação identificou que o mesmo alerta de falha no sistema de degelo já tinha surgido em três voos anteriores da aeronave. Segundo a Polícia Federal, as anomalias eram recorrentes e nem todos os eventos foram devidamente registados nos documentos operacionais, o que dificultou a identificação do problema e permitiu que a aeronave continuasse em serviço.

O laudo conclui ainda que a tripulação tinha conhecimento das falhas antes mesmo da descolagem de Cascavel e, ainda assim, iniciou um voo cuja rota previa condições favoráveis à formação severa de gelo. Para os investigadores, o acidente resultou de uma combinação de falhas recorrentes no sistema de degelo, decisões operacionais, condições meteorológicas adversas e sucessivas barreiras de segurança que deixaram de funcionar.

O inquérito da Polícia Federal responsabiliza criminalmente o comandante, o copiloto, o chefe dos pilotos da Voepass e responsáveis pelas áreas de manutenção e gestão operacional da companhia, por entender que houve falhas que contribuíram para o acidente.