A investigação sobre a suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transportes públicos de São Paulo ganhou novos contornos com a prisão do ex-vereador Milton Leite, antigo presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo. O político é um dos alvos da Operação Vectura Corrupta, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, que investiga suspeitas de atuação do PCC em empresas de autocarros e estruturas do poder público.

Milton Leite foi alvo de um mandado de prisão temporária e apresentou-se às autoridades em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, em 18 de setembro. A Justiça manteve a prisão temporária após as audiências de custódia. Leite nega as acusações e afirma que não é proprietário de empresas de autocarros nem tem ligação com o PCC.

A investigação procura esclarecer se Milton Leite exercia controlo sobre a Transwolff, empresa que está no centro de anteriores investigações sobre suspeitas de ligação ao PCC. Uma decisão judicial que autorizou a Operação Vectura Corrupta refere o ex-vereador como possível “dono de facto” da Transwolff. A empresa nega que Leite tenha participação societária ou tenha exercido funções na sua gestão.

Milton Leite exerceu sete mandatos como vereador de São Paulo e presidiu à Câmara de Vereadores em diferentes períodos. O seu nome já aparecia em investigações anteriores relacionadas com a Transwolff.

As mensagens que levaram a Milton Leite

Mensagens apreendidas durante as investigações passaram a ser analisadas pelos investigadores para determinar o papel de Milton Leite nas relações entre empresários do setor dos transportes, agentes públicos e pessoas apontadas como integrantes do PCC.

Num dos áudios obtidos pelos investigadores, um suspeito fala sobre a necessidade de “envolver” Milton Leite para resolver uma questão relacionada com o setor dos transportes. O nome do ex-vereador também aparece em conversas relacionadas com a empresa UPBus.

A investigação também reuniu depoimentos de agentes policiais e documentos relacionados com a Transwolff. Segundo os investigadores, esse conjunto de elementos levantou a suspeita de que Leite teria influência sobre decisões e operações relacionadas com empresas de transportes.

Milton Leite contesta as acusações.

A relação com a Transwolff

A relação empresarial entre Milton Leite e a Transwolff já tinha sido revelada em investigações anteriores.

Um contrato obtido pelo UOL mostrou que a Neumax, construtora ligada a Milton Leite e aos seus filhos, tinha um acordo de arrendamento com a Transwolff para um terreno e um conjunto industrial utilizados pela empresa.

O contrato previa pagamentos mensais de 812 mil reais, cerca de 138 mil euros, considerando a taxa de referência de 18 de setembro de 2026. Segundo o UOL, os valores previstos poderiam chegar a aproximadamente 20 milhões de reais, cerca de 3,4 milhões de euros.

O documento era assinado por Milton Leite e por Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, que era apontado como dono da Transwolff e é investigado por suspeitas de ligação ao PCC. Pandora também aparecia como fiador do contrato.

Um relatório de auditoria citado pelo UOL também identificou outros pagamentos de cerca de 2 milhões de reais, aproximadamente 340 mil euros, à Neumax entre 2021 e 2022.

O Ministério Público de São Paulo já havia apontado um relacionamento próximo entre Milton Leite e a cúpula da Transwolff. A defesa do ex-vereador nega irregularidades e afirma que ele não é proprietário da empresa.

O papel de Pandora

Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, é uma das principais figuras da investigação relacionada com a Transwolff.

O empresário foi preso em abril de 2024 durante a Operação Fim da Linha, que investigava suspeitas de lavagem de dinheiro do PCC através de empresas de transportes. Pandora permaneceu cerca de dois meses na prisão e foi libertado posteriormente por decisão judicial. Ele nega as acusações.

Segundo o Ministério Público, a Transwolff teria recebido um aporte de 54 milhões de reais, aproximadamente 9,2 milhões de euros, atribuído ao PCC para participar na licitação do transporte público de São Paulo.

A investigação também analisou as movimentações financeiras de Pandora.

Um relatório do Conselho de Controlo de Atividades Financeiras (Coaf), citado pelo Ministério Público, apontou que o empresário recebeu 34,2 milhões de reais, cerca de 5,8 milhões de euros, entre agosto de 2018 e julho de 2019, e outros 14 milhões de reais, aproximadamente 2,4 milhões de euros, entre 2020 e 2021.

Entre as movimentações identificadas estavam 18,9 milhões de reais, cerca de 3,2 milhões de euros, relacionados com a própria Transwolff; 14,9 milhões de reais, aproximadamente 2,5 milhões de euros, em resgates de aplicações; 13,6 milhões de reais, cerca de 2,3 milhões de euros, em depósitos; e 4,7 milhões de reais, aproximadamente 800 mil euros, em transferências.

Os promotores afirmaram que as movimentações não eram compatíveis com a atividade económica declarada por Pandora. A defesa apresentou uma explicação diferente e afirmou que a conta era utilizada como fonte pagadora das empresas.

O rasto que chega a Portugal

É nos documentos relacionados com Pandora que aparece a ligação a Portugal.

Em junho de 2019, Pandora enviou um e-mail a uma assessora da Transwolff pedindo que entrasse em contacto com uma consultora especializada em imóveis de luxo para tratar da compra de um apartamento.

Pouco depois, um representante da consultora apresentou Pandora a corretores portugueses. Segundo a mensagem, o empresário pretendia comprar uma casa num condomínio na região de Cascais, com um orçamento de aproximadamente 500 mil euros, valor que na época correspondia a cerca de 3 milhões de reais.

O mesmo contacto informava que Pandora também precisaria de apoio no processo de Golden Visa português.

Os corretores apresentaram posteriormente imóveis no condomínio One Living, em Cascais. As propriedades disponíveis tinham preços entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de euros, valores que a reportagem do Metrópoles então estimava em até 9,2 milhões de reais.

A documentação obtida pelo Ministério Público mostra a troca de e-mails entre Pandora, a consultora e os corretores portugueses, além da apresentação das propriedades.

Não há, contudo, informação na denúncia do Ministério Público de São Paulo de que Pandora tenha efetivamente concluído a compra do imóvel em Cascais. A defesa do empresário afirmou que houve apenas uma consulta ou especulação sobre a aquisição.

A investigação sobre o transporte

A Operação Vectura Corrupta é um desdobramento de investigações anteriores sobre a presença do PCC no sistema de transportes de São Paulo.

Segundo os investigadores, 12 das 22 empresas de transportes coletivos da capital paulista são suspeitas de manter algum tipo de ligação com a organização criminosa. A investigação apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro, corrupção, fraude em licitações e financiamento ilícito de campanhas eleitorais.

A Transwolff já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, em 2024. Naquela investigação, o Ministério Público sustentou que recursos atribuídos ao PCC teriam sido utilizados para permitir a participação da empresa na licitação dos transportes públicos da capital.

As autoridades passaram a cruzar as informações obtidas nessa investigação com contratos, mensagens, depoimentos, movimentações financeiras e relações entre empresários e agentes públicos.

A prisão de Milton Leite

A Operação Vectura Corrupta levou à emissão de mandados de prisão temporária contra 16 pessoas. Milton Leite estava entre os alvos.

Depois de inicialmente não se apresentar às autoridades no momento do cumprimento dos mandados, o ex-vereador entregou-se à polícia em 18 de setembro. A Justiça manteve a prisão temporária após as audiências de custódia.

A investigação continua a apurar o papel de cada um dos envolvidos na estrutura investigada.

No caso de Milton Leite, os investigadores analisam a relação do ex-vereador com a Transwolff, mensagens que citam o seu nome, depoimentos de agentes públicos e contratos relacionados com a empresa. Leite nega as acusações.

No caso de Pandora, documentos da investigação anterior mostram, além das movimentações financeiras e das relações empresariais no Brasil, a procura por um imóvel em Cascais.

Foi dessa investigação sobre a Transwolff e Pandora que surgiu o rasto documental que chegou a Portugal.