Cristiano Ronaldo, de 41 anos, quebrou o silêncio sobre a polémica que marcou o último estágio da Seleção Nacional. Num longo comunicado divulgado esta terça-feira, dia 6, o capitão português acusa Jorge Jesus de lhe ter faltado à palavra por duas vezes, explica por que decidiu abandonar a concentração e assume os próprios erros. "Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências", reconhece.

Ronaldo começa por recuar ao Mundial de 2026. O avançado revela que chegou a preparar uma carta de despedida da Seleção, mas acabou por reconsiderar depois de o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) lhe ter pedido para continuar. Foi também questionado sobre a escolha do novo selecionador e garante ter apoiado Jorge Jesus desde o início. "Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa", conta, acrescentando que ficou "genuinamente feliz" quando a decisão foi anunciada.

Segundo Ronaldo, os primeiros contactos com Jorge Jesus foram positivos. Numa reunião na Cidade do Futebol, o treinador terá deixado claro que contava com o capitão. "O Selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto", revela. Foi então definido um plano de gestão física, segundo o qual Ronaldo jogaria "o primeiro jogo e o último", existindo várias alterações entre partidas.

Jesus terá ainda colocado a hipótese de Ronaldo não acompanhar a equipa nas deslocações à Noruega e à Dinamarca. O jogador recusou: "Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo." Segundo o capitão, o selecionador acabou por concordar.

A polémica começou a ganhar forma no encontro com a Noruega. Ronaldo garante que estava preparado para não jogar quando, durante o almoço, foi chamado por um adjunto. Jorge Jesus perguntou-lhe se estava em condições para atuar durante 30 minutos. Apesar de essa utilização estar fora do plano de recuperação inicialmente definido, Ronaldo aceitou. "Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 min."

O capitão aqueceu desde o intervalo, mas nunca entrou. "Vi os minutos a passar e não fui chamado. O Selecionador tinha-me falhado com a sua palavra", acusa. No final do encontro, Ronaldo não foi agradecer o apoio dos adeptos, atitude que agora reconhece ter sido errada. "Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido. Peço desculpa aos portugueses", escreve.

Dois dias depois, Ronaldo, Jorge Jesus e Simão Coutinho reuniram-se para tentar encerrar a polémica. O jogador descreve a conversa como "um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro". Segundo a sua versão, ficou combinado que Jesus esclareceria publicamente que Ronaldo nunca tinha exigido jogar e que tinha sido o próprio selecionador a definir o plano para o estágio.

Ronaldo afirma mesmo que foram preparadas notas para a conferência de imprensa, validadas pelo próprio. Entre as frases que, segundo o documento, Jesus deveria transmitir estava: "Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional." Outra passagem dizia: "Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria."

Mas, segundo Ronaldo, a conferência de imprensa acabou por seguir um caminho completamente diferente. "A postura não teve nada a ver com a nossa reunião", afirma. O capitão diz ter ouvido "expressões e uma agressividade que julgo não merecer" e acusa Jesus de ter demonstrado publicamente uma atitude de "quero, posso e mando" que não tinha tido em privado.

Foi aí que Ronaldo considerou existir uma segunda quebra de confiança. “Era a segunda vez que me estava a faltar à palavra dada. Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra", explica. O jogador garante ainda que chegou a dizer ao presidente da FPF e ao selecionador que, caso já não contassem com ele, bastava serem claros: "Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado."

Apesar das críticas a Jorge Jesus, Ronaldo assume a responsabilidade por ter abandonado a Seleção e pede desculpa aos companheiros. "Eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha", admite. E explica a decisão: "Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí."

O capitão considera ainda que deve ser castigado pela FPF e rejeita qualquer tratamento especial. "Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante", escreve. "Independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos."

Ronaldo termina, no entanto, deixando claro que este episódio não significa, necessariamente, o fim da sua história na Seleção. Admite que haverá tempo para "um ou mais jogos de despedida”, mas garante que, neste momento, continua a pensar em competir e não apenas numa homenagem.

"Se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção", garante, antes de fechar o comunicado com uma última frase: "Esta é, acreditem, a mais pura das verdades."

Leia o comunicado na íntegra: