O soldado ucraniano Kostyantyn Vlasenko viu morrer um companheiro ao seu lado, perdeu um pé na sequência de um ataque russo e, sozinho na linha da frente, foi obrigado a amputar o outro com uma faca. Durante cerca de cinco meses, sobreviveu praticamente isolado numa posição de combate, sem conseguir caminhar e com as forças russas por perto. Quando já não acreditava que pudesse sair dali com vida, um drone ucraniano desceu até à sua posição e levou-o pelo ar, numa operação de salvamento sem precedentes.

Primeiro, um drone russo deixou-o gravemente ferido. Depois, outros drones inimigos impediram que os camaradas o fossem buscar. Durante cinco meses, foram os drones ucranianos que o mantiveram vivo, levando-lhe alimentos e medicamentos. Até que um deles fez aquilo que parecia impossível: retirou-o da frente de combate, pelo ar.

"Já me tinha enterrado vivo", confessou Kostyantyn Vlasenko, de 49 anos, num testemunho divulgado pela agência Reuters.

Este soldado da 30.ª Brigada Mecanizada ucraniana passou um total de 491 dias numa posição de combate na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia. Mas foram os últimos meses que transformaram a sua história num extraordinário relato de sobrevivência.

Vlasenko perdera os dois pés, estava sozinho, não conseguia caminhar e encontrava-se numa zona onde a presença de tropas e drones russos tornava praticamente impossível qualquer operação de salvamento. Mesmo assim, continuava a comunicar com os seus superiores e a transmitir informações sobre os movimentos inimigos.

A história começou em junho de 2025, quando o militar chegou a uma posição conhecida como Vertun, na região de Kupiansk, perto do rio Oskil.

O abrigo era um tubo de drenagem em betão transformado pelos militares num esconderijo subterrâneo. Os soldados tinham aberto um buraco na parte central e escavado um pequeno espaço onde podiam descansar, comer e até preparar refeições.

Não havia condições para grandes comodidades. Mas havia uma espécie de cozinha, construída com os meios disponíveis, e a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, chegasse a ordem para regressar.

Vlasenko contou estes pormenores ao jornalista ucraniano Yuri Butusov numa longa entrevista publicada pelo Censor.NET, na qualk descreve os meses passados naquele esconderijo de betão.  

O problema é que, com o passar do tempo, a presença de drones russos tornou a substituição dos militares cada vez mais difícil. Houve tentativas de alcançar a posição, mas algumas terminaram com a morte de soldados ucranianos.

No inverno, o tubo acabou por ficar inundado. Vlasenko e um companheiro tiveram de abandonar o esconderijo e procurar abrigo entre edifícios destruídos.

Foi aí que tudo se agravou.

Morte em dia de aniversário

Em fevereiro de 2026, os dois soldados foram descobertos por drones russos. Vlasenko sofreu ferimentos graves numa das pernas e, ao tentar recolher mantimentos lançados pelos seus camaradas, lesionou também a outra.

O companheiro, igualmente faminto, rastejou para ir buscar um saco de alimentos. Estava a comer quando foi atingido por uma munição lançada de um drone.

Vlasenko tentou socorrê-lo, mas a escuridão impedia-o de perceber a gravidade dos ferimentos. O homem passou a noite a gemer, sem conseguir explicar onde tinha sido atingido.

Na manhã seguinte, estava morto.

Era 16 de fevereiro. O dia em que completava 50 anos.

"Não consegui salvá-lo", recordou Vlasenko na entrevista a Yurii Butusov.

Ficou sozinho. E estava também gravemente ferido, com as pernas praticamente inutilizadas.

Ainda conseguiu arrastar-se para outro abrigo, numa antiga instalação de aquecimento, onde encontrou alguma proteção contra os ataques. Mas as feridas agravaram-se e, sem assistência médica, o tecido do pé esquerdo acabou por morrer.

Em abril, perdeu esse pé devido à necrose.

O direito também estava gravemente afetado. A articulação encontrava-se deslocada, os tecidos deterioravam-se e o pé arrastava-se pelo chão sempre que o soldado tentava deslocar-se.

Percebeu que, para continuar vivo, teria de tomar uma decisão terrível.

Em maio, colocou o pé sobre um tijolo e pegou numa faca.

"As lágrimas corriam-me pela cara. Tinha de cortar. E cortei", descreveu a Yurii Butusov.

Não havia médicos. Não havia ninguém que pudesse ajudá-lo. Vlasenko fez aquilo que considerou indispensável para sobreviver.

E sobreviveu.

A partir desse momento, ficou sem os dois pés, incapaz de abandonar o esconderijo pelos próprios meios.

“Preferia morrer sozinho”

Os camaradas continuaram a tentar encontrar uma forma de o retirar, mas os obstáculos eram enormes. Os acessos estavam minados, o rio Oskil dificultava as deslocações e os drones russos vigiavam permanentemente o terreno.

Houve militares que morreram quando tentavam chegar à posição. Outros nem sequer conseguiram aproximar-se.

Vlasenko acabou por pedir aos seus superiores que deixassem de arriscar vidas por sua causa.

"Preferia morrer sozinho a que continuassem a morrer outros homens", explicou na entrevista publicada pelo Censor.NET.

Mas os camaradas recusaram abandoná-lo.

De quatro em quatro ou de cinco em cinco dias, drones ucranianos lançavam-lhe alimentos, água, medicamentos e outros produtos essenciais. O contacto por rádio permitia-lhe continuar a receber instruções e a comunicar informações sobre as forças russas.

Os inimigos sabiam que estava ali. Chegaram a enviar-lhe mensagens por altifalantes, incentivando-o a render-se e prometendo-lhe que poderia regressar a casa depois de uma eventual troca de prisioneiros.

Vlasenko recusou.

A solidão, entretanto, tornava-se cada vez mais difícil de suportar. Na entrevista a Butusov, contou como esperava ansiosamente pelas comunicações de rádio dos outros postos militares. Ouvir uma voz humana era suficiente para lhe dar algum conforto.

Até um pedido de chocolate, chá ou cigarros podia transformar-se num pequeno acontecimento.

A mulher também conseguiu fazer-lhe chegar uma encomenda, enviada através dos militares. Dentro estava um livro de Stephen King, The Outsider, que o ajudou a preencher as longas horas de isolamento.

E, por incrível que pareça, houve momentos em que conseguiu rir-se da própria desgraça.

Numa manhã de primavera, quando rastejava para recolher um saco de mantimentos, olhou para o local onde tinha deixado os pés amputados.

Viu uma concentração de borboletas. Eram cerca de 200, recorda, de cores laranja e preta.

"Pensei: meu Deus, até dos meus pés saíram borboletas", contou, com humor, ao jornalista ucraniano.

É uma das imagens mais desconcertantes de toda esta história: um homem mutilado, praticamente sozinho, cercado pelo inimigo e sem saber se alguma vez voltaria a casa, ainda capaz de encontrar motivos para rir.

Uma ambulância com seis hélices

Enquanto Vlasenko resistia, os militares ucranianos procuravam desesperadamente uma solução para o retirar.

Uma tentativa de evacuação terrestre, utilizando um veículo robotizado, fracassou. O equipamento foi descoberto e destruído pelas forças russas.

Foi então que surgiu a ideia de o ir buscar pelo ar.

A operação começou a ser preparada vários meses antes do salvamento.

Os militares recorreram à empresa Gurzuf Defence, fabricante de drones pesados utilizados para transportar material e munições. Um dos seus aparelhos, o hexacóptero Heavy Shot, tinha capacidade para levantar cargas até 130 quilos.

O desafio era transformar aquela máquina numa espécie de ambulância voadora.

O equipamento foi adaptado com um sistema de cabos e fixações que permitiria transportar um homem suspenso durante o voo.

Mas havia um problema: Vlasenko teria de conseguir prender-se sozinho ao aparelho.

Para isso, os camaradas fizeram-lhe chegar um conjunto de equipamentos e um telefone com instruções em vídeo. Era preciso que compreendesse exatamente o que fazer quando o drone chegasse.

O militar confessou mais tarde a Butusov que ficou surpreendido ao perceber que o aparelho iria aterrar mesmo junto dele. Imaginara que ficaria a pairar no ar.

A 4 de outubro de 2026, chegou finalmente o momento decisivo.

O drone desceu até à posição onde Vlasenko se encontrava e desligou os motores. O soldado rastejou até ao aparelho, colocou-se no sistema de transporte e prendeu os mosquetões.

Depois, fez um sinal de aprovação para a câmara instalada no drone. Ainda encontrou disposição para desenhar um coração com as mãos.

E levantou voo.

Sem os dois pés, suspenso por cabos, Vlasenko começou a sobrevoar uma das zonas mais perigosas da frente de combate.

Outros drones ucranianos acompanhavam a operação, procurando protegê-lo de possíveis ataques inimigos.

Um dos aparelhos de escolta foi abatido.

Numa entrevista ao órgão de comunicação social ucraniano TSN, Vlasenko confessou que, naquele momento, tinha consciência de que podia estar perante a última oportunidade de escapar com vida.

"Era a última oportunidade. Tinha de agarrar-me àquela hipótese, porque não haveria outra", contou.

Curiosamente, não foi a altura que mais o assustou.

Ao atravessar o rio Oskil, Vlasenko pensou na possibilidade de o drone ser abatido e de cair à água.

"Tive medo que nos abatessem quando passávamos sobre o rio. Não sei nadar", revelou a Yurii Butusov.

Segundo os dados fornecidos pela Gurzuf Defence ao TSN, o drone percorreu 62 quilómetros durante um voo que durou uma hora, 14 minutos e 36 segundos.

O salvamento ainda não tinha terminado. Numa posição intermédia, Vlasenko foi transferido para um veículo terrestre não tripulado, que o transportou durante mais oito quilómetros, até poder ser entregue às equipas médicas.

Estava finalmente a salvo.

Segundo as Forças Armadas ucranianas, esta foi a primeira operação conhecida em que um militar ferido foi retirado diretamente de uma posição de combate por um drone aéreo.

O salvamento ficou registado em vídeo, incluindo o momento em que o aparelho levanta voo com o soldado suspenso por baixo.

Para Vlasenko, porém, o que ficará para sempre na memória é o som da máquina que o foi buscar.

"Parecia que estava a aterrar um helicóptero. Era um ruído profundo e ensurdecedor. Nunca esquecerei aquele som. Era o som do salvamento", contou à Reuters.

Depois de tantos meses em que o ruído dos drones anunciava perigo, aquele tinha um significado completamente diferente.

Uma filha à espera do pai

Hoje, já em segurança e a receber tratamento hospitalar, Vlasenko enfrenta uma longa recuperação. Terá de aprender a viver sem os dois pés, mas conserva o sentido de humor e a vontade de regressar à vida que deixou para trás.

Numa entrevista ao TSN , revelou que deseja voltar a estar com a família e não exclui, depois da recuperação, continuar a ajudar os militares ucranianos, eventualmente em funções de retaguarda.

Mas há, sobretudo, uma pessoa que quer abraçar: a filha.

Durante o tempo em que esteve na frente de guerra, perdeu o casamento dela. Ainda nem sequer conhece pessoalmente o genro.

"Quero muito abraçar e beijar a minha filha. Quero muito conhecer o marido dela", confessou ao TSN.

É uma das primeiras coisas que deseja fazer quando puder voltar para casa.

Durante meses, Kostyantyn Vlasenko viveu com a convicção de que nunca mais sairia daquele esconderijo. Sobreviveu a bombardeamentos, à perda dos dois pés e a uma solidão que chegou a considerar insuportável.

Foi preciso transformar uma máquina concebida para transportar material de guerra num instrumento de salvamento para o retirar dali.

O homem que dizia já se ter enterrado vivo tem agora uma vida para reconstruir. E uma filha à espera de o abraçar.

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