
Luís Campos Ferreira
Há uma categoria de organismos na natureza, chamada saprófitas, que se alimentam de matéria em decomposição ou já morta. Só prosperam com o podre que cai dos outros organismos vivos. Vivem dos restos, do que apodrece, da matéria orgânica em degradação. A sua função, dizem, é reciclar. Mas antes disso, alimentam-se da podridão dos sistemas que habitam.
Não têm propriamente um grande propósito, nem trazem grandes benefícios. Daí, não serem de grande interesse. Paralelamente, normalmente estou pouco interessado nos delírios dos bullies ideológicos, sejam de esquerda ou de direita, que se alimentam do descontentamento e exploram o pior do nosso sistema. Não acrescentam, não melhoram a vida de ninguém, e muito menos a dos que dizem defender. Mas há momentos em que o silêncio é cobardia e desta vez, achei importante usar a minha voz não vá um dia ficar sem ela.
Este texto não é para os profissionais do ressentimento que já perceberam como capitalizar o descontentamento. É sim, um alerta dirigido à minha geração, principalmente aos que ainda acreditam que vale a pena participar na vida política com sentido de responsabilidade.
Ultimamente, principalmente nas redes sociais, surgiu a moda de idolatrar mitos reciclados do passado, em apologias cansadas a ordem e honestidade. Uma espécie de ‘La Belle Époque’ para tolos. E desta vez, foi no próprio Parlamento português que se ouviu, com entusiasmo, um apelo a alguém que, entre outras proezas, deixou-nos um país pobre e atrasado, numa espécie de romantismo palerma e revisionista.
Mas sejamos práticos. A maioria dos que têm apoiado estes partidos, não aparentam estar preocupados com censuras ou com o policiamento político feito pelos media. Também não estão interessados nas incoerências de quem finge lhes dar voz. E, sejamos claros, a solução não passa por insultar quem está revoltado. O caminho será sim dar-lhes motivos para não o serem.
O populismo bacoco que tem galvanizado muita gente não é propriamente uma doença. É mais um sintoma. Atacá-lo diretamente é como tomar analgésicos para uma fratura exposta: mascara a dor, até o problema se tornar fatal.
O verdadeiro prelúdio do que vivemos hoje foi a incapacidade de reconhecer os problemas do país real. Quem, durante muito tempo, não quis ouvir estas dores, ouvias agora nas urnas e nas ruas.
Por outro lado, estes vácuos que agora são preenchidos, foram criados pelo amargo legado de quem, no passado recente, criou problemas estruturais no país em nome de ganhos de curto prazo. Foi esta irresponsabilidade, somada à fina arrogância de uma elite política, que criou um terreno fértil para o crescimento de extremos.
Dito isto, o meu apelo é simples: se levamos a política a sério, então que sejamos exigentes com quem nos representa. Leiam os programas e votem em quem julgam apresentar soluções racionais, e não em quem berra mais alto. Não se deixem encantar por falsos profetas que já há muito se esqueceram que as ideologias existem para servir as pessoas, não o contrário.

Luís Campos Ferreira
Há momentos decisivos na História que passam quase despercebidos. Parecem apenas mais um virar de página, mas com o tempo percebemos que eram, na verdade, um iniciar de um novo capítulo. Vejamos o exemplo da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Na altura, poucos adivinhavam que aquele passo viria a transformar o país na maior fábrica do mundo. Só anos depois conseguimos compreender o verdadeiro impacto.
Acredito que vivemos agora um desses episódios. Uma espécie de “turning point” que, apesar de não ter passado propriamente em branco, só daqui a uns anos vamos conseguir avaliar o verdadeiro efeito borboleta. Bruxelas, depois de anos a legislar primeiro e a inovar depois, parece finalmente ter invertido a lógica. As advertências de Mario Draghi, feitas há mais de um ano, começam a produzir frutos. Ao que parece, a Europa percebeu que é necessária alguma proatividade no investimento tecnológico.
Quando o AI Act entrou em vigor, a sensação geral foi de que tinha uma lógica de travar primeiro e acelerar depois. Não obstante a legislação ser de extrema importância por proteger direitos e interesses legítimos, acabou por simbolizar uma espécie de obsessão regulatória que nos caracteriza. Um pouco como as infames tampas presas à garrafa de plástico: partem de uma boa intenção, mas teimam em funcionar como uma armadilha acrobática, do tipo boomerang, contra quem só queria dar um primeiro gole. O mundo digital europeu tem sofrido do mesmo mal.
Porém, agora no início de outubro, a Comissão Europeia anunciou um investimento de pouco mais de mil milhões de euros para impulsionar a utilização de Inteligência Artificial na indústria (Apply AI Strategy de 7 de outubro de 2025). O gesto é positivo e serve de primeiro passo numa corrida em que já estamos atrás. O problema? A escala. Apesar de o plano europeu não ficar por aqui, basta olhar para os números. Como noticiado pelo Fortune a 7 de outubro de 2025, no artigo “Without data centers, GDP growth was 0.1% in the first half of 2025, Harvard economist says”, de acordo com Lisa Shallet, chief investment officer da Morgan Stanley Wealth Management, o investimento das tech americanas em infraestruturas de IA ronda já os 400 mil milhões de dólares por ano. Face a isso, os planos europeus parecem… simbólicos. Convém também ter em conta o potencial de crescimento que temos pela frente. A título de exemplo, segundo Jason Furman, economista de Harvard, citado no mesmo artigo, se não fosse o crescimento impulsionado pelo “investimento em centros de dados e tecnologia de processamento de informação”, os Estados Unidos teriam crescido apenas 0,1% no primeiro semestre de 2025.
Como já vimos, partimos de trás, mas ainda assim, é um início. Não se fazem corridas sem dar um primeiro passo. Precisamos só de acelerar. Porque o que está em causa não é apenas o crescimento económico. É, sim, a capacidade de a Europa continuar a poder escrever as suas próprias regras no futuro.