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Alexandre Pais

ATÉ DEUS DESISTIU DA VENEZUELA

Alexandre Pais

“Há mais armas que país”, dizia aos repórteres, num misto de desespero e resignação, um venezuelano sem acesso a material pesado ou sequer a uma simples rebarbadora e condenado a procurar a família debaixo dos escombros com o recurso dos pobres: as próprias mãos.

Quando se fala do ‘chavismo’ e das suas perversões, omite-se um facto relevante: Hugo Chávez emergiu porque a democracia venezuelana foi um desfilar de atos de corrupção para deitar mão ao dinheiro do crude. Desgraçadamente, a revolução ‘bolivariana’ cedo se transformou num projeto unipessoal, com o poder assente num líder e numa corte imensa de oportunistas que se constituiu em guarda pretoriana do ditador. Como sempre, ela substitui o Estado e decide quem se senta à mesa das mordomias e quem é perseguido, preso ou morto por discordar do ‘salvador’ da pátria.

Não tendo Nicolás Maduro a autoridade natural de Chávez, nem a sua dimensão política, foi apenas um ‘clown’ o que Donald Trump retirou do ‘bunker’ de Caracas. Tal como não é mais que uma sombra a presidenta interina, Delcy Rodríguez, que os Estados Unidos deixaram ficar no comando do país para fazer o que um líder eleito não quereria: ser uma marioneta dos Estados Unidos. Daí que os venezuelanos pareçam condenados a continuar sob a pata da ditadura, com os beneficiários da boa vida, aqueles que não têm de se ‘abastecer’ nos supermercados vazios ou nas farmácias onde não existem remédios, a esquecerem Maduro e a obedecerem a Trump, cumprindo o único objetivo que têm na vida: manter os seus privilégios.

Ora, se a situação de um país pobre, decapitado e entregue a um aparelho de sicários já era trágica, os sismos de 24 de junho tudo pioraram, dando aos crentes a ideia de que até Deus desistiu da Venezuela. É que os males da tirania, da falta de liberdade individual à carência alimentar, passando por todo o tipo de outras privações, revelaram dispor ainda de uma face mais cruel quando a terra tremeu, largas centenas de edifícios desabaram, milhares de pessoas ficaram soterradas e o cenário se tornou numa visão do próprio inferno. Como e com quê acudir às vítimas?

Se um regime prejudica a sua produção petrolífera porque deixa deteriorar os equipamentos e não os substituiu, se não consegue garantir o abastecimento de bens essenciais à população, se gasta parte substancial do orçamento na compra de armas, se aceita ser governado por uma potência estrangeira e se continua a sustentar uma clientela que suga os escassos recursos que restam, imagina-se a disponibilidade financeira para o que devia importar. Da aquisição de maquinaria pesada, tão necessária nestes dias terríveis, aos meios indispensáveis a bombeiros e socorristas ou à dotação de instrumentos de diagnóstico e tratamento que possam salvar vidas nos hospitais. Para nem sequer relevar o sistema que permite ou não autorizar a construção de edifícios e a fiscalização das obras. Quantos prédios terão agora tombado por défice de cimento e de fundações adequadas?

Seria demagogia atribuir à ditadura o que é da responsabilidade da Natureza. Como não seria sério não reconhecer que país algum do Planeta, por muito desenvolvido que seja, possa acudir de imediato e a toda a gente, com o pleno dos meios. Mas a falta de ferramentas que possibilitem socorrer os sobreviventes em tempo útil é por demais evidente. E a necessidade de os sinistrados que chegam aos hospitais (os que ficaram de pé) terem de levar consigo os medicamentos é de uma brutalidade infinita. Tudo porque aos herdeiros do ‘chavismo’ nada interessa o povo, de que nunca cuidaram. E também por isso, equipas de resgate enviadas por dezenas de países solidários são bloqueadas e inspecionadas durante horas, enquanto mais vítimas soçobram sob os escombros. Ao mesmo tempo, jornalistas de todo o Mundo são condicionados pelo exército, de modo a esconder a tragédia e a negligência de um regime que vive do nepotismo e da propaganda.

Talvez um dia Trump preste contas aos norte-americanos por estes dias de raiva – e por ter ficado com o petróleo e deixado os tiranos no poder. Que Deus salve a Venezuela.

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Publicado em 01 julho de 2026
Alexandre Pais

INVEJOSOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!

Alexandre Pais

Não há reforma laboral, falhas do SNS, aumento de preços dos combustíveis, entrevistas de André Ventura, gatunagem à solta ou Prestação Social Única que nos excite particularmente por estes dias. Tudo gira hoje em torno do Mundial de Futebol ou, melhor dito, ao redor da utilização plena, da menor utilização ou até da não utilização de Cristiano Ronaldo na equipa das quinas. É a guerra aberta entre os incondicionais, radicais ou moderados, do capitão da Seleção, e os seus diabolizadores, que vão do imbecil ao acéfalo. Poder falar mal de um ícone global proporciona-lhes, julgam eles, o estatuto que a vida lhes recusou.

Compreende-se que se ache que Cristiano já não é o mesmo dos melhores tempos. Não o poderia ser aos 41 anos. Falha por vezes golos que noutras alturas não falharia? É verdade. O que é mais difícil de aceitar é que não se entenda que ele é ainda o nosso jogador mais eficaz na sua posição e é por isso que é convocado. Por isso e pela intensa paixão que mantém pelo jogo, e pelo entusiasmo dos 18 anos com que continua a subir ao relvado e a perseguir o sucesso.

Mas não só. É que do ponto de vista estratégico, os 11 da Seleção jogam normalmente contra 10, pois a simples presença de CR7 em campo obriga o adversário a ter não um, mas pelo menos dois defesas ‘em cima dele’, libertando espaço para os outros avançados. E em termos mentais Cristiano constitui uma inspiração para os companheiros, que sentem em ação, ao seu lado, um dos melhores jogadores de sempre e o maior goleador da história do futebol. Finalmente, há que ter em conta esse ‘pormenor’ do prestígio, da admiração com que é visto pelos opositores. E pelo respeito que se nota até nos árbitros. A ingenuidade é morta.

De fora, fica a gratidão pelo que a equipa de todos nós logrou, ‘transportada às costas’ por Cristiano Ronaldo e por uma plêiade de grandes talentos: com 3-títulos-3 nos últimos dez anos, temos a seleção mais vitoriosa do Planeta, coisinha pouca. Como alguém lembrou há dias, e foi apenas um exemplo, sem os dois golos de Cristiano à Hungria não teríamos sequer ultrapassado a fase de grupos no Europeu de 2016. Mas que interessa isso? Na final, contra a França, ele quase não jogou… lembram, ressabiados, os detratores.

Quando se sublinha uma evidência, que os anos passam sobre Cristiano, há que distinguir dois tipos de críticos: os racionais e os descerebrados. Os primeiros – que metem a cabeça de fora logo haja um ou dois jogos sem golos de CR7 – disfarçam as suas reservas atrás de um problema que Jorge Jesus resolveu, com sabedoria, no Al-Nassr, e que foi a gestão na utilização do seu principal futebolista. Mal um jogo ficava resolvido, JJ substituía-o. E quando havia partidas pouco ou nada relevantes, nem sequer o convocava.

Foi essa opção de mestre que possibilitou que Cristiano chegasse ao Mundial em excelentes condições. E Roberto Martínez deu indicações de que seguirá por esse caminho ao longo do torneio, até porque existe a expectativa de que a Seleção possa vir a disputar oito jogos. E ninguém é de ferro. Além do capitão, titulares habituais como Rúben Dias, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Gonçalo Inácio, Rafael Leão ou mesmo Bruno Fernandes estão nos Estados Unidos com largas dezenas de jogos nas pernas e o inerente castigo físico. Sim, ninguém, Cristiano incluído, tem de jogar sempre ou jogar o tempo inteiro. Dessa gestão, aliás, dependerá em grande parte o êxito ou o inêxito da Seleção neste Mundial.

 

Resta-me falar nos ‘haters’, muitos deles acéfalos. E aí as coisas tornam-se mais claras. Porque é puro ódio social – com o seu rol interminável de matizes – o que alguns portugueses alimentam pelo compatriota que tornou o País mais conhecido em todo o Mundo. Porque ganha demasiado, quando recebe de acordo com as receitas que gera. Porque está a apoiar um país onde não existe igualdade de género, sem se ter em conta os avanços nos direitos das mulheres que a sua chegada à Arábia Saudita permitiu. Porque foi recebido por Donald Trump, como se fosse o único ou o Presidente norte-americano não tivesse sido eleito pela maioria dos eleitores. Porque é vaidoso, como se o que conseguiu na vida pudesse não resultar em óbvio motivo de orgulho.

Enfim, tudo serve para tentar, sem sucesso é certo, denegrir a imagem de um grande embaixador de Portugal, de um homem que do nada se tornou na personalidade mais popular da internet: é a única figura planetária que soma acima de mil milhões de seguidores. E é por ele que os jogos em que participa a Seleção Nacional nos Estados Unidos foram os primeiros a esgotar as lotações, com as vendas a atingirem, entretanto, no mercado negro, valores estratosféricos. Mas como nada disso acalma os demónios pousados nos ombros dos ‘haters’ de Cristiano, antes da partida de hoje contra o Congo quero incentivá-los a adotarem a palavra de ordem que melhor os define: ‘Invejosos de todo o Mundo, uni-vos!’ É a vossa hora. E pode correr-lhes tão mal…

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Publicado em 17 junho de 2026
Alexandre Pais

UM VERÃO DE GUERRA NAS PRAIAS

Alexandre Pais

Maria da Graça Carvalho, titular da pasta do Ambiente e da Energia, é bem capaz de ser a melhor ministra deste Governo. Pelas decisões que toma, pela coragem com que dá o peito às balas e pelas explicações a que não se furta – seja nas estações de TV ou nas redes sociais – e nas quais demonstra experiência, bom senso, conhecimento e preparação. Merecia, por isso, ter quem lhe facilitasse a vida e não lhe arranjasse mais preocupações do que as que tem. 

Só as contestações à construção de novas barragens por parte dos colecionadores de calhaus e dos protetores de libelinhas ou a resistência de populações pouco esclarecidas à instalação de minas de lítio e de aterros sanitários já lhe deviam bastar. Mas tem muitos outros problemas bicudos pela frente, como o da Herdade da Comporta e do ‘cerco’ a meia dúzia de praias públicas da zona. Avançando os planos dos investidores, deixar-se-ia de cumprir o que determina a lei: a não existência de praias privadas em Portugal.

Como se fosse coisa pequena o que está em jogo e que interfere diretamente com a qualidade de vida dos portugueses, houve há dias uma ‘inteligência ambiental’ superior que resolveu inventar. Infelizmente, não uma forma de ajudar os municípios a contratar os 265 vigilantes que faltam nas praias, uma ninharia. Optou por uma polémica para fazer prova de vida e animar a atualidade informativa no pré-verão: a magna questão da localização dos guarda-sóis particulares nas praias concessionadas.

Ora, o que se passava até agora era uma relação pacífica e consensual entre concessionários de 30 por cento do espaço público à beira-mar e os utentes em geral, que colocavam chapéus de sol, cadeiras e outros equipamentos pessoais nas zonas laterais às concessões ou seja, nos restantes 70 por cento de área disponível. Era uma forma ordeira e natural de cada um disfrutar com tranquilidade do sol e do mar, e de os empresários garantirem, por sua vez, o retorno dos investimentos, continuando a apoiar os nadadores-salvadores e a cederem gratuitamente chuveiros, lavabos ou simples lava-pés aos banhistas, pagantes ou não.

Com a ‘clarificação’ da regulamentação por parte do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (AP), José Pimenta Machado, e da própria ministra – vá lá entender-se porquê – teremos um verão pleno de conflitos que se deviam ter evitado. Guarda-sóis avulsos instalados ao lado, ou mesmo ‘em cima’ de espreguiçadeiras alugadas, acesso ao mar dos nadadores-salvadores dificultados ou até barrados pela traquitana de famílias inteiras – a que se juntará a ausência tradicional da autoridade marítima nas praias – são o caldo perfeito para uma guerra social espúria. O líder da APA, que está no cargo há um ano e meio e que no verão de 2025 não se lembrou disto, ‘resolveu’ o imbróglio com um ‘comunicado’. Não chega. O caso ganhou uma dimensão que impõe que Maria da Graça Carvalho venha a terreiro e que seja ela a pôr os pontos nos ‘is’ de modo a que não restem dúvidas.

Do muito que retive de centenas de episódios da série norte-americana ‘Dr. Phill’, aprendi depressa uma coisa: há pessoas perturbadas, ou apenas malévolas, que todos os dias saem de casa com o único objetivo de arranjar conflitos. E não só nos Estados Unidos. Agora imagine-se o que se irá passar num país onde, por exemplo, num tribunal se apontam armas a guardas da GNR para se libertar um preso ou num hospital se agridem seguranças e enfermeiros por não serem tão ‘diligentes’ como gostariam os energúmenos. Não será preciso esperar muito para que os nossos areais se transformem em arenas: concessionários tentando proteger o seu negócio e provocadores aproveitando a oportunidade para fazer baderna e lançar o caos numa qualquer praia do território. E a conclusão é simples – abrimos uma caixa de Pandora de maneira nada inteligente, sofreremos estupidamente as consequências.

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Publicado em 03 junho de 2026
Alexandre Pais

A CONCERTAÇÃO DESCONCERTADA

Alexandre Pais

A nova lei laboral acabou no Parlamento, ou seja, acabou onde devia ter começado não fosse esse ‘faz de conta’ que é o Conselho da Concertação Social.

Haverá países que poderão discutir a relação entre patrões e trabalhadores com a maturidade que se exige no tratamento de um tema que é vital para o desenvolvimento coletivo: mais e melhores empresas, empregados mais qualificados e mais bem pagos.

Ora, Portugal tem sindicatos radicalizados porque a sua defesa de quem trabalha inclui igualmente a de quem não trabalha – e não porque não possa, essa desculpa-se, mas por absoluta calanzice. Há empresas sobrecarregadas com uma percentagem inaceitável de parasitas, gente que pura e simplesmente nada produz. E que se agarra como lapas a postos de trabalho que outros ocupariam com entusiasmo, vontade de construir uma carreira e alcançar uma vida melhor.

Da mesma forma, temos por cá um patronato retrógrado, que paga mal e que pretende eternizar os baixos salários por muito que lhe aumentem os lucros. Aquela ideia peregrina do 15.º mês, que pode afinal ser apenas um dia, define bem o calibre das cabeças duras com que as cabeças duras do outro lado têm de lidar. E a sua dependência de benesses do Estado, sempre que cedem umas migalhas, é uma vergonha.

É no meio destes eternos e pouco inteligentes inimigos que os governos se têm movimentado, num arremedo de concertação social que só vinha sendo possível por se contar com a eterna rendição da UGT a troco de um prato de lentilhas. A CGTP já nem é chamada à conversa – e bem. Não está interessada em nada que retire os trabalhadores da sua zona de conforto, ainda que isso possa constituir a asfixia de algumas empresas, nem vale a pena perder tempo com simulações de negociações com quem, honra lhe seja, se recusa a participar na comédia.

Trata-se, de facto, de um embuste, em que todos fingem ‘negociar’ desde que não seja preciso renunciar a coisa alguma. Desde logo

porque as centrais sindicais representam hoje menos de 10 por cento dos trabalhadores e para que a situação não se agrave só estão ‘autorizadas’ a aceitar uns retoques de cosmética. Depois porque os patrões, que aguardam pacientemente mais uma alineazinha que facilite os despedimentos – de quem não cumpre as suas tarefas ou de quem cumpre mas chateia – vivem na esperança de mais uns pozinhos de benefícios fiscais que caiam da mesa do Orçamento. Durante longas semanas, uns e outros representaram os respetivos papéis, na expectativa de novos direitos sem novos deveres. É o desconcerto social.

O grande problema de hoje é que se apresenta um Governo com a vontade legítima de provocar uma mudança, de não ceder no caminho para um tipo de economia em que acredita e de insistir na aprovação do que definiu como ‘traves-mestras’ da regulação laboral. Para já, tem um objetivo pela frente e que não é fácil no quadro atual: encontrar na Assembleia da República uma maioria. Se conseguir aprovar a nova lei, arcará a AD com as respetivas consequências, boas ou más, nas próximas ‘legislativas’. Aliás, fazem-se eleições para isso – reforçar o poder de quem governa com bons resultados ou mandar para casa reformadores falhados. É aí, na frieza das urnas, que funciona a verdadeira concertação social, aquela que nunca nos falha.

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Publicado em 20 maio de 2026
Alexandre Pais

POLÍCIAS QUE DESERTARAM PARA O LADO DOS BANDIDOS

Alexandre Pais

Corria o ano da graça de 1968, ai, ai, quando ao anexo onde funcionavam os Serviços de Gravação da Emissora Nacional chegou a notícia de que um colega meu, o ‘operador Marcelino’ (nome fictício), não iria cumprir o seu turno: tinha levado uma tareia numa esquadra de Lisboa. Saíra com amigos na noite anterior, terão bebido uns copos, foram ‘dentro’ e, palavra puxa palavra, o ‘Marcelino’ acabou por se envolver fisicamente com os agentes e levou um ‘ensaio’. Quando voltou à rádio, dias depois, apareceu com a cara toda amassada. Se bem me lembro, apresentou queixa, mas o ‘papel’ caiu em saco roto. Outros tempos. O ‘25 de abril’ veio pôr fim a essa e a outras impunidades. O problema é que o regime democrático não foi capaz de criar e desenvolver uma relação salutar, de respeito mútuo, entre cidadãos e forças policiais, e de equilíbrio entre direitos e deveres – essa velha pecha que sempre nos perseguirá.

Ainda não há muito, a Relação de Guimarães anulou a condenação de um homem que insultou um militar da GNR, chamando-lhe “burro”. Numa primeira decisão do tribunal, o arguido teria de pagar 1.260 euros de multa, mas a Relação absolveu-o, considerando que se tratou de “um desabafo”. Não fizeram mais os doutos juízes do que seguir o exemplo do tribunal de Paredes, que havia inocentado um troglodita apanhado pela GNR a arrastar a mulher pelo pescoço em plena rua – na sequência de outros casos de violência doméstica perpetrados pelo arguido e registados pelas autoridades. E a absolvição abrangeu também o crime de ofensas e ameaças aos militares que o detiveram, a quem chamou “cobardes”, prometendo persegui-los. A juíza entendeu aquilo – e cá está a desculpa – como “um desabafo”.

Veremos em breve que pena aplicarão os ilustres magistrados ao único energúmeno que foi possível identificar – por inexistência de câmaras de videovigilância – de um grupo de 30, detido há dias em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, após desacatos que resultaram em quatro agentes da PSP agredidos, “com socos na face e golpes nos membros inferiores”, tendo um deles sofrido fratura do nariz. ‘Desabafos’ dos nossos tempos.

Estes desajustes entre as leis e a sua aplicação são apenas mais um dos motivos que conduziram as forças de segurança ao lamentável estado em que elas estão hoje. Há escassez de armas e coletes porque é preciso cumprir os orçamentos e se possível reduzi-los. As instalações estão degradadas porque as obras urgentes nunca são uma prioridade. As viaturas estão obsoletas ou inativas porque substituí-las custa fortunas e as que andam não circulam porque a ordem é poupar nos combustíveis. A utilização das câmaras individuais vai sendo sempre adiada e a vigilância por vídeo em zonas problemáticas é atrasada porque há que proteger os dados, seja lá isso o que for. Os efetivos são escassos porque não se pode gastar mais em salários, estes são baixos porque o país é pobre e por tudo isso as inscrições nos concursos não cobrem as vagas – ninguém quer ser polícia para ser mal pago e maltratado.

Sim, mais do que a falta de condições é esse défice no reconhecimento que leva pessoas normais a não quererem isso para a vida delas. Arriscam o seu bem-estar e o das suas famílias por tuta e meia para verem depois os tribunais soltarem os criminosos e absolverem-nos de agressões e ‘desabafos’? E correrem ainda eles o risco de ser condenados pelo azar de uma bala perdida ou pelo uso da força perante atos de ameaça e de desobediência cada vez mais numerosos e mais violentos? Só se tiverem um sentido do dever para além dos limites do bom senso ou uma vontade de servir que a sociedade que somos não merece. Ou, claro, se forem maluquinhos.

Mas… aqui chegados, julgará o leitor que estou a relativizar os gravíssimos crimes atribuídos a duas dezenas de elementos da PSP, recentemente detidos, o que não é o caso. Venho do tempo da brutalidade policial que ficava sem castigo e sei bem o que passaram tantos ‘operadores Marcelinos’ entre as paredes de uma esquadra ou no simples trato com agentes lateiros. O que pretendo é demonstrar que as forças de segurança são hoje instituições onde é fácil a ‘invasão’ de gente mal formada, frustrada, ressabiada e criminosa, que lá encontra um caldo de cultura em que a desmotivação profissional criada pela precariedade das condições de trabalho se cruza com o sentimento de injustiça pela retribuição modesta e com a revolta pela brandura com que tantas vezes se pune, ou não se pune, a bandidagem.

 

Pessoas malévolas, daquelas que saem de casa prontas para arranjar sarilhos, existem em todo o lado e espalham-se pelas diversas profissões, sejam políticos ou padres, médicos ou jornalistas. No jornalismo, aliás, encontrei algumas e eu próprio nem sempre mantive as asas de anjinho. Como se esperaria, então, que a PSP, que perdeu quase todos os quadros intermédios – que ajudavam na integração dos mais novos – e hoje quase só tem chefes feitos a martelo e jovens mal preparados e com tendência para o disparate, escapasse a uma maldição que atravessa toda a nossa sociedade?

Não podia ser e digo mais: duvido que a dimensão do que se passou nas esquadras do Rato e do Bairro Alto seja apenas aquela que nos mostram. Tendo o início da ação contra a violência animalesca partido do interior da corporação, é óbvio que muitos dos envolvidos foram avisados, muitas gravações – que imbecis fardados fizeram para serem mais facilmente acusados, veja-se a estupidez – foram apagadas e muitas vítimas foram ‘advertidas’ para que se calem. A maldade não se erradica e a lei da selva renovar-se-á.

Gosto de polícias e escrevi milhares de carateres, ao longo de décadas e em múltiplos meios de comunicação, a defender a Polícia. Mas para esta cáfila desumana, perversa e brutal, que desistiu de defender os cidadãos e desertou para o lado do mal, que não haja contemplações nem diminuam os ‘desabafos’. A Justiça que faça o seu caminho – sem desculpas, nem hesitações.

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Publicado em 11 maio de 2026
Alexandre Pais

EM DEFESA DE CRISTINA FERREIRA

Alexandre Pais

Chama-se lei do retorno e infelizmente nem sempre é cumprida. Mas desta vez tocou a Cristina Ferreira, vítima ao que diz a TVI, em comunicado, de “um coro de críticas, com particular repercussão nas redes sociais”, as mesmas plataformas até hoje utilizadas pela apresentadora do ‘Dois às Dez’ para que seguidores fanáticos persigam quem não é do seu agrado. E o façam de modo idêntico ao que a estação de Queluz agora repudia. E volto a citar: “Lamenta-se a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas e disseminadas”. Ou seja, Cristina a provar do próprio veneno.

Pois foi exatamente uma ‘manipulação grosseira” o que fez a TVI a propósito de uma crónica que assinei no ‘Correio da Manhã’, em 2023, e na qual me referi ao excesso de peso de Maria Botelho Moniz e à falta de ginásio de Cristina – uma opinião pouco feliz, embora baseada em evidências, e que fez de mim o misógino que não sou. Como tal, fui então lançado às feras na TVI: à tarde, numa entrevista enviesada de Manuel Luís Goucha a Maria B. Moniz, e à noite, no Jornal Nacional, com uma Sandra Felgueiras a deitar chispas pelos olhos. E, claro, fui lapidado num arraial de histerismo no Instagram e sei lá mais onde pelos bajuladores de Cristina, gente treinada no insulto e com a vidinha mal resolvida. Muitas delas serão as mesmas criaturas que dirigem por estes dias impropérios à ex-amada criadora, acusada, calcule-se, de ser machista. O karma é tramado.

Dito isto, passo à polémica que motivou uma série de reações desproporcionais, que já vão em milhares (!) de queixas à ERC e de petições para retirada de La Ferreira de antena. E anúncios de queixas-crime, promovidos por anónimos e individualidades avulsas ou associações disto e daquilo, verdadeiras ou falsas, numa dimensão que raia o ridículo. Não pelo problema, que não é para brincadeiras, mas pelo exagero das repercussões. Cristina é acusada de ter minimizado uma agressão sexual gravíssima, uma violação em grupo de uma menor por quatro imbecis que, como influenciavam (?) muitos anormais como eles, se julgavam no direito de fazer o que lhes apetecesse. Interessa zero o que lhes fez a ‘adrenalina’, da condenação do que fizeram é que não nos podemos afastar.

Ao debater o assunto no ‘Dois às Dez’, da TVI, Cristina disse (como se estivesse à mesa no café): “Há que ter noção dos riscos quando se combina um encontro a quatro. Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve, e claro que têm de ouvir, mas alguém entende que ela não quer mais?” Palavras perigosas, proferidas com a intenção de provocar a discussão no painel de ‘especialistas’ e não certamente de relativizar o consentimento ou de justificar o injustificável. Mas que não tiveram em conta a gravidade de um caso que deve ser tratado com pinças para que não restem dúvidas a outros javardos que ‘não é não’, seja dito no início, a meio ou perto do fim. Essa é a tecla onde se deve bater. O resto serve apenas de ruído e retira o foco do comportamento repugnante e do crime.

Resta-me referir a falta de sensibilidade e de empatia na abordagem, na ligeireza a tratar de um tema delicado. Isso deu-se porquê? Porque Cristina não se prepara. É uma comunicadora sem escola, ganhou fama depressa de mais, deslumbrou-se com o sucesso e o desafogo financeiro. E com chachadas pretensiosas como o ‘Cristina Talks’, para as quais não dispõe de credenciais, sejam académicas, profissionais ou sequer de experiência de vida. A sua arrogância chegou ao ponto de se julgar até capaz de ser Presidente da República! E é essa falta de noção que a faz largar pela boca fora qualquer coisa que lhe venha à cabeça – ela acha que tudo o que diz são pérolas. Não distingue as boçalidades que modera, em alguns programas, das matérias sensíveis cujo debate exige ponderação, estudo e preparação. Aconteceu-lhe mais uma vez, tornou-se num padrão – já se tinha espalhado noutras ocasiões – e agora a castanha rebentou-lhe na boca. Talvez lhe faça bem, talvez aprenda. Ou talvez o seu ego descomunal não lhe permita o banho de humildade que o bom senso aconselharia.

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Publicado em 21 abril de 2026
Alexandre Pais

NÃO HÁ FESTA SEM ISALTINO NA FESTANÇA

Alexandre Pais

A inveja social continua a mandar em Portugal, rima e é verdade. Ainda há dias se ouvia o clamor pela reforma dita milionária de Mário Centeno, ao cabo de 35 anos de um serviço de topo para o qual se preparou arduamente – sendo a última década passada como ministro das Finanças, e bom, e governador do Banco de Portugal – e já temos de volta nova festança, não com Dona Constança mas com o infindável caso dos almoços de Isaltino Morais. Vamos por partes.

Dez mil euros brutos e cerca de dois terços desse valor líquido para Centeno dão a volta à cabeça de quem ganha pouco – mereça ou não um salário melhor – e indignam, claro, os subsídio-dependentes para os quais tudo o que recebem do Estado devia passar pelo menos para o triplo. Sei do que estou a falar porque tive um amigo que reclamava que a boca dele era igual à de um cirurgião, de um cientista ou de um piloto de avião e não compreendia porque não ganhávamos todos, os preparados e os burros, a mesma quantia…

Mas esse ‘modelo’ coletivista, ou até albanês dos tempos do sinistro Enver Hoxha, acabou como acabou nos países que o adotaram, pelo que se torna hoje incompreensível que ainda encontremos saudosistas da ‘bela’ vida que era haver trabalhadores a esforçar-se para sustentar os parasitas – e viverem uns e outros alegremente na miséria.

Quanto ao estafado imbróglio que envolve Isaltino de cada vez que muda a hora, tudo parte do mesmo raciocínio invejoso e despeitado: eu pago o que como, independentemente de ser um borra-botas, e ele come à borla apesar de ser um autarca ‘n’ vezes eleito com maiorias absolutas – pelo que realiza, sim, mas também pela sua forma de encarar e celebrar a vida.

Ainda percebo que o ruído insistente da turba faça com que o Ministério Público se ‘estique’ na investigação, afinal é o que lhe pedem, e mais tarde os juízes que se amanhem. Já entendo pior a parolice dos jornalistas quando dizem ou escrevem não que foram gastos – e como – mas ‘desviados’ (!) 150 mil euros ‘do erário público’, sem que tenham sequer em conta que foram despesas efetuadas durante vários anos e por dezenas de funcionários. Confundem roubo, levantamentos em notas, com uma eventual (e ridícula) situação de peculato para alimentarem o tema genérico da corrupção. Incrível a especulação a que chegámos.

Depois, fica igualmente para segundo plano, ou terceiro ou quinto, se os almoços em questão foram ou não de trabalho, foram ou não com responsáveis de cidades geminadas com Oeiras, se resultaram da realização de congressos ou se foram simplesmente retribuições de refeições que investidores no concelho pagaram em diferentes ocasiões. Nada interessa para além do exagero com o ‘desvio’ do dinheiro, como aqueles estratosféricos 19 mil euros atribuídos à ‘mão marota’ da autarca hoje na Câmara de Lisboa e que Carlos Moedas, e bem, resolveu manter no seu posto.

País de pequeninos que nunca crescerão, eis o que somos.

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Publicado em 26 março de 2026
Alexandre Pais

QUEM SERÁ O SUCESSOR DE ROBERTO MARTÍNEZ?

Alexandre Pais

A falta de Cristiano Ronaldo na derradeira convocatória da Federação Portuguesa de Futebol, por causa de uma ‘pequena lesão’ – a 28.ª da carreira – adensa o mistério sobre o final do seu percurso desportivo e em particular do seu adeus à Seleção. Este último acontecerá dentro de menos de quatro meses, terminado que esteja o Mundial de futebol? É que disso estão dependentes outras decisões, a começar pela escolha do novo selecionador nacional.

Como se calcula, Roberto Martínez já não seria o responsável pela equipa das quinas se não houvesse conquistado a Liga das Nações. Perante esse êxito, a fúria reformista de Pedro Proença – leia-se a obsessão de eliminar tudo o que tenha ainda a marca de Fernando Gomes – foi forçada a conter-se e o espanhol irá cumprir o contrato até ao fim… do Mundial.

Mas a partida anunciada de Martínez não tem apenas a ver com a vontade do líder da FPF. Com o prestígio acumulado nas seleções da Bélgica e de Portugal, ao treinador, que vai deixar no nosso país um perfume de elegância e de respeito – a forma como aprendeu o Português ou a cantar o Hino Nacional falam por si – não escasseiam propostas e projetos aliciantes para dar continuidade à sua carreira. Uma opção e até um compromisso poderão mesmo já ter sido tomados por Martínez, pelo que ainda que Portugal viesse a ganhar o Mundial – ou precisamente por isso – Proença ficaria a falar sozinho.

Aliás, o presidente da FPF há muito tem em carteira os nomes dos sucessores de Martínez, que não poderão ir muito além de Jorge Jesus, José Mourinho e Sérgio Conceição, uma vez que Abel Ferreira ou até Leonardo Jardim parecem de ‘pedra e cal’ no Brasil, onde têm contratos leoninos – qualquer coisa como 5 a 6 milhões de euros/ano, livres de impostos. A solução do problema não será fácil e é aí que entra o inevitável Cristiano Ronaldo, ele próprio. Vejamos como.

Partamos do princípio que o Mundial corre bem a CR7 – chegada às meias-finais, golos marcados, condição física recuperada – e que ele decide jogar ainda a Liga das Nações, com partidas marcadas já para daqui a seis meses. Nesse caso, Jorge Jesus seria o preferido – a sua relação com Cristiano é perfeita – ainda que perdendo muito, muitíssimo dinheiro: aufere 12 milhões de euros no Al-Nassr. Só que em Riade não tem a cabeça de garoupa que come em Lisboa, ali para a Rua das Portas de Santo Antão…

Mas se o craque madeirense resolver deixar de facto a Seleção em julho, ficará anulado o eventual choque de egos com José Mourinho, que pode assim rescindir com o Benfica e rumar à Cidade do Futebol. O negócio estará até ‘nos livros’ se os encarnados falharem um dos dois primeiros lugares na Liga, o acesso à Champions e a ‘tonelada’ de milhões de euros que a prova proporciona. Pela sua parte, Cristiano cumprirá mais uma época na Arábia Saudita, para alcançar os mil golos e ser campeão – se não o conseguir já na presente época – e imporá seguramente a continuidade de Jorge Jesus no Al-Nassr, a troco de mais 12 milhões. A vida custa.

Neste quadro, quais serão então, as possibilidades de Sérgio Conceição? Serão algumas, pois se Jorge Jesus pode continuar ‘preso’ na Arábia com Cristiano, Mourinho corre o ‘risco’ de ser campeão na Luz, ou andar lá perto, e ver o seu contrato com o Benfica alargado e… melhorado. Afinal, o que são 3 milhões de euros anuais para aquele que foi um dia considerado o melhor treinador do Mundo? E pelo seu lado, Conceição não tem sido feliz como profissional desde a saída do FC Porto e o clube cuja equipa técnica lidera na Arábia, o Al-Ittihad, segue em sexto lugar no campeonato, perdeu Benzema e baqueou em jogos importantes. Como os sauditas não têm fama de ser muito pacientes, Sérgio parece ser, dos três principais candidatos, o que terá maior disponibilidade dentro de dois ou três meses e a sua indicação para selecionador não implicaria o derrube de tantos obstáculos como as outras duas.

Mas Sérgio Conceição tem um problema, esse sim de difícil solução: o seu temperamento irascível, que não terá muitos admiradores para as bandas de Caxias. Haveria mesmo quem estivesse disposto a comprar bilhetes para aquele inevitável grande momento em que o homem forte da Federação desatasse aos gritos – como é sua fama e parece que também seu proveito – com o novo selecionador. A verdade é que estaremos empatados nesse particular: é que Proença não terá melhor sorte nem com Jesus, nem com Mourinho. Com qualquer deles, terá de bater sempre a bolinha baixa. A coisa promete.

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Publicado em 23 março de 2026
Alexandre Pais

SÓCRATES TINHA UM PROJETO PARA O PAÍS

Alexandre Pais

O recente aproveitamento de uma frase de António José Seguro sobre José Sócrates, proferida em 2011 – “tenho orgulho do que fizeram os ex-líderes do PS e também o meu camarada José Sócrates”, atestada pelo ‘SIC verifica’ como se não estivesse gravada – serviu para continuar a distorcer a realidade e a reduzir a zero o papel do ‘animal feroz’ na memória coletiva. Sócrates venceu as ‘legislativas’ de 2005 e de 2009 porque mais de dois milhões e meio, e dois milhões de eleitores, respetivamente, de algum modo acreditaram nele – o socialista Seguro e este escriba sem partido foram apenas dois entre a multidão.

É que desde as autoestradas – que aos dias de hoje não parecem assim tantas como muitos então diziam – ao ‘boom’ da educação ou ao plano de barragens (que incluía a de Girabolhos, olha que coincidência), passando pela aposta no TGV, no novo aeroporto de Lisboa ou nas energias renováveis, Sócrates tinha uma visão, um projeto para a modernização do país – e um espírito reformista. Mas vamos a factos.

Na crise financeira global de 2008, caminhava Portugal para um défice de novo inferior a 3% – havia sido de 2,6% do PIB em 2007, o mais baixo em 30 anos – e uma dívida pública controlada, a União Europeia incentivou os estados-membros a ‘deitarem dinheiro’ em cima do problema. O ‘conselho’ foi aceite pelo primeiro-ministro José Sócrates, o que, dada a fragilidade da nossa economia – a dívida passou de 63,6% em 2007 para 135,5% (!) no ano seguinte – e a subida em flecha dos juros, acabou numa situação de pré-bancarrota – e não de bancarrota, como se repete até à exaustão na esperança de que passe a ser verdade. E isso terminou igualmente com o primeiro Governo de Sócrates, o de maioria absoluta do PS (2005-2009).

Veio depois Pedro Passos Coelho, que – ao contrário do que havia prometido na campanha eleitoral de 2011, em especial quanto aos rendimentos dos pensionistas – reforçou a austeridade que Sócrates começara de facto em 2010 (outra realidade que por vezes se tenta esquecer) e iniciou a recuperação do país. Daí que para as ‘legislativas’ de 2015, Passos e a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, se propusessem pôr fim aos cortes de salários e pensões, bem como à aplicação de sobretaxas, ao longo dos quatro anos seguintes – erro fatal.

É que quase do ‘nada’ e do anonimato político surgira Mário Centeno, na equipa do líder do PS e da oposição, António Costa, a acenar com o suposto final da austeridade, graças a uma ‘fórmula milagrosa’: aumento dos impostos indiretos, nomeadamente sobre os combustíveis, para devolver, num único ano, o que estava a ser retirado, há cinco, a trabalhadores e a pensionistas.

Nem mesmo assim Passos Coelho perdeu as eleições, é certo, mas o pragmatismo de Centeno impediu que a AD alcançasse uma maioria parlamentar que lhe permitisse governar. E António Costa pôde criar a ‘geringonça’ e chefiar o novo Executivo (2015-2019).

Apresentada de forma simplista, esta é a verdade do que aconteceu na economia e no bolso dos portugueses entre 2008 e 2015, pelo que não vale a pena que voluntaristas de esquerda e de direita, intelectualmente desonestos, insistam em contar apenas a parte da história que lhes convém. Outra coisa é a vida de Sócrates ter dado a seguir no que deu – seja lá o que for que venha a ser provado em tribunal. Mas para esta nossa conversa isso já são outros quinhentos.

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Publicado em 23 fevereiro de 2026
Alexandre Pais

SEM ALMIRANTE, MACACADA À VISTA

Alexandre Pais

À saída da sua mesa de voto, o Presidente Ramalho Eanes, com a sabedoria e a invejável lucidez que é património do país, alertou para a “situação dramática” em que a Europa se encontra, explicando, e volto a citar, que “o Mundo passou da lei e da ordem para o poder (do mais forte) e a desordem”. Afinal, aquilo que o primeiro-ministro canadiano definiu agora em Davos como “uma rutura” global.    

Estou certo de que muitos dos quase 700 mil eleitores que optaram por votar em Henrique Gouveia e Melo, no último domingo, o fizeram por maioria de razões por reconhecerem que a preparação do almirante em questões de defesa e segurança estaria a anos-luz da dos outros candidatos. E seria de transcendente utilidade na PR no caso de a situação internacional se complicar mais e os conflitos nos baterem à porta. É que em cima das naturais preocupações dos portugueses com uma área altamente especializada como é a das Forças Armadas, cai um fator perturbador: a perda progressiva da influência militar junto do poder político em Portugal.

Gouveia e Melo denunciou-o na campanha, sem que mais alguém se interessasse pelo tema: tanto o Conselho Estratégico da Defesa Nacional como o Conselho Estratégico Militar estão “completamente desatualizados”, ou seja, não funcionam. E pergunta-se, então, em que pareceres – e de quem – se baseou o titular da pasta da Defesa, e o próprio Governo, para avançarem à pressa com o pedido de aprovação da Comissão Europeia para encomendas de material militar no valor de 5,8 mil milhões de euros, que os contribuintes, em particular as gerações futuras, vão ter de pagar. Isso para não relevar a pequena dimensão das nossas estruturas de defesa e a necessidade imperiosa de se saber, antes da tomada de qualquer decisão, o que compram – e a quem e para quê – aliados importantes como a Alemanha, a França ou a Polónia.

Tendo finalmente em conta que o ministro Nuno Melo julga que Margarida II ainda é a rainha da Dinamarca – e ela já abdicou há dois anos – que troca, na designação da NATO, Atlântico Norte por “Atlético Norte”, e que quer reconquistar Olivença, não parece poder esperar-se nada de bom a concretizar-se a sua encomenda de material que se desconhece quem lhe encomendou. E o deslumbramento com que fez o anúncio faz-nos temer o pior.

Fica a esperança de que, uma vez em Belém, Seguro ou Ventura – que também pouco perceberão do assunto, valha a verdade – ou, melhor dito, um deles, desfaça o mistério, ouça quem de facto entende da matéria e se assegure de que não venha aí uma nova macacada. Irá a tempo?

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Publicado em 23 janeiro de 2026
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