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Alexandre Pais

O DIA EM QUE A VENEZUELA FALHOU

Alexandre Pais

A 9 de abril de 1982, dia do meu aniversário, o diretor do matutino ‘Portugal Hoje’, João Gomes – que dirigira o ‘Diário de Notícias’, de 1976 a 1978, e que viria a ser provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – desafiou-me para ser chefe da redação. Eu já tinha uma carreira de chefia na rádio e o “PH”, fundado em 1979, não parara de devorar responsáveis editoriais. Num jornal ligado ao Partido Socialista, então na oposição, a confiança política sobrepunha-se à competência e os profissionais escolhidos para a chefia tinham sido genericamente um desastre. Se falhasse, seria mais um.

“O ‘Portugal Hoje’ na verdade só agora é que vai começar”, dizia, para me convencer, o João Gomes, entusiasmado como sempre. Não havia como recusar, ele era um grande jornalista, um homem bom e estávamos no mesmo barco: a opção era lutar ou morrer.

O mês de maio foi horrível. Deixámos as instalações da CEIG, no Dafundo, e fomos para um pequeno prédio do centro de Lisboa, onde se instalara um ‘novíssimo’ equipamento de fotocomposição, que João Gomes de boa fé adquirira, mas que ninguém conseguia que funcionasse em condições. Os textos saíam truncados e aos ‘soluços’ – era um desespero pela madrugada fora.

O jornal chegou a publicar-se apenas com 8 páginas e chegava ao encontro com os leitores tarde e a más horas – e esse é o princípio da desgraça. Os adiantamentos de dinheiro por parte da distribuidora começaram a falhar. A publicidade, que já era pouca, desapareceu. E só um pequeno grupo de jornalistas ainda arregaçava as mangas e recusava desistir.

Mas cedo a crise chegou aos salários, após empresários como Salvador Caetano ou Abel Pinheiro terem suspendido os apoios pontuais que iam adiando o fim. Foi nessa altura que alguém no PS sugeriu a João Gomes que fosse à Venezuela falar com o antigo (1974-79) e futuro (1989-93) Presidente, Carlos Andrés Pérez, suposto mecenas ligado à indústria do petróleo e a quem não faltariam recursos para uma ajuda generosa.

João Gomes levou na bagagem uma carta de Mário Soares para Pérez, mas nem assim logrou sequer ser recebido e ficou-se por contactos na nossa emigração. E houve um português, só um, que lhe deu 100 contos, pouco mais de 4 mil euros (feitas as contas à Inflação de 44 anos). Uma gota no oceano das dificuldades do ‘Portugal Hoje’.

Editorialmente enfraquecido, sem chegada regular às bancas, já com poucos jornalistas, alguma parasitagem e motivação próxima de zero, o ‘diário do PS’, que em 1980 chegara a vender mais do que o ‘Correio da Manhã’ – como é a vida! – agonizava. João Gomes, que tudo dera pelo seu projeto, não merecia a decisão que teve de tomar naquele triste início de tarde de 29 de julho de 1982. Chorámos juntos. Mas como as pessoas, os jornais morrem. Ontem como hoje. E nem as ‘venezuelas’ lhes valem quando chega a hora em que os leitores os consideram dispensáveis. Estou quase tentado a dizer: e ainda bem.

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Publicado em 05 janeiro de 2026

A TRAGÉDIA REPETIU-SE 27 ANOS DEPOIS

Alexandre Pais

A 17 de abril de 1998, como chefe de redação do novo diário ’24horas’ fui responsável pelo terceiro n.º 0 do jornal, o primeiro feito em tempo real. E quis o destino que um terrível acidente de viação, muito semelhante ao que ceifou agora a vida de seis jovens na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, tivesse ocorrido na madrugada anterior, pelas 4 da manhã, hora trágica.

Eram igualmente seis os jovens envolvidos, esses ainda adolescentes, amontoados dentro de um Ibiza que o condutor de 17 anos, e sem carta de condução, furtara por umas horas – e já pela terceira vez – à tia. Regressavam das Docas de Lisboa para Tercena quando se despistaram, na Avenida da Índia, embatendo numa viatura que vinha em sentido contrário. Morreram os seis, três dos quais irmãos: um rapaz de 13 anos e duas raparigas, de 15 e 16. Aliás, foram sete as vítimas mortais porque o condutor do outro carro também não escapou.

Aqui deixo essa 1.ª página do ’24horas’ de 18 de abril de 1998, com três notas obrigatórias. Uma é para a devida vénia ao repórter Fernando Brandão, que sacou a história e arranjou a foto que a suportaria. A outra é para um erro técnico da minha responsabilidade: ao ‘lead’ sob a manchete faltava o ‘onde’, coisa horrorosa. Finalmente, e o menos importante, é que executei esse trabalho já demitido: a saída do jornal estava atrasada e a culpa teria de caber a alguém. Sorte minha, como se veria mais tarde – outros 500.

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Publicado em 02 dezembro de 2025
Alexandre Pais

O ETERNO DRAMA DA GUINÉ-BISSAU

Alexandre Pais

Há cinco anos na Presidência, Umaro Sissoco Embaló, também ex-primeiro ministro, foi agora (alegada) vítima de uma situação recorrente na Guiné- Bissau: um golpe de estado. Desde que Nino Vieira foi brutalmente assassinado em sua casa, em março de 2009 – sem que até hoje os culpados tenham sido presos e condenados – a antiga colónia portuguesa já teve 16 (!) chefes de estado e passou por diversos atos de revolta com deposição de dirigentes democraticamente eleitos. Desta vez, parece ter sido o exército a rebelar-se.

Apesar disso, o Estado português tem gastado muitos milhões de euros em décadas de apoio – na saúde, na educação e mesmo na área da Defesa – a um território que não consegue manter um mínimo de estabilidade. Os cartéis da droga, que se infiltram facilmente nas estruturas de poder, tanto civil como militar, explicam em grande parte a ingovernabilidade de um país que é dos mais pobres do Mundo.

Recuo até junho de 1998, quando na redação do ‘24horas’ – na sua primeira versão em papel – me apareceu um jornalista guineense que era portador de dezenas de fotos, obviamente ‘amadoras’, de Ansumane Mané, precisamente o líder do levantamento militar de dias antes e que poria fim à anterior passagem de Nino pelo poder (desde 1980).

Ansumane – cujo rosto era então completamente desconhecido em Portugal – havia sido destituído de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas antes de uma viagem de Nino ao estrangeiro, situação habitualmente utilizada na Guiné para fazer ‘desaparecer’ figuras que se tornaram demasiado importantes e que de algum modo se revelassem hostis à liderança. Ansumane Mané dera o golpe para se proteger – e a revelação da sua imagem foi uma das primeiras ‘cachas’ do ‘24horas’!

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Publicado em 26 novembro de 2025
Alexandre Pais

A GRANDE AVENTURA CONTINUA

Alexandre Pais

Há 27 anos, o ‘24horas’ trouxe à imprensa portuguesa uma lufada de ar fresco a que o mercado viria a corresponder: em 2004, a média de vendas em banca ultrapassou os 50 mil exemplares diários. Mas o começo não foi fácil, o DN e o JN ainda eram uma referência, o CM seguia em velocidade de cruzeiro, os três diários desportivos vendiam bem acima dos 200 mil jornais por dia e o ‘24’ tardou em encontrar um rumo – foram seis anos de combate duro.

Em duas décadas, o panorama da informação mudou mais depressa que o Mundo. Primeiro, as estações de TV privadas e o enorme investimento nos sites, a seguir a popularidade das redes sociais e a dispersão do investimento comercial fizeram da comunicação social um negócio complicado e um serviço público difícil de concretizar sem perdas profundas. O suporte papel luta hoje pela vida e o ‘jornalismo-google’ e as ‘fake-news’ atacam ferozmente uma atividade profissional indispensável às liberdades individuais, à investigação dos abusos e ao primado da ética e da verdade.

A pouco e pouco, as redações reduzem-se, o instinto de sobrevivência das empresas agudiza-se e só os mais aptos e inconformados resistem. E é nesse cenário de guerra que o ‘24horas’ renasceu – em contraciclo mas em boa hora – pela mão de um visionário, de um veterano de mil batalhas cujas cicatrizes dão aval ao projeto. Que todos os que trabalham neste novo ‘24’ e também nós, leitores, estejamos à altura do desafio. Afinal, é a grande aventura que continua.

 

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Publicado em 02 outubro de 2025
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