
José Paulo Fafe
Não sei se já tiveram oportunidade de alguma vez ouvir falar de Eike Batista – acredito que sim. Algo (para não dizer muito…) excêntrico, chegou a ser o homem mais rico do Brasil, com incontáveis projetos na área do petróleo, da logística, da mineração, etc., e sabe-se lá que mais.
Personagem fascinante de um certo Brasil que, no dealbar deste século, conseguia crescer quase ao nível da China ou do Vietnam, Eike era um autêntico ‘tanque’ na persistência e entusiasmo que colocava naquilo em que se envolvia. O seu estilo era único – sedutor, carismático, ambicioso ao limite, Eike era o protótipo do ‘vendedor’ perfeito, do tipo que encantava plateias e investidores pelo mundo fora com os seus inseparáveis ‘powerpoints’, vendendo visões e projetos de grande escala, prometendo mundos e fundos, leia-se, garantindo receitas e lucros inimagináveis.
A sua imagem de ‘rei Midas brasileiro’, que as praças financeiras e a imprensa especializada durante anos atestaram e fomentaram, fazia a outra parte, ou seja, conferia-lhe uma credibilidade e uma aparente robustez financeira que levou muitos a apostarem no seu ‘universo’, e a Eike a capitalizar-se junto de investidores e banca.
Por volta de 2013, o seu império entrou em colapso com a falência da petrolífera OGX, cuja ‘débacle’ financeira provocou um efeito dominó em todo o seu grupo, estimando-se perdas a ultrapassar os 35 mil milhões de dólares, e confirmando aquilo que muitos há muito vaticinavam: as projeções irrealistas ‘garantidas’ por Eike nos seus célebres ’powerpoints’ não tinham qualquer correspondência com a realidade – eram afinal um embuste.
A esta altura, haverá alguns leitores que legitimamente se perguntarão sobre o que um brasileiro, de seu nome completo Eike Fuhrken Batista da Silva, tem a ver com o nosso ministro para a Reforma do Estado que dá título a este texto, no caso, com o inefável ministro Gonçalo Matias, de sua graça.
Poderá parecer estranho, mas Eike e Matias têm tudo em comum, são assim como uma espécie de irmãos gémeos, ainda que separados, neste caso pela distância, idade, ocupação, e várias outras especificidades. Matias, não sendo uma personagem fascinante, ou encantando plateias, também adora a exibição – quem não se recorda daquela célebre aparição na Web Summit, ou da fotografia posando de ‘boxeur’ que postou nas redes sociais?; tal como Eike, tão-pouco resiste aos malditos ‘powerpoints’, arma essencial no que toca a distorcer a realidade; e, se não chegasse já a comparação, o ‘nosso’ ministro, quando escolhido, foi apresentado como se se tratasse assim de uma espécie de sétima maravilha do mundo, capaz de levar a cabo a tarefa que lhe foi incumbida.
E quando nós portugueses, simples cidadãos, nos damos conta de que, afinal, os sucessivos anúncios de uma suposta desburocratização e reforma do Estado afinal não passam de promessas vãs, de malditos ‘powerpoints’ que pouco ou nada têm a ver com o mundo real e tudo a ver com um mundo de puras ilusões, fica difícil não chegar à conclusão, pese embora o que os separa, de que o defunto império de Eike tem tudo ver com a suposta reforma de Matias.
Se não, o que dizer quando alguém, 2 semanas depois de ter pedido online o registo criminal, ainda não o recebeu? Ou que, ao invés do que foi anunciado a sete ventos, a validade dos passaportes não passou para 10 anos no início de 2026? Ou quando percebemos que o ‘Empresa na Hora’ pura e simplesmente não funciona, e que a formalização de todos os atos necessários para constituição de uma empresa e o seu início de atividade pode, na melhor das hipóteses, demorar uns 3 ou 4 meses? E já agora, quando sabemos que uma simples certidão negativa, segundo revelou ainda recentemente o bastonário da Ordem dos Notários, pode demorar até um ano?
Eike Batista que me perdoe, mas a comparação era inevitável…

José Paulo Fafe
Quando seria expectável que, chegado a S. Bento, escolhesse Pedro Passos Coelho, de quem foi ‘cria política’, como modelo, Luís Montenegro, preferiu ter Cavaco Silva como bitola. Fê-lo claramente por cálculo político, por intuir a existência ainda de alguma ‘toxicidade’ política no antigo primeiro-ministro, mas também por receio de por ele ser condicionado no exercício do cargo.
No fundo, ao optar por Cavaco, Montenegro quis pura e simplesmente ‘matar’ o pai, ganhar as asas que muitos acreditavam ser as de Passos, conquistar a independência de pensamento que poucos lhe reconheciam, mostrar aos portugueses que possuía um caminho próprio.
Metendo o ‘passismo’ na gaveta, esconjurando o seu prócere, Montenegro quis criar urgentemente uma ‘persona’ que não aquela que os portugueses dele percecionavam. Não tendo o peso e lastro políticos suficientes para se afirmar de supetão, e contar de facto numa cena política que cada dia mais é dominada por quem foi até agora segunda-figura, Montenegro foi ‘obrigado’ a socorrer-se de um modelo de liderança que o ajudasse a afirmar-se, alguém a quem pudesse mimetizar, apanhar o jeito e o tom, e que o ajudasse a esconder as fragilidades que naturalmente possui, e consolidar-se como figura de primeiro plano.
E num partido, cuja história sempre foi feita de homens providenciais, agora que Montenegro exorcizara Passos, e com a memória do fundador Francisco Sá Carneiro ‘propriedade’ há muito de outros, apenas lhe restava Cavaco para se inspirar e eleger como arquétipo.
Foi o que fez, claro que com a óbvia e célere conivência de quem, já ‘morto’ politicamente, dez anos após ter deixado Belém sem grande honra nem glória, viu a oportunidade de poder reconciliar-se com um eleitorado que, depois de enjeitá-lo, já o esquecera.
O grande óbice de Montenegro em toda esta estratégia foi esquecer-se de algo tão simples como isto – é que não havendo já cavaquistas, sobram dentro (e fora…) do seu partido os que ainda se sentem ‘passistas’. E o ‘montenegrismo’, se é que alguma vez virá a existir, só poderá ser construído em cima do ‘passismo’. E assim, fica difícil…

José Paulo Fafe
Luís Montenegro saberá bem melhor do que eu, que na política tem, muitas vezes, de se tirar ‘coelhos da cartola’ – por outras palavras, é ‘obrigatório’ surpreender, ir contra a corrente, levar apoiantes e adversários a tirarem o chapéu, e a deixar estes últimos sem grande capacidade de reação.
A política é muito isto – ter coragem e saber surpreender no momento certo.
Não é difícil de identificar em Portugal, assim de repente, uma mão-cheia de exemplos que, gostemos ou não, nos últimos anos, souberam-no fazê-lo como ninguém: Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Cavaco Silva ou até mesmo Pedro Passos Coelho personificam bem essa capacidade.
Muito do legado de qualquer um deles tem a ver com isso mesmo, com a capacidade e coragem que tiveram em momentos-chave de saber quando e como decidir, sabendo surpreender com a determinação e o foco que se exige a quem lidera.
Não querendo, nem de perto, nem de longe, como se diz, ‘ensinar o pai nosso ao vigário’, dei comigo há dias a pensar a quem Luís Montenegro poderia entregar o comando (e sublinho bem essa expressão, o comando…), com prazo e mandato, da reconstrução do nosso país.
E bastou-me colocar a mim mesmo três ou quatro perguntas para chegar a uma rápida e óbvia conclusão. A primeira dessas questões, sobre quem hoje em Portugal poderia ter a capacidade e a experiência de saber liderar uma equipa multidisciplinar que rapidamente planeie e comece a trabalhar? A segunda, sobre quem teria o indispensável peso político para tamanha tarefa, incutindo o respeito (e ‘receio’) suficiente para que nenhum ministro ouse deixar de atender-lhe o telefone? Finalmente, quem teria a consideração e admiração generalizada, para não dizer unânime, de autarcas e quadros superiores do Estado?
A resposta, essa, está no título deste texto…

José Paulo Fafe
Somos um país extraordinário.
Há muito que gostamos de ser quem não somos, de adotar – sempre tardiamente, aliás… – os tiques, modismos e manias dos outros, sejam eles espanhóis, franceses, ingleses ou até americanos.
Há anos que lemos o ‘Le Monde’ sem saber patavina de francês; que comentamos o ‘Financial Times’ como se trabalhássemos na City ou em Wall Street; que falamos sobre os restaurantes da moda em Madrid sem que tenhamos posto os pés num deles sequer; ou que debatemos a política brasileira com base no que ouvimos há dias da boca da ‘manicure’, ou do motorista de Uber que apanhámos na semana passada.
É assim que somos, sempre prontos a abrir a boca de espanto com o que vem de fora, e dar pouca importância ao que é de cá – sempre, mas sempre, com aquele bacoco pavor de parecermos os provincianos que somos…
Esta terrível e assustadora tendência começa, porém, a fazer escola em todos os domínios, já não se restringe apenas, por exemplo, à tasca manhosa que virou restaurante de ‘chef’ com ‘toque’ e cozinha de espumas, ou à pensão que virou ‘boutique hotel’, chegou mesmo, agora, até à política e ao jornalismo, ainda que muitas vezes os émulos dos nossos políticos e repórteres estejam bastante mais à mão, que é como quem diz, não precisem de vir de além-fronteiras.
Ainda há poucos meses tivemos um candidato presidencial que, porventura à conta da farda e de uma postura seráfica, se julgava Eanes; convivemos, desde há dois anos a esta parte, com um primeiro-ministro que, vá lá saber-se porquê, se julga um Cavaco; e começamos agora, deliciados e sem conseguir conter o riso, a observar as imitações de ‘tâniaslaranjo’ que começam a pulular pelos nossos milhentos canais de informação, sempre prontas a abandonar o conforto do estúdio e a fazer vivos de botas ‘afogadas’ nas cheias…
Tudo isto seria divertido e até causador de galhofa, se não revelasse a perda de identidade que está a tomar conta deste país, que continua com aquela mania de pensar ser o que não é. Bastaria olhar para Lisboa, hoje governada por alguém que, coitado, de tão ridículo, não consegue sequer encontrar alguém a quem imitar, também ela a julgar-se uma metrópole cosmopolita, moderna e ‘avant garde’, mas que afinal não passa de uma capital hoje tomada de assalto por ‘modismos’ bacocos, provincianos, e que começa a arriscar-se a atrair apenas quem consegue, apesar da seu abastardamento, considerá-la ainda ‘very tipical’.
Mas o maior exemplo que vivemos num país de fingimentos, num país há muito colado em cacos, e que não é o que durante muito tempo julgou ser, é exatamente a forma como o estamos a ver ruir num ápice, fruto dos ventos e chuvas que só serão surpresa para quem anda aqui há menos de 40 anos…

José Paulo Fafe
Não sei que idade teria António Leitão Amaro em 1993, nem sei mesmo se já teria nascido. Mas partindo do princípio que sim, que já por cá andava, presumo que ainda não tivesse idade para lembrar-se do episódio que conduziu à demissão de Carlos Borrego, então ministro do Ambiente, a quem Cavaco Silva, de um momento para o outro, indicou a porta de saída do governo.
A história conta-se em duas penadas, e revela em si mesma uma forma e um jeito de governar que fez escola. Apesar das muitas tentativas de imitação ao longo dos anos por parte de quem passou pela residência de S. Bento, nunca alguém conseguiu aproximar-se, sequer ao de leve, daquilo que ficou conhecido como ‘o cavaquismo’.
Segundo constava na altura, Carlos Borrego era um discreto professor, formado no Técnico, com um doutoramento na área do Ambiente tirado em Bruxelas, e que Cavaco Silva tinha ido buscar a Aveiro, onde era vice-reitor – pessoa estimável, profissional capaz, pouco experiente politicamente, dizia-se então.
Em Junho de 1993, não estava ainda há dois anos como ministro, em Braga, onde presidia a uma cerimónia pública, Borrego resolveu contar uma anedota que, além de não ter qualquer graça, ‘brincava’ com a morte de 25 doentes hemodialisados que meses antes haviam sido vítimas de uma intoxicação por alumínio, atribuída à má qualidade da água da rede pública.
Escusado será dizer que bastaram umas breves horas para que Cavaco decretasse a ‘morte política’ do seu ministro, demitindo-o sem apelo nem agravo, e praticamente sem dar tempo e oportunidade à oposição para que pedisse a sua cabeça – foi aquilo a que normalmente se chama ‘um ar que lhe deu’…
Admito que nesta altura os leitores estarão a perguntar-se sobre o que é que esta história dos anos 90, envolvendo um ministro e uma anedota, tem a ver com Leitão Amaro, este ministro nos dias de hoje… Tem, sim, neste caso concreto, a anedota. A única diferença em tudo isto é que, enquanto Borrego foi demitido por contar uma anedota, ao ver há dias o famoso vídeo protagonizado por Leitão Amaro fiquei sem perceber porque é que este, que é, ele mesmo, uma anedota, ainda não foi demitido…

José Paulo Fafe
Não é segredo para ninguém que o grande problema que há muito persegue Nuno Melo é o de tentar, sem êxito, passar por inteligente. Ele bem que se tem esforçado, mas a coisa não é fácil, mesmo que não lhe tenham faltado as oportunidades ao longo dos anos para tentar contrariar a perceção generalizada que existe sobre as suas argúcia e sageza, predicados esses com que visivelmente o nosso ministro da Defesa não foi brindado à nascença.
E como inteligência é coisa que não se aprende, compre, ou tome em pastilhas, ao longo da sua vida pública o dr. Melo tem sido obrigado a carregar uma cruz, a de alguém ‘limitado’, ou mesmo ‘bronco’, classificação que é dada aos néscios lá para os lados de Joane.
No entanto, honra lhe seja feita, o dr. Melo tem a notável de capacidade de não nos surpreender, ou seja, é aquilo que é, e a mais, também, não é obrigado. Por outras palavras, cada vez que enfrenta um microfone ou câmara, é certo e sabido que sairá tolice, normalmente ‘embrulhada’ em pose e tom doutorais.
Como todos os estultos, o dr. Melo não tem, também, a noção do ridículo, muito menos do sentido de oportunidade. O ‘número’ que protagonizou há dois dias, ao aparecer em Vieira de Leiria à frente de um dispositivo militar que de pronto se eclipsou logo depois dos holofotes televisivos se apagarem, mostra bem a ‘massa’ de que é feito o homem a quem Luís Montenegro entregou a pasta da Defesa. Alguém que, para sublinhar a suposta prontidão do Exército na resposta à tragédia que se abateu sobre a região centro do país, resolveu informar os portugueses de que o sargento Lopes, o homem que comandava o pelotão de militares que formava atrás de si, fazia anos: “E está aqui a trabalhar, não a festejar como devia …”, rematou o dr. Melo com aquele ar de pascácio a quem invariavelmente se manda tomar juízo.
Não sei porquê, mas ao ouvi-lo, lembrei-me do ‘velho’ treinador de futebol Manuel Machado, e de uma das muitas frases que ele teve o dom de imortalizar: “Um vintém é um vintém, um cretino é um cretino”. E por aqui me fico…

José Paulo Fafe
Ontem, ao demitir-se de anunciar uma opção na segunda volta das presidenciais ainda mal estavam fechadas as urnas, Luís Montenegro errou. Não porque o PSD seja obrigado a escolher entre António José Seguro e André Ventura, nada disso – apenas porque, por uma questão de coerência e até de formalismo institucional, só poderia ter sido o conselho nacional a fazê-lo, quanto mais não seja até porque foi esse mesmo o órgão que, em Maio último, decidiu o apoio a Luís Marques Mendes.
Mas convenhamos que esta não é a primeira vez que Montenegro erra no que diz respeito à eleição presidencial. De há ano e meio a esta parte, os erros estratégicos têm-se sucedido.
Primeiro, Montenegro errou quando restringiu o apoio do seu partido a um candidato que fosse militante do partido, criando assim paulatinamente um ‘fato à medida’ para Marques Mendes, uma candidatura que só quem fosse politicamente cego admitiria não fazer surgir no espaço do centro-direita e da direita outros candidatos.
E Montenegro errou uma segunda vez quando foi afastando liminarmente hipóteses eleitoralmente mais capazes, ganhadoras até, como as que se poderiam ter perfilado na área do PSD – a de José Manuel Durão Barroso, a de Pedro Passos Coelho, e a de Pedro Santana Lopes, qualquer um deles que, sabendo contar com o apoio do partido, dificilmente voltaria as costas a um desafio desse tipo.
Agora, ao precipitar-se a declarar uma mais do que questionável neutralidade na segunda volta das presidenciais, sem que para tal tivesse sequer consultado o órgão que tinha anteriormente ‘chancelado’ a escolha de Marques Mendes, Montenegro cometeu o seu terceiro erro. E este, possivelmente ainda com consequências políticas, suficientes para poderem mesmo afetar a governabilidade e o prazo de validade do seu governo.
Por outras palavras, ao errar, Luís Montenegro entregou-se nas mãos de André Ventura e do resultado que este poderá vir a obter a 8 Fevereiro próximo..

José Paulo Fafe
Escrever sobre António José Seguro nesta campanha não é tarefa fácil, quanto mais não seja porque é difícil escrever sobre quem apostou numa estratégia onde o que sobressaiu foi um extremo cuidado em passar ao lado dos temas e das questões que importava debater e saber a opinião de cada um dos candidatos, ao ponto de escapar de dar uma opinião concreta sobre o que fosse, tudo só e apenas para não cometer o ‘pecado’ de se comprometer.
Não é segredo para ninguém que Seguro não possui aquilo a que hoje se chama densidade. Sobra-lhe em aparente simpatia o que lhe falta em consistência – é ‘leve’, sensaborão, do tipo que ‘não aquece, nem arrefece’, incapaz de despertar um leve pingo de emoção em quem quer que seja. No fundo, Seguro, a sua imagem, a pose, o discurso, tudo é ‘redondo’, não tem uma aresta que seja.
Talvez por isso mesmo, a estratégia de Seguro assentou em querer mostrar apenas que a sua grande qualidade, em termos comparativos com quem disputa com ele estas presidenciais, é ser um pouco melhor do que os outros – o que, tendo em conta o panorama que nos é apresentado para o próximo domingo, não é propriamente um grande trunfo.
Aquele seu ar atilado, o discurso velho, estafado, a fazer lembrar as romagens do 5 de Outubro, a incapacidade que tem em ‘passar’ uma única ideia interessante, permitiu-lhe, no entanto, sem mexer uma palha, e sem que ninguém desse grande coisa pela sua candidatura, ir amealhando o suficiente para que, a três dias das eleições, seja dado como certo na segunda volta.
Reconheça-se, no entanto, a Seguro a virtude da paciência. Primeiro aguentou, calado e quieto, os dez anos de esconjuramento a que foi votado dentro do seu partido; a seguir, quando as curvas do destino levaram para longe quem, sem cerimónia, o tinha empurrado para a berma da estrada, foi-se levantando como quem não quer a coisa, fazendo, pouco a pouco, o seu caminho; e finalmente, já na prática candidato, aguentou firme e aparentemente imperturbável todas as muitas tentativas que surgiram no seu próprio partido, para que a área socialista encontrasse um protagonista para a corrida a Belém que não ele.
Sem chama ou rasgo, a verdade é que ao dia de hoje Seguro está bem posicionado para passar à segunda volta, e até para disputá-la com algum aparente favoritismo. Fazendo as contas, basta-lhe que, na hora do voto, muitos daqueles seus camaradas de partido que a partir de certa altura receberam a necessária ‘carta de alforria’ e começaram a surgir ao seu lado, não se enganem e coloquem a cruz no quadrado que de facto corresponde a Seguro – e não noutro. Situação essa que, conhecendo o PS, a sua história, e os muitos desencontros que sempre por lá existiram, é algo que não seria a primeira vez que sucederia. Para bom entendedor…

José Paulo Fafe
Mandam as ‘regras’ que um dos objetivos de um candidato numa campanha é que, mesmo perdendo, saia dessa mesma campanha melhor do que entrou. É o caso de André Ventura, primeiro colocado na maioria das sondagens divulgadas até agora, e cuja campanha tem mostrado uma inteligência e um posicionamento estratégico que falta a muitas das outras.
Falemos das coisas como elas são: Ventura é candidato a Presidente da República por ‘culpa’ de João Cotrim Figueiredo. Tivesse o candidato dos liberais preferido continuar pelo Parlamento Europeu, e Ventura teria ficado confortavelmente sentado, ele e os restantes 59 deputados do Chega, na Assembleia da República, a gozar do seu estatuto de líder da oposição, e quando muito a observar com cautela a prestação de alguma figura secundária que escolhesse apenas e só para marcar presença numa pugna que a ele, e ao seu partido, pouco diria. Até porque numa segunda volta, o perfil seráfico, austero, de cortar a direito’, um pouco ‘à chega’, do almirante, com aquela pose e estilo de quem quer pôr tudo na ordem, permitiria a Ventura cavalgar aquilo que se antevia como uma mais do que previsível vitória de Gouveia e Melo.
Mas perante o surgimento da candidatura de Cotrim, que o obrigou a entrar na competição direta, Ventura rapidamente conseguiu refazer a sua estratégia: primeiro, insistiu naquele discurso habitual, agressivo, belicoso, e de confronto, ‘blindando’ aparentemente o seu eleitorado, impedindo as fugas para outros candidatos à direita (a sua prestação no debate que o opôs a Catarina Martins é um exemplo disso mesmo) – o que, dada a atomização existente, lhe terá assegurado, aparentemente, a passagem à segunda volta; depois, numa segunda fase, e já moderando o tom e o estilo, partiu em busca de franjas do eleitorado que podem vir a constituir uma espécie de ‘almofada’ numa disputa que no próximo domingo se antevê a quatro. Mais: mesmo sabendo que dificilmente ganhará a qualquer dos seus possíveis adversários numa segunda volta, Ventura precisa, até para o seu futuro político, reduzir o seu elevado nível de rejeição, que as sondagens estimam em 70 por cento – e essa moderação mostrada nas últimas duas semanas poderá contribuir de facto para diminuir esse mesmo índice.
É isso que lhe vai permitir, mais do que ganhar qualquer eleição presidencial, afirmar a liderança da oposição, que formalmente já lhe pertence, amealhar o maior número de votos possível numa mais do que provável segunda volta, e partir definitivamente para a conquista do poder, afirmando-se de facto como alternativa ao próprio Luís Montenegro, que nas últimas legislativas recolheu – anote-se… – 2 milhões de votos.