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José Paulo Fafe

COTRIM, O CANDIDATO 'LEVEZINHO'

José Paulo Fafe

A situação de perda com que se debate a candidatura de Luís Marques Mendes, enredada que está numa teia que a tolhe e manieta, permitiu a João Cotrim Figueiredo ser neste momento o candidato presidencial que maior margem de crescimento possui até ao próximo dia 18 de Janeiro. E, se conseguir manter a dinâmica de uma campanha diferente, poderá vir a ‘obrigar’ Luís Montenegro e o PSD, à boa maneira de Cunhal, a ‘engolir o sapo’ na segunda volta.

A liderar claramente ao dia de hoje o espaço do centro-direita, tanto em termos de intenções de voto como, ainda que sem uma ideia, a própria agenda política, Cotrim Figueiredo caiu no goto de um certo eleitorado, principalmente daqueles para quem, mesmo dentro do PSD, Mendes nunca passou de um ‘mal menor’, mas também de faixas do eleitorado para quem a política até agora nada disse ou representa.

No fundo, Cotrim é aquilo que se pode chamar o candidato dos tempos modernos, é o ‘espelho’ e intérprete mais fiel da sociedade ‘levezinha’ em que vivemos, onde tudo é tratado pela rama, e onde o que conta é, mais do que o conteúdo, apenas e só a forma.

É ali que Cotrim se move como peixe dentro de água – sem uma única ideia digna desse nome, alicerçando a sua campanha numa infinita série de banalidades ditas com um ar ‘blasé’, com a campanha toda ela assente nas redes sociais, onde se sucedem nada mais que ‘sketchs’ que pouco ou nada adiantam sobre o que poderá ser o seu entendimento da função presidencial. Pobre de pensamento, tudo para ele, por mais sério que seja, serve para fazer um ‘número’: o mundo de Cotrim resume-se às visualizações, aos ‘likes’ e às partilhas. No fundo, é aquilo a que se chama ‘um género’…

Mas isso, o que aparentemente poderia ser visto como uma fraqueza, é afinal a principal força de Cotrim, até porque uma importante faixa do eleitorado – os jovens – julga finalmente ter encontrado alguém com quem se identifica e que aparentemente consegue sair de um certo estilo bafiento e deprimente de fazer política.

Mas Cotrim foi também, mais do que qualquer outro, o principal beneficiário do desgaste a que Gouveia e Melo sujeitou Marques Mendes no debate de 22 de Dezembro. O que, somado à estratégia, às vezes quase oportunista, de ‘colar-se’ a um Pedro Passos Coelho ostensiva e propositadamente silencioso, bem como à dinâmica de uma campanha que, pese embora o ‘gap’ de 40 anos que as separa, faz de quando em quando lembrar a de Freitas do Amaral em 1986, contribuíram para que um até há pouco inexpressivo, para não dizer politicamente insignificante Cotrim, se afirme como o candidato do centro-direita mais bem-colocado para disputar a segunda volta das presidenciais deste ano.

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Publicado em 10 janeiro de 2026
José Paulo Fafe

A CHANCE DO ALMIRANTE

José Paulo Fafe

Com os eleitorados naturais a aconchegarem-se, com maior ou menor dificuldade, aos candidatos presidenciais com carimbo partidário, resta agora a Henrique Gouveia e Melo, outrora favorito nesta corrida para Belém, tentar encontrar espaço para crescer os 3 ou 4 por cento que lhe faltam para garantir a passagem à segunda volta.

Não é uma missão impossível, mas requer tato e determinação da parte de quem não pode, a nenhum preço, afugentar um único voto que seja naquela imensa transversalidade de apoios que é a sua base eleitoral – um amplo espaço onde ex-comunistas convivem alegremente com conservadores e onde social-democratas e socialistas passeiam de braço dado. Se apresenta vantagens, essa transversalidade acarreta igualmente riscos, forjada que foi à volta de um candidato que, por teimosia ou inabilidade, nunca privilegiou o posicionamento político, apostando mais na pose e no estilo do que em qualquer outra coisa.

Mas onde poderá Gouveia e Melo ir buscar aqueles 3 ou 4 por cento que lhe possibilitem a presença na finalíssima?

Antes de mais, na abstenção – uma massa ainda significativa de votantes que, até 18 de janeiro, poderá ainda ser cativada por um discurso forte e convincente. Mas não só…

Sejamos claros: com os territórios do centro-direita, do centro-esquerda e da esquerda pura-e-dura ‘ocupados’, resta a Gouveia e Melo investir num eleitorado mais volátil à direita e que tem constituído a base de apoio de André Ventura: um eleitorado não ideológico que, embora emocionalmente aberto a ruturas, comporta também franjas mais racionais, mais esclarecidas e mais recetivas à eterna tese do voto útil, sabendo-se que o voto em Ventura é apenas uma afirmação de protesto e não terá seguimento prático no que a Belém diz respeito. Não lhe resta outra alternativa. É ali, só ali, nesse eleitorado sem compromisso ideológico fixo, que Gouveia e Melo poderá ainda crescer, desde que saiba encontrar e explorar as brechas que sempre existem em cenários que, por mais sólidos e estáveis que aparentem estar, não deixam de possuir fragilidades e pontos de ataque.

Neste eleitorado não-ideológico, que vive paredes-meias com o eleitorado desiludido que engorda a abstenção, poderá Gouveia e Melo encontrar aquele pequeno impulso que lhe falta para não “morrer na praia”.

Cabe agora ao almirante explorar o que é hoje a maior fragilidade de Ventura, leia-se, o seu elevado nível de rejeição (uma taxa que as sondagens nos dizem ultrapassar os 70 por cento), e que não é segredo para a sua base eleitoral, que a conhece e identifica como o principal ‘ponto fraco’. Uma fragilidade que pode, desde que aproveitada com ‘pinças’, justificar o argumento do ‘voto útil’, especialmente junto quem sabe que em nenhum dos quatro cenários ainda admissíveis para a segunda volta o líder do Chega terá alguma vez a hipótese de ser eleito Presidente da República.

Mais: este eleitorado, consciente de que não verá Ventura chegar a Belém, quer sobretudo vê-lo chegar a S. Bento como primeiro-ministro – tanto mais que, na hipótese remotíssima de uma eleição presidencial, esta representaria inevitavelmente o fim desse sonho e conduziria a uma previsível ‘débacle’ do “projeto Chega”, que ficaria assim amputado de uma liderança forte, carismática e essencial.

A chance de Gouveia e Melo neste momento é centrar a sua estratégia nesse ‘flirt’ à direita e junto do eleitorado abstencionista, afirmando-se cada vez mais como independente, descolando inteligentemente de algumas posições que, talvez por falta de jeito, foi assumindo ao longo dos últimos meses, e enfrentando André Ventura, afirmando-se como sendo de facto o único candidato de fora do sistema vicioso dos partidos e o único com capacidade para afirmar em Belém valores como a ordem, a autoridade e a segurança num momento particularmente delicado da vida mundial.

A grande dúvida é se Gouveia e Melo terá talento para o fazer e, também, se ainda irá a tempo…

José Paulo Fafe

O ERRO FATAL DE MARQUES MENDES

José Paulo Fafe

Luís Marques Mendes é porventura a primeira grande ‘vítima’ de uma sociedade a quem, cada vez mais, afinal, mais importa ser do que parecer, uma sociedade lesta em apontar o dedo, a julgar, e a condenar – no fundo está a ser o alvo preferencial de um escrutínio ético-moral que ele próprio sempre ‘cavalgou’ e usou como bandeira política.

Marques Mendes é hoje um homem acossado, ferido, à defesa. Ontem, no último debate televisivo que juntou todos os candidatos a Belém, a tensão de Mendes era evidente, e nem os muitos anos passados nos ‘plateaus’ televisivos ou o à-vontade que todos lhe reconhecemos à frente das câmaras foram suficientes para disfarçar o desconforto que sentia, principalmente frente a Henrique Gouveia e Melo.

Visivelmente, nas últimas duas semanas, Mendes perdeu aquilo que mais importante é numa pugna eleitoral, o saber conduzir a agenda, o liderar o debate público, o fazer os competidores ‘correr’ atrás dele. Sem discurso, limitando-se, quando as sucessivas acusações, insinuações e suspeitas lhe deixavam tempo para isso, a lançar uns lugares-comuns em jeito de ‘números’, sem que daí saísse uma única ideia sólida que fosse (aquela do jovem no Conselho de Estado é no mínimo patética…), Mendes esteve sempre mais preocupado em defender-se do que em afirmar-se, deixando-se assim enredar na teia que lhe estenderam, ficando prisioneiro de um passado recente que, por muito que o tentasse explicar, o passou a aprisionar e a manietar. 

O erro de Mendes e da sua estratégia foi em grande parte assentar a sua campanha na seriedade, na questão da ética e da experiência. Quando, principalmente após o debate com Gouveia e Melo, essas mesmas seriedade e ética, as suas, foram questionadas, e quando, à defesa, se viu obrigado a justificar-se, o candidato governamental perdeu o norte, ficou sem discurso, faltou-lhe o propósito. Um erro pueril, infantil, só possível a quem julgou que bastava apenas agitar o estandarte da experiência e da seriedade para chegar a Belém.

Com uma campanha desenxabida, pobre em ideias, ‘velha’, mais a parecer que corre para uma reeleição do que para uma primeira eleição, Mendes está a ser vítima de si próprio, de uma arrogância política e intelectual que foi deitada por terra logo na primeira suspeição, e quando, com sucesso, como se de um ‘boomerang’ se tratasse, lhe conseguiram ‘colar’ o rótulo do facilitador, do homem dos jeitinhos e das negociatas – uma imagem fatal nos tempos que vivemos.

A pouco mais de dez dias das eleições de 18 de Janeiro, Luís Marques Mendes está agora sem rumo, com uma campanha desgovernada, sem rei nem roque, a aguardar um ‘milagre’ que já nem o ‘velho’ Cavaco, ou um Luís Montenegro, lhe podem oferecer. Quanto mais não seja, porque ao primeiro deles falta um peso e uma importância que julga ter, e ao segundo, preocupa mais saber como escapar aos óbvios e naturais estilhaços de uma derrota eleitoral, do que propriamente dar a mão a quem ele já antevê fora da corrida.

José Paulo Fafe

CATEGORIA, PRECISA-SE!

José Paulo Fafe

Se há uns tempos alguém me tivesse perguntado quem, neste final de ano de 2025, poderia estar a disputar o cargo de Presidente da República, estou certo de que os nomes de António Costa, António Guterres, Durão Barroso, Paulo Portas, Pedro Passos Coelho, Pedro Santana Lopes – por ordem alfabética, sublinhe-se – seriam os primeiros que eu referiria.

Penso que todos estaremos de acordo que qualquer um deles possuiria suficiente e inquestionável perfil, percurso e carisma para aspirarem a ser chefe de Estado. Gostando-se, ou não, de cada um deles, todos eles seriam naturais candidatos a Belém, sem que alguém, nem ao de leve, pusesse em causa a capacidade para exercer o cargo.

Quis o destino que nenhum, por uma ou outra razão, mostrasse disponibilidade para avançar, conduzindo-nos a este penoso cenário, onde, da direita à esquerda, um naipe de figuras de segunda e terceira linha se perfilam para vir a ocupar a mais alta magistratura da Nação, sem que algum deles nos dê à partida a garantia de exercer o cargo com aquilo que é indispensável para o exercício da função presidencial – categoria.

Ao longo desta campanha, que se arrasta penosamente há algumas semanas, temos assistido a uma autêntica enxurrada de lugares-comuns apresentados como se de pensamento político se tratasse, a um sem-fim de ‘sound bytes’ e ‘números’ artificiais e sem nexo, à ausência total de qualquer ideia para um país órfão, mas cada vez mais sequioso, de uma figura de referência.

Independentemente de um ou outro dos candidatos até poderem ser pessoas estimáveis e mesmo bem-intencionadas, o panorama é realmente confrangedor – especialmente para quem, como eu, pertence a uma geração a quem foi fácil possuir referências políticas, tal a qualidade da ‘elite’ que ‘marcou’ a nossa adolescência e juventude…

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Publicado em 28 dezembro de 2025
José Paulo Fafe

DEIXE-SE DE FITAS DR. LEITÃO AMARO!

José Paulo Fafe

A minha vida confunde-se desde sempre com os jornais. Foi com eles que praticamente aprendi a ler, foi neles que comecei a trabalhar, foi com eles que tive muitas das minhas grandes alegrias e também desilusões ao longo destes anos.

Conheço-os de fio a pavio, sei, sem falsa modéstia, ‘fazê-los’ na verdadeira aceção do termo – criá-los, planeá-los, escrevê-los, até, se tal for preciso, paginá-los, e fazer as suas primeiras páginas – só me falta mesmo saber dar a indispensável ordem de marcha à rotativa.

Sou ainda do tempo, embora miúdo, do chumbo, das redações submersas em densas nuvens de fumo, das máquinas ‘azert’ ou até mesmo ‘hcesar’, e dos chefes que, de pés postos em cima da mesa, balão de whisky numa mão, e cigarro na outra, comandavam a redação ao som de berros que mais soavam como estalidos de chicote.

Lembro-me até, pasmem-se, da polémica passagem do chumbo para o ‘offset’, da figura mítica que a protagonizou, Lopes do Souto de seu nome, do início da era dos ‘ozalides’, das ‘casas da venda’, dos ardinas, dos jornais lançados quais ‘boomerangs’ de uma só viagem para as varandas, e dos tempos em que os jornais eram companhia obrigatória nas manhãs de qualquer um.

Por outro lado, infelizmente, sei bem o que muitos, de empresários a jornalistas, fizeram aos jornais ao longo destes anos; assisti à decadência do papel; ao fim de aquilo que justamente se podia considerar uma ‘arte’; à maneira incompetente como cada vez mais são dirigidos, quase sempre à ordem de agendas e interesses que nada têm a ver com o propósito de informar, muito devido à ascensão aos cargos de chefia, salvos honrosas exceções, de gente sem qualificação ou sequer pálida ideia do que é um jornal, e como fazê-lo.

Vem todo este exercício memorialista, chamemos-lhe assim, a propósito da notícia, saída há dias, sobre a iminência dos jornais poderem deixar de ser distribuídos diariamente em oito distritos. E principalmente da aparente apatia e encolher de ombros de um ministro que, dizem-me, confunde o seu desagrado pessoal com manchetes e artigos, com o dever e obrigação de contribuir para que os jornais em papel não venham a desaparecer. Deixe-se de fitas, sr. ministro Leitão Amaro – faça qualquer coisa, toca mas é a salvar os jornais!

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Publicado em 06 dezembro de 2025
José Paulo Fafe

A ‘NOSSA CHARLOTTE RAMPLING’ FOI-SE...

José Paulo Fafe

Fui colega, amigo e até compadre da Constança Cunha e Sá. Conhecemo-nos na ‘velha’ Sábado, lá para finais dos anos 80, quando compartilhámos um pequeno gabinete no primeiro andar daquela vivenda do Bairro das Colónias, onde um bando de saudáveis ‘malucos’ fez aquela que foi, entre outras coisas, a primeira publicação totalmente informatizada em toda a Europa.

Lado a lado, entre computadores que, comparados com os de hoje, pareciam movidos a vapor, disquetes que chegavam a voar pela janela, muitas fúrias homéricas devido a longos textos perdidos por falta de oportunos ‘save’, e também sonoras gargalhadas, fomos construindo uma amizade, daquelas que, pese embora a distância física, se mantém através dos anos, tantas vezes graças a cumplicidades forjadas em momentos menos bons, e que subsistem inquebrantáveis muitas vezes por um ou outro telefonema, ou por algum encontro casual.

Cada um de nós percorreu, a partir daquele número 5 da Rua Newton, caminhos distintos – o que não impediu, especialmente ali por volta de meados da década de 90, de coincidirmos por essa Lisboa fora, em noitadas que muitas vezes acabavam em lautos e divertidos pequenos-almoços tomados no Hotel da Lapa, onde as longas conversas se revelavam quase sempre inconclusivas, tantas vezes por desistência da minha parte, onde era o primeiro a deitar a toalha ao chão.

Conheci bem a Constança, compartilhei com ela alegrias e tristezas, momentos melhores e piores, inseguranças, temores e certezas. Guardarei dela a imagem de alguém que, sendo muitas vezes incompreendida, tinha do mundo e dos homens uma visão muito própria – determinada e coerente, a pensar pela sua própria cabeça (coisa rara nos tempos que correm…), imune a ‘modismos’ e às supostas certezas que mais não são que simples ‘muletas’ dos medíocres que, autoinvestidos de uma sabedoria que não possuem, pululam neste mundo cada vez mais pobre e caduco.

Um beijo, ‘Charlotte’!

 

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Publicado em 02 dezembro de 2025
José Paulo Fafe

O JOGO DE CAPOEIRA DE ANDRÉ VENTURA

José Paulo Fafe

“Um debate deve ser um jogo de capoeira, não um combate de boxe, até porque o objetivo não é agredir o adversário, mas sim impressionar a plateia”
Antônio Lavareda

“Desconheço se André Ventura conhece, ou não, esta definição do brasileiro Antônio Lavareda, colaborador desta casa e um dos mais lúcidos cientistas políticos que me foi dado conhecer, sobre o que deve ser um debate televisivo. Mas bastou-me assistir às recentes prestações de Ventura para me recordar desta máxima, tão certeira, quanto oportuna.

Uma das coisas que mais me saltou à vista nos dois debates de Ventura a que assisti – um contra António José Seguro, e o outro, há dias, o que o opôs a Luís Marques Mendes – foi que o líder do Chega não comete o erro que praticamente todos os seus adversários cometem – o de querer ganhar os debates, o de querer nocautear o oponente. Para ele, isso é coisa que, sucedendo, vem por acréscimo, não é de todo o mais importante, serve quando muito para que os inúmeros comentadores que pululam por essas televisões fora se entretenham.

O que conta para ele utilizando a expressão de Lavareda, é impressionar a plateia – é isso apenas que o move. Para Ventura, mais do que ganhar um debate, o importante é ser eficaz, ou seja, ir ao encontro aos seus objetivos, seja o seu oponente quem ele for. Nos casos acima referidos, e duvido que seja diferente nos outros debates que ainda aí vêm, o objetivo de Ventura é só um – ‘blindar’ o seu eleitorado, conservá-lo, garantindo uma ida à segunda volta, o que à partida um ‘score’ eleitoral semelhante ao que o seu partido alcançou nas últimas legislativas, lhe garante.

Para isso, Ventura tem executado uma estratégia eficaz, a de ‘obrigar’ os seus adversários a debater os temas que mais lhe convêm, os temas em que ele se sente mais à vontade, e os que sabe que o seu eleitorado quer ouvir. Isso é logo meio-caminho andado para que, ao fim de cada meia-hora, saiba que cumpriu a missão que definiu à partida.

Não fazendo mesmo, muitas vezes, qualquer caso das questões que os moderadores possam introduzir, é certo e sabido que a Ventura, quando se lhe falam de alhos, não perde tempo em responder bugalhos, levando os seus adversários, até pela forma vocal como se lhes dirige, a cair num ‘jogo’ onde à partida não se sentem confortáveis e onde menos jeito e habilidade mostram.

Foi assim com Seguro, foi assim com Marques Mendes – será certamente assim com o almirante Gouveia e Melo e até com Cotrim, só para citar os adversários com quem está a disputar a primeira volta destas presidenciais.

Só para terminar: e será certamente por isso também que, além do facto dos dois debates televisivos em que participou serem os dois mais vistos até agora, foram os únicos que ultrapassaram o milhão de telespetadores.

 

José Paulo Fafe

UM BAFO DE ANGÚSTIA

José Paulo Fafe

Lembro-me bem de quando, há uns cinquenta anos, entrei pela primeira vez naquilo que hoje é a Assembleia da República, na altura ainda e só Constituinte. Devia ter uns 14 ou 15 anos, e sei que a palavra que melhor pode definir o que o miúdo que então eu era sentiu, não pode ser outro senão ‘fascínio’, tal o encanto e até o algum deslumbre que todo aquele ambiente me provocou.

Pertenço a uma geração em que – espantem-se os mais novos – muitos de nós chegavam, à falta de outro entretenimento, a escolher as sessões parlamentares para passar as tardes lá em cima nas galerias, encantados que estávamos com o exercício da política, com a possibilidade de ver e ouvir de perto grandes tribunos que então marcavam aqueles tempos. Era assim como uma arte, era quase como ir ao cinema – ali aprendia-se, crescia-se, de alguma maneira sentia-se o país.

A par do forte cunho litúrgico que então a Assembleia possuía, os parlamentares que então a formavam, eram na sua generalidade homens de mão cheia, muitos deles gente de primeira qualidade, dos que tinham ‘mundo’, vida, critério, propósito, mas fundamentalmente que possuíam uma forma de estar na sociedade que prestigiava a política.

Durante anos passei ali horas a fio, noitadas até, algumas delas enquanto jornalista que fui, outras – muitas – como simples ‘voyeur’, apenas pelo único e exclusivo prazer de observar de perto grandes parlamentares e oradores de exceção, verdadeiros príncipes da política. Sem preocupações ideológicas ou partidárias, lembro-me ao longo desses anos, talvez até meados da década de 90, de nomes como, por exemplo, Adelino Amaro da Costa, Francisco Lucas Pires, António Almeida Santos, Carlos Brito, Francisco Salgado Zenha, Silva Marques, José Luís Nunes, entre tantos outros.

Há dias, por razões que não vêm para o caso, tive de voltar à Assembleia da República. Talvez há mais de 20 anos que não pisava os Passos Perdidos e todos aqueles corredores que envolvem a sala do plenário. E se há uns 50 anos, foi o fascínio que marcou a minha ‘primeira vez’ naquele edifício, desta feita, chegado lá acima, bastou abrir a porta do elevador, para sentir um prolongado e desagradável bafo de angústia…

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Publicado em 17 novembro de 2025
José Paulo Fafe

25 SEM NOVEMBRO NÃO É ABRIL

José Paulo Fafe

Não sei onde, há 50 anos, andariam os drs. Nuno Melo e Paulo Núncio, ou seja, o que hoje resta do CDS. Agora, um com 59, e outro com 57 anos, presumo-os então ainda de bibe. E se ao dr. Melo o imagino em Joane a jogar à apanhada, ao berlinde, ou a fazer corridas de carrinhos, ao dr. Núncio, a esse, estou a vê-lo, de barrete na cabeça, a citar de longe um touro imaginário, ‘ensaiando’ uma pega de caras. Imagino-os a ambos – e sublinhe-se que é natural que assim o seja – muito mais empenhados com essas normais travessuras de infância, do que propriamente preocupados com o avanço de quem não se importava de ver insaturado um regime de cariz totalitário no nosso país.

Se tivessem mais uns anitos naquele tempo, aposto que o dr. Melo e o dr. Núncio,das três, uma: ou estavam escondidos nalguma sacristia, de rabinho entre as pernas, debaixo da sotaina de algum padre; ou andavam por Copacabana; ou então, aqui ao lado, na então cosmopolita Gran Via, deliciavam-se com uns saborosos ‘churros con chocolate’. É que, salvas raras e honrosas exceções, era aí que, nos tais ‘anos da brasa’, quando os democratas combatiam os que na altura queriam ver o país virar (ainda) mais à esquerda, o CDS estava – ou escondido nalguma sacristia, ou ao sol no Rio de Janeiro, ou então a fingir que conspirava em Madrid…

Hoje, porque a história de facto dá grandes voltas, mas também porque o Partido Socialista parece ter vergonha do seu passado, e com a conivência de um PPD/PSD que, para meu espanto, talvez por lhe faltar memória, aceita ser subalternizado por um parceiro menor, o CDS, ou o que ainda resta dele, quer apropriar-se do 25 de Novembro, uma data com a qual nunca nada teve a ver, e que pertence (sem aspas) a quem, na verdadeira aceção da palavra, de facto o fez – aos militares do ‘grupo dos Nove’, aos socialistas e também aos que, no PPD/PSD, não hesitaram até em pegar em armas e sair para as ruas e estradas por esse país fora.

Quem se lembra daqueles meses, e quem assistiu à forma como despontou e atuou a resistência ao devaneio totalitário de uma certa esquerda, então tão deslumbrada, quanto irracional, sabe bem quem eram os que de facto estavam nas ‘trincheiras’ e do lado certo da História e quem eram os que, por medo e oportunismo, apenas surgiram ao lado dos vitoriosos, quando o perigo se esfumou.

Vou mais longe: quem viveu aqueles tempos, quem soube em 1975 qual era o seu lugar, consegue apesar de tudo ter mais respeito pelos que, pese embora estivessem do lado contrário, tiveram aquilo que faltou a quem se furtou à obrigação e ao dever de lutar pela Democracia – a coragem.

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Publicado em 08 janeiro de 2026
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Publicado em 07 janeiro de 2026
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