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Nicolae Sena Santos

OS SETE PILARES DA SABEDORIA – AS LIÇÕES QUE O MUNDO RECUSOU APRENDER

Nicolae Sena Santos

T. E. Lawrence escreveu “Os Sete Pilares da Sabedoria” como uma confissão, tanto como uma crónica de guerra. O relato da campanha árabe contra o domínio otomano, entre 1916 e 1918, é simultaneamente um documento histórico de rara acuidade e uma declaração de culpa, a de um homem que prometeu a um povo a liberdade que os seus próprios governantes jamais tencionavam conceder.

A escrita de Lawrence é densa e por vezes exasperante na sua beleza deliberada, mas é precisamente esse excesso que denuncia a tensão moral do autor. Ele sabia que os acordos de Sykes-Picot, negociados dissimuladamente enquanto aliciava os chefes árabes com promessas de soberania traçavam fronteiras artificiais sobre povos com identidades milenares. A traição estava escrita antes de a tinta secar nos mapas.

O que torna a obra insuportavelmente actual é que essas mesmas fronteiras continuam hoje a definir o Golfo Pérsico e o Médio Oriente. O Iraque, a Síria, a Jordânia, tudo entidades criadas não por afinidade histórica ou cultural, mas pela conveniência imperial britânica e francesa, permanecem palcos de conflito perpétuo. A instabilidade do Iraque pós-2003, o colapso da Síria, a guerra no Iémen, todos estes dramas têm raízes directas nas decisões que Lawrence já então deplorava.

A lição central do livro é que nenhuma potência estrangeira pode impor ordem a uma região que não compreende, e que a lealdade tribal e confessional supera qualquer fronteira desenhada em Londres ou Paris foi ignorada com espantosa consistência. Os Estados Unidos repetiram, com diferente sotaque mas idêntica arrogância, os erros britânicos. Chegaram com mapas errados, saíram sem deixar paz.

Lawrence terminou a sua obra em amargura. Ganhou batalhas e perdeu a guerra moral. O Médio Oriente de hoje é, em larga medida, o seu testamento não lido.

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Publicado em 15 maio de 2026
Nicolae Sena Santos

LEUVEN, QUANDO A PENA FOI MAIS FORTE DO QUE A ESPADA

Nicolae Sena Santos

A pena construiu Leuven. Durante séculos, foram as mãos dos copistas, dos humanistas e dos sábios que ergueram, volume a volume, uma das maiores memórias vivas da Europa. Trezentos mil livros, mil manuscritos e a bula que dera à cidade o direito de pensar. Erasmo escreveu entre as suas paredes. Vesalius dissecou lá o corpo humano com o olhar e com a pena. Mercator redesenhou o mundo com uma linha de tinta. Leuven era, há seiscentos anos, aquilo que uma cidade pode ser na sua forma mais nobre, um lugar onde o pensamento tinha morada fixa.

A espada destruiu tudo numa noite. Em Agosto de 1914, os exércitos alemães entraram em Leuven e incendiaram a sua biblioteca. Não foi um acto de guerra, foi um acto de eliminação. Quem queima livros não destrói papel, destrói o tempo acumulado, destrói as vozes que já não têm corpo, destrói aquilo que os séculos deixaram escrito para que o mundo soubesse quem tinha sido e para onde poderia ir. As chamas foram rápidas, a perda, irreparável.

O mundo respondeu não com outra espada, mas com outra pena. Bibliotecários em Manchester recolheram livros doados. Universidades americanas abriram os cofres. Académicos de continentes inteiros recusaram aceitar que o fogo tivesse a última palavra. Pedra a pedra, página a página, Leuven ressurgiu, com uma biblioteca ainda mais bela do que a anterior, cujos muros guardam gravados em pedra os nomes de todos aqueles que recusaram deixar o saber morrer em silêncio. A torre que hoje se ergue sobre a praça não é apenas uma obra de arquitectura, é uma declaração.

A espada voltou em 1940. E a pena voltou depois dela, uma vez mais. É esse o paradoxo que Leuven encarna e que o seu nome hoje simboliza. A espada pode ser mais rápida, mas a pena tem sempre a última palavra. Porque a espada destrói e esquece enquanto a pena reconstrói e recorda. Porque os livros que ardem deixam cinza, e da cinza, quem sabe ler, sabe também recomeçar.

Leuven sobreviveu duas vezes à sua própria destruição, e é hoje, precisamente por isso, uma das cidades mais luminosas da Europa.

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Publicado em 08 maio de 2026
Nicolae Sena Santos

IDEIAS PARVAS

Nicolae Sena Santos

A hipótese de Pedro Nuno Santos abandonar o Partido Socialista para fundar um movimento político à imagem de Jean-Luc Mélenchon tem sido ventilada com um misto de curiosidade e inquietação. A ideia, ainda que especulativa, merece uma análise, não tanto pelo seu valor mas pelas ilusões que transporta.

Desde logo a comparação com o caso francês revela-se problemática. O sistema partidário português, apesar das suas tensões internas e ciclos de desgaste, é estruturalmente mais estável do que o francês. Ao contrário da fragmentação crónica que permitiu o surgimento de fenómenos como a La France Insoumise, Portugal mantém uma matriz partidária muito mais consolidada, com eleitorados mais previsíveis e menos permeáveis a rupturas personalistas. A importação de modelos políticos estrangeiros, sem atender às especificidades institucionais e culturais tende a produzir mais ruído do que resultados.

Por outro lado, a história recente da democracia portuguesa oferece exemplos claros das limitações dessas “aventuras” dissidentes. Pedro Santana Lopes, após um percurso relevante no Partido Social Democrata, procurou reinventar-se com a criação de um novo projecto político, sem expressão eleitoral significativa. De igual modo, Manuel Monteiro, antigo líder do CDS-PP ensaiou uma alternativa fora das estruturas tradicionais, também sem sucesso relevante. Estes precedentes não são meros acidentes, revelam um padrão consistente de rejeição, por parte do eleitorado, de iniciativas que fragmentam ainda mais o espaço político sem oferecer uma proposta distintiva suficientemente robusta.

No campo da esquerda o problema dificilmente pode ser descrito como uma escassez de oferta partidária. Entre o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português, o Livre e outras formações menores, existe uma pluralidade de opções que cobre um espectro ideológico alargado. O declínio eleitoral verificado nos últimos anos não decorre da ausência de oferta, mas antes de uma erosão da base social e eleitoral da esquerda. Ignorar este facto e apostar na criação de mais uma estrutura política equivale a confundir o sintoma com a causa.

A questão central não reside na falta de opções, mas na capacidade de compreender por que razão uma parte significativa do eleitorado se afastou. Mudanças no mercado de trabalho, transformações demográficas, novas clivagens culturais e uma crescente desconfiança nas instituições são factores que exigem resposta política substantiva. Sem esse trabalho de diagnóstico qualquer novo movimento arrisca repetir os mesmos erros, apenas com outra designação e neste caso hipotético, com um rosto já associado a derrotas claríssimas.

A eventual tentação de seguir o exemplo de Jean-Luc Mélenchon ignora, assim, as diferenças estruturais entre os contextos nacionais e sobrestima o peso das lideranças individuais em detrimento das dinâmicas sociais profundas. Em Portugal, a estabilidade do sistema partidário não é apenas um dado institucional, é também um reflexo de uma cultura política que privilegia continuidade e previsibilidade.

A eventual saída de Pedro Nuno Santos para fundar um novo movimento à esquerda dificilmente constituiria uma solução para os problemas actuais desse campo político. Pelo contrário, tenderia a acentuar a fragmentação e a dispersão de forças, sem resolver a questão essencial que é a perda de ligação entre partidos e eleitores. Sem enfrentar essa realidade, qualquer “nova” proposta corre o risco de ser apenas mais uma experiência condenada a confirmar um padrão já bem conhecido.

Nicolae Sena Santos

25 DE ABRIL, A REVOLUÇÃO TRANQUILA

Nicolae Sena Santos

Há um equívoco tenaz que convém desfazer: o 25 de Abril não foi uma revolução ideológica. O Movimento das Forças Armadas que na madrugada daquele dia de Abril derrubou quarenta e oito anos de ditadura foi uma reunião de homens de sensibilidades políticas diversas. O que os unia não era um programa doutrinário, mas a convicção partilhada de que o regime se tornara insustentável, moralmente falido, militarmente derrotado, socialmente opressor. A alavanca que moveu os capitães não foi Marx nem Lenine, foi a exaustão de uma geração que regressava de uma guerra em África sem compreender em nome de quê.

Reduzir Abril a um golpe da esquerda é falsificar a história, é apagar os rostos e as convicções de todos aqueles que, sem serem marxistas, quiseram simplesmente que Portugal voltasse a ser um país livre.

Dito isto, é preciso ter a honestidade de reconhecer um erro histórico. A direita democrática portuguesa, aquela que rejeitava o salazarismo sem abraçar o colectivismo, abdicou, em grande medida do seu papel activo na recuperação da liberdade. Intimidada pelos excessos do período revolucionário, recuou para uma posição defensiva e deixou o campo simbólico de Abril ocupado quase exclusivamente pela esquerda. Foi um erro de consequências duradouras. Ao abandonar Abril, abandonou também a narrativa da liberdade, e permitiu que outros a monopolizassem.

A liberdade de imprensa, o sufrágio universal, o Estado de direito, a dignidade do cidadão perante o poder, todos estes são valores que a direita democrática deveria ter reclamado como seus desde o primeiro dia. Não o fez com a determinação necessária, e esse vazio foi preenchido.

Hoje assiste-se a um fenómeno diferente e mais perigoso. A direita populista e radical não se limita a disputar a memória de Abril, quer demonizá-la. Serve-se para isso dos excessos do período revolucionário, com as suas nacionalizações precipitadas, as suas ocupações de terras e os seus momentos de ajuste de contas. Esses excessos existiram, é verdade, e não merecem ser escamoteados. Mas transformá-los na essência do 25 de Abril é uma desonestidade intelectual que serve apenas propósitos políticos do presente.

Compare-se, com sentido de proporção histórica, o que foram os excessos portugueses com o que foram as outras grandes revoluções da modernidade. A Revolução Francesa produziu o Terror, a guilhotina, as vagas de execuções em massa, os afogamentos colectivos em Nantes. A Revolução de Outubro na Rússia inaugurou décadas de gulag, de fomes provocadas e de extermínio sistemático de classes inteiras. O PREC português, com toda a sua turbulência, não produziu nada que se aproxime remotamente dessas tragédias. Houve injustiças, houve arbitrariedades, houve medos, mas não houve Terror com maiúscula.

Não é por acaso que o símbolo do 25 de Abril é um cravo. Um cravo colocado na boca de uma espingarda, não uma guilhotina, não um pelotão de fuzilamento, não uma forca. É um símbolo de uma singularidade histórica rara, uma revolução que, na sua essência, foi tranquila. Que preferiu a flor à bala. Que quis a liberdade sem banhar as ruas em sangue. Esse símbolo diz tudo sobre o que Abril foi e sobre o que os seus protagonistas quiseram que fosse.

O 25 de Abril é uma data que une os portugueses. Une-os na memória de uma opressão comum e na recuperação de uma liberdade que custou décadas a conquistar. Não é uma data de uma família política, é uma data de todos os portugueses. Até os que vilipendiam a sua memória, o podem fazer como consequências das conquistas quer o 25 de Abril lhes deu. As tentativas da direita populista e radical de a demonizar, de a reduzir aos seus momentos mais difíceis, de a apresentar como o pecado original de todos os males do Portugal contemporâneo, devem ser combatidas com vigor por todos os portugueses que amam a liberdade que reconquistaram há cinquenta e dois anos.

Defender Abril não é ser de esquerda ou de direita. É ser livre. É recusar que a memória daqueles que tiveram a coragem de agir seja sequestrada, quer pelos oportunistas que a querem transformar numa bandeira partidária, quer pelos que a querem enterrar como um erro vergonhoso. Abril não foi perfeito. Nenhuma revolução o é. Mas foi, na sua essência, uma das páginas mais dignas da história portuguesa. E essa dignidade merece ser preservada e precisa de ser defendida.

Nicolae Sena Santos

O SUPER-HOMEM DA SARJETA

Nicolae Sena Santos

Friedrich Nietzsche imaginou o Übermensch, o super-homem, como aquele que rejeita toda a moral transcendente, que não presta contas senão a si mesmo, que ergue a vontade de poder como único evangelho. Nunca o filósofo alemão terá imaginado que, um século e meio depois, essa figura encarnaria tão literalmente nos salões dourados de Mar-a-Lago.

Donald Trump atacou publicamente o Papa Leão XIV, o primeiro pontífice americano da História, apelidando-o de “fraco”, por este se opor à guerra no Irão e apelar à paz na sua bênção pascal.

Quando questionado sobre um eventual pedido de desculpas ao chefe da Igreja Católica, o presidente foi categórico, não se desculparia. Para Trump, a força é o único valor e a misericórdia uma fraqueza inaceitável.

É aqui que Nietzsche se torna um espelho incómodo. O super-homem despreza a “moral de escravos”, a compaixão, a humildade e o perdão, que o filósofo associava ao Cristianismo.

Trump de certeza que não leu Nietzsche, duvido mesmo que dele tenha ouvido falar, mas pratica-o com uma naturalidade que assombra. Condena quem pede paz, ridiculariza quem recusa a lógica da força, trata a diplomacia como capitulação.

Leão XIV respondeu sem hesitar: “Não tenho medo do governo Trump.” Há nesta frase uma ironia profunda. O Vigário de Cristo, que professa precisamente a “moral de escravos” de Nietzsche, é o único que olha o super-homem nos olhos sem piscar.

Nietzsche via na morte de Deus o nascimento do super-homem, o que não previu foi que Deus enviaria um papa norte-americano para dizer “NÃO” ao, também norte-americano, super-homem da sarjeta.

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Publicado em 21 abril de 2026
Nicolae Sena Santos

A ESTRATÉGIA ARRISCADA DE LUÍS MONTENEGRO

Nicolae Sena Santos

A recente actuação de Luís Montenegro revela uma aposta táctica de elevado risco no xadrez político nacional. Ao fazer claramente entendimentos com o Chega, o líder do PSD parece procurar um objectivo mais profundo do que a mera viabilização governativa, fragilizar internamente o Partido Socialista, em particular a liderança de José Luís Carneiro.

A lógica subjacente é clara. Montenegro sabe que Carneiro representa uma linha moderada e dialogante no PS, potencialmente atractiva para o eleitorado centrista e moderado. Ao forçar um cenário de polarização aproximando-se de uma força à direita mais radical procura estimular tensões internas entre socialistas, incentivando a ala mais à esquerda a contestar a actual liderança. Uma eventual substituição de Carneiro por um dirigente mais ideológico poderia, no cálculo do PSD, reduzir a capacidade eleitoral do PS em eleições nacionais.

Trata-se de uma manobra de alto risco. Se o PS resistir e Carneiro consolidar a sua posição, Montenegro poderá ficar associado à escolha de um aliado radical em detrimento de pontes ao centro. Essa imagem poderá alienar sectores moderados do eleitorado, historicamente decisivos para vitórias eleitorais.

Neste cenário, a jogada pode sair cara ao PSD. Em vez de enfraquecer o adversário, arrisca-se a comprometer a sua própria credibilidade como solução de governo equilibrada. Em política, tácticas ousadas podem render ganhos rápidos, mas também perdas duradouras.

Abraço

Faça-me um favor … Seja Feliz !!!

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Publicado em 10 abril de 2026
Nicolae Sena Santos

JOSÉ LUÍS CARNEIRO NA SUA ENCRUZILHADA

Nicolae Sena Santos

O momento político que o país atravessa exige liderança serena, capacidade de diálogo e sentido de responsabilidade institucional. Nesse plano, José Luís Carneiro tem correspondido às expectativas. Como secretário-geral do Partido Socialista, tem procurado recentrar o debate político, promovendo a cooperação entre forças partidárias e contribuindo para a pacificação de um clima que, nos últimos anos, se tornou excessivamente crispado.

Essa postura dialogante e moderada não é apenas desejável é fundamental. Num contexto de fragmentação e polarização, Carneiro surge como uma figura capaz de construir pontes, de reduzir tensões e de recolocar a política no interesse público. Assim, é legítimo afirmar que está a ser o secretário-geral do PS que o país precisa.

Contudo, essa mesma virtude parece não encontrar tradução no plano interno do partido. Dentro do PS, José Luís Carneiro enfrenta uma encruzilhada que ainda não conseguiu resolver. A prometida renovação do aparelho partidário ficou a meio da ponte, nem ruptura clara com o passado, nem afirmação consistente de uma nova geração política.

Ao manter-se amarrado a figuras com demasiado passado e pouco futuro, o líder socialista arrisca comprometer a credibilidade do seu projecto interno. A falta de uma renovação efectiva enfraquece a capacidade mobilizadora do partido e adia um debate essencial sobre o seu rumo.

Entre o país e o partido, Carneiro tem conseguido responder ao primeiro. Falta-lhe agora decidir inequivocamente sobre o futuro do segundo.

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Publicado em 03 abril de 2026
Nicolae Sena Santos

O PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE PODERES

Nicolae Sena Santos

A recente decisão do Tribunal Constitucional que declarou inconstitucionais as tarifas decretadas unilateralmente pelo Presidente americano constitui um momento de clarificação institucional e de reafirmação dos princípios basilares do Estado de direito. Ao agir sem respaldo legislativo suficiente, o Chefe do Executivo arrogou a si uma competência que, num regime constitucional equilibrado, não lhe pertence em exclusivo.

O Tribunal, ao censurar tal iniciativa, não entrou no mérito económico das tarifas, mas no plano superior da conformidade constitucional. Fê-lo lembrando que a Constituição não é uma sugestão política, mas a norma suprema que vincula todos os poderes públicos. Quando o Executivo ultrapassa os limites traçados pelo legislador, cabe ao poder judicial exercer a sua função de garante último da legalidade.

Numa democracia autêntica, o princípio da separação de poderes é essencial para assegurar que nenhum dos poderes do Estado — executivo, legislativo ou judicial — concentra autoridade bastante para esmagar os restantes. O equilíbrio entre eles não é sinal de fraqueza institucional, mas expressão de maturidade política. Só através dessa contenção recíproca se preservam as liberdades individuais, se mantém a confiança dos cidadãos e se impede que a vontade circunstancial de um governante se transforme em despotismo.

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Publicado em 27 março de 2026
Nicolae Sena Santos

HABERMAS E O DESTINO DA DEMOCRACIA OCIDENTAL

Nicolae Sena Santos

A influência de Jürgen Habermas na civilização ocidental é incontornável, sobretudo no modo como pensamos a democracia. Habermas defendeu que a legitimidade política nasce do debate racional entre cidadãos livres e iguais, uma ideia que hoje se vê confrontada com a ascensão do populismo.

O conceito de “esfera pública” é central na sua obra. Um espaço onde argumentos prevalecem sobre emoções e onde a verdade se constrói colectivamente. Porém, o populismo tende a subverter esse princípio, substituindo o diálogo por slogans, simplificações e antagonismos artificiais entre “o povo” e “as elites”. Representa não apenas uma alternativa política, mas mais que isso, uma erosão das próprias condições do debate democrático.

Habermas não ignorou as causas do fenómeno. Segundo ele, a desigualdade, a precariedade e a percepção de distanciamento em relação às instituições alimentam o descontentamento que o populismo explora. A sua resposta não passou por ceder à lógica populista. Antes, ele exigiu mais democracia, mais transparência, mais participação e uma comunicação pública mais exigente.

Num tempo de polarização e desinformação o pensamento de Habermas recorda-nos que a democracia não é apenas voto, mas argumentação, e que sem uma esfera pública robusta o risco não é apenas o conflito político mas sim a perda do próprio sentido de verdade em comum.

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Publicado em 20 março de 2026
Nicolae Sena Santos

PASSOS COELHO NO SEU LABIRINTO

Nicolae Sena Santos

O regresso de Pedro Passos Coelho à política activa tem sido sugerido por alguns sectores da direita como solução para reorganizar o espaço político conservador. A hipótese de liderar uma coligação que inclua o Chega surge frequentemente nesse debate. No entanto, essa estratégia seria provavelmente um erro político de grandes proporções.

Em primeiro lugar, um governo verdadeiramente reformista exige estabilidade, responsabilidade institucional e compromisso com políticas de longo prazo. Os partidos populistas vivem da lógica oposta: prosperam no conflito permanente, na simplificação de problemas complexos e na mobilização de descontentamentos. Integrar uma força desse tipo num projecto reformista significaria introduzir, no coração do governo, um elemento estrutural de instabilidade e contradição. Reformas profundas exigem disciplina política; o populismo alimenta-se da ruptura constante.

Em segundo lugar, uma frente de direita que integre o Chega teria inevitavelmente efeitos eleitorais no centro político. Muitos eleitores moderados — fundamentais para qualquer maioria governativa em Portugal — dificilmente se reveriam numa aliança com uma força populista. O resultado previsível seria a deslocação desse eleitorado para o Partido Socialista, sobretudo se este for liderado por uma figura moderada como José Luís Carneiro.

Paradoxalmente, uma estratégia pensada para fortalecer a direita poderia acabar por consolidar a esquerda no poder. Em política, as maiorias constroem-se no centro — e é precisamente aí que uma coligação com o Chega arriscaria perder o país.

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Publicado em 10 março de 2026
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Publicado em 01 maio de 2026
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Publicado em 24 abril de 2026