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Nicolae Sena Santos

SERÁ ELE MESMO CRISTÃO?

Nicolae Sena Santos

Num momento em que os debates políticos sobre imigração se tornam cada vez mais polarizados, convém recordar um facto que a tradição cristã não deixa margem para contestação: uma postura anti-imigrantes é incompatível com o cristianismo. Não se trata de uma opinião ideológica; trata-se de uma conclusão teológica, bíblica e patrística.

Desde o Génesis, onde todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, até ao Novo Testamento, onde Cristo identifica o estrangeiro com Ele próprio — “era estrangeiro e acolhestes-me” — a mensagem é inequívoca: a dignidade humana não conhece fronteiras. Rejeitar alguém por ser de outro país é rejeitar a imagem de Deus que essa pessoa carrega.

A tradição dos Padres da Igreja reforça esta visão. São João Crisóstomo dizia que “o estrangeiro é o mais precioso dos hóspedes, porque nele Cristo se disfarça”. Basílio de Cesareia advertia que ignorar o migrante é “fechar a porta ao próprio Cristo”. Santo Agostinho lembrava que todos somos “peregrinos neste mundo”, e que tratar o estrangeiro como ameaça é esquecer a nossa própria condição. Tomás de Aquino, séculos mais tarde, sintetizou a questão de maneira cristalina: a caridade cristã é universal, e exclui qualquer discriminação baseada na origem.

Ora, no contexto político actual, ouvimos frequentemente discursos que demonizam os imigrantes, descrevendo-os como “invasões” ou “ameaças culturais”. Mas estes discursos, apesar de politicamente rentáveis, são teologicamente indefensáveis. A lógica do Evangelho não admite muros construídos sobre o medo nem fronteiras erguidas sobre a indiferença. A indiferença, aliás, foi justamente caracterizada pelo Papa Francisco como “uma forma moderna de idolatria”.

Nenhuma política pública está isenta de complexidade. É legítimo discutir modelos de integração, capacidade de acolhimento e responsabilidades institucionais. O que não é legítimo — do ponto de vista cristão — é transformar seres humanos em problemas, negar-lhes dignidade, ou construir identidades políticas baseadas na rejeição dos mais vulneráveis. A ética cristã não pode ser instrumentalizada para legitimar hostilidade. O cristianismo não é um escudo cultural; é um mandamento moral.

Quando um cristão, ou alguém como o líder do Chega, que invoca a herança cristã para defender políticas excludentes, escolhe o medo e o ressentimento em vez da hospitalidade e da solidariedade, não está a defender o cristianismo. Está a contradizê-lo. A pergunta que Cristo disse que faria no fim dos tempos continua a ser a mesma: “Acolhestes-me ou rejeitastes-me?” E, nesta lógica, a forma como tratamos os imigrantes — sejam refugiados de guerra, trabalhadores económicos ou famílias em busca de futuro — torna-se um teste à autenticidade da fé.

Ser contra os imigrantes não é apenas uma divergência política. É uma ruptura com o coração do Evangelho.

E num país que se diz de raízes cristãs, isso deveria fazer-nos pensar.

Muito.

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Publicado em 23 janeiro de 2026
Nicolae Sena Santos

AS ORIGENS DO REPUBLICANISMO INGLÊS

Nicolae Sena Santos

Entre Huntingdon e Thetford corre um vento antigo – um sopro de inquietação que há séculos murmura nos campos da Inglaterra oriental. São cidades modestas, de pedra cinzenta e horizontes longos, onde a história parece adormecer – mas é apenas aparência. Sob o seu silêncio lateja o rumor da mudança. Foi ali, entre a névoa dos rios e o labor dos homens comuns, que nasceram dois espíritos que, separados pelo tempo, partilharam uma mesma vocação: interrogar o poder e reinventar o mundo.

Em Huntingdon, o jovem Thomas Cromwell cresceu longe dos privilégios, entre o realismo áspero dos mercados e o clamor das forjas. Dizia-se que era de ferro – e foi. Serviu reis, derrubou reinos, redesenhou fronteiras invisíveis entre o sagrado e o político. Ao lado de Henrique VIII, tornou-se o engenheiro de uma revolução silenciosa: dissolveu mosteiros, quebrou o elo com Roma, e fundou, nas ruínas da fé antiga, um novo tipo de autoridade – humana, racional, administrativa.

Cromwell não falava em repúblicas; falava em ordem e em dever. Mas, ao erguer o Estado sobre a razão de governo e não sobre a vontade divina, plantou a semente do republicanismo – essa ideia perigosa de que o poder pode, e deve, justificar-se por si mesmo. Huntingdon foi, assim, o berço de um novo realismo político: o despertar da Inglaterra para a sua própria autonomia espiritual e civil.

Mais a leste, em Thetford, dois séculos depois, outro homem de origem humilde – Thomas Paine – haveria de colher o fruto amadurecido dessa semente.

Paine não serviu reis; desafiou-os. Não procurou a proximidade do trono, mas o calor da multidão. Onde Cromwell ergueu um Estado, Paine sonhou uma humanidade. Em Common Sense, a sua voz atravessou o Atlântico como um trovão; em Rights of Man, fez da pena uma espada de justiça.

Para Paine, o republicanismo não era mera estrutura política – era uma ética, uma fé na razão humana. Era a convicção de que a liberdade não é concessão de reis, mas direito natural dos homens; de que a soberania nasce do consentimento e não da herança.

O seu pensamento acendeu as luzes da América e incendiou a velha Europa. Thetford tornou-se, assim, um ponto luminoso no mapa da consciência moderna – o eco de uma verdade simples e devastadora: nenhum trono é legítimo quando os homens aprendem a pensar.

Entre Huntingdon e Thetford estende-se mais do que um mapa – uma travessia moral e espiritual. De Cromwell a Paine, a Inglaterra atravessou o abismo entre o poder imposto e o poder consentido, entre a reforma e a revolução, entre o Estado e o cidadão. Cromwell rasgou as vestes da autoridade divina; Paine vestiu o povo com a dignidade da razão.

Um desbravou o terreno; o outro semeou nele a esperança.

E, se hoje caminharmos entre essas duas cidades, poderemos senti-lo ainda – esse fio invisível que as une, como uma ponte lançada entre séculos: a ponte entre a obediência e a consciência, entre o dever e a liberdade.

No arco que as liga, passa o sopro do republicanismo inglês, nascido do trabalho e da dúvida, filho da reforma e pai da revolução. Ambas as cidades ensinam, no seu silêncio rural, que a história não é apenas feita por reis, mas por homens que ousaram pensar o poder de outro modo. Cromwell reformou a Inglaterra, Paine libertou o mundo.

E entre ambos, estende-se uma lição eterna: que todo o governo começa na coragem de um espírito livre.

Nicolae Sena Santos

DIFERENTES PERSPECTIVAS DO CONTRATO SOCIAL

Nicolae Sena Santos

A direita populista e a extrema-esquerda revelam, apesar das suas diferenças ideológicas declaradas, uma afinidade estrutural na forma como interpretam o contrato social, em contraste com a tradição liberal de Locke. Ambas rejeitam o indivíduo como fundamento da ordem política, substituindo-o por um sujeito colectivo — o “povo” homogéneo, no caso da direita populista, ou a “massa” ou “classe oprimida”, no caso da extrema-esquerda. Nesta leitura, a vontade colectiva adquire primazia sobre os direitos individuais, considerados obstáculo à realização de um projecto político unificado.

Enquanto, para Locke, o contrato social existe para limitar o poder e garantir a preservação dos direitos naturais, estas correntes apresentam-no como instrumento para legitimar um mandato transformador, que autoriza o Estado a actuar de forma ampla e interventiva em nome de uma vontade supostamente autêntica. Assim, a soberania deixa de ser dividida e controlada, passando a ser concebida como expressão directa de um colectivo moralmente privilegiado.

A desconfiança pelo pluralismo e pelas instituições de mediação — tribunais, parlamento, imprensa, corpos intermédios — aproxima igualmente estas correntes. Tais estruturas, essenciais para Locke, surgem aqui como mecanismos de bloqueio, utilizados por elites para frustrar a verdadeira vontade popular. Consequentemente, o dissenso deixa de ser parte legítima da vida política: os opositores podem ser retratados como inimigos internos, indignos de plena pertença à comunidade política.

Ao contrário, na perspectiva liberal de Locke, a diversidade de opiniões e interesses é inerente à liberdade e deve ser protegida por mecanismos institucionais que limitem qualquer concentração excessiva de poder. O contrato social não serve para reconstruir a sociedade segundo um ideal unificado, mas para garantir que cada indivíduo possa exercer a sua liberdade sem temer o arbítrio estatal.

A aproximação entre a direita populista e a extrema-esquerda reside, pois, na sua tendência comum para reduzir o espaço da liberdade individual, enfraquecer o constitucionalismo e erigir um Estado forte que fala em nome de uma colectividade única. Frente a isto, a visão liberal de Locke permanece como a defesa mais consistente de uma ordem política que valoriza o pluralismo, o limite ao poder e a dignidade individual.

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Nicolae Sena Santos

ULISSES E MARCO POLO - UM DESTINO DANTESCO

Nicolae Sena Santos

Ainda que um seja uma figura lendária, e outro uma personagem histórica, há muito de comum entre eles.

Consumada a destruição de Tróia, Ulisses iniciou a sua viagem de regresso a Ítaca com os seus companheiros. Alvo da vingança de alguns dos deuses que apoiaram Tróia, perdeu-se pelo caminho, foi enfeitiçado por sereias, Circe transformou metade da sua tripulação em porcos, os antepassados dos dirigentes de claques de futebol, e Calipso obrigou-o a ser seu amante durante sete anos, o que acredito não ter sido mau de todo.

Ulisses vagueou por 10 anos, resistindo a todas as armadilhas que lhe foram lançadas. Galgou o Mediterrâneo, conheceu novos locais e novas culturas e, terá mesmo sido o fundador de uma cidade chamada Olissipo, a nossa Lisboa. A sua vontade de ir mais longe, de conhecer mais, de descobrir pessoas, cidades e culturas novas esbarrou com a vontade de sua tripulação, mais conservadora que queria regressar a casa, o que finalmente conseguiu fazer, regressando para Penélope que pacientemente tecia, e para o seu filho Telémaco que abandonara quando tinha apenas um mês de idade.

Marco Polo foi diferente, o seu estímulo foi inicialmente económico. Na longa tradição mercantilista de Veneza, ele pertenceu a uma família de mercadores. Explorou as rotas comerciais que atravessavam a estepe em direcção às riquezas asiáticas. Chegado a Samarcanda decidiu procurar mais e ir mais longe. Chegou à China. Foi aceite na corte de Kublai Khan e obteve um ascendente tão grande que chegou a liderar uma embaixada responsável por levar uma das filhas do imperador mongol ao seu futuro marido. Um dia, passados 17 anos, decidiu regressar voltando para a sua Veneza onde já ninguém esperava vê-lo vivo.

Há uma dicotomia interessante no acto de viajar. Há um impulso de sair da “zona de conforto” e partir para algo novo. Quando abandonamos o solo onde estão as nossas raízes estamos sempre a correr um risco, que normalmente é temperado pela necessidade de regressar.

Dante, na sua “Divina Comédia” também conta a estória de um viajante que passa sucessivamente pelo Inferno, pelo Purgatório e finalmente pelo Paraíso, reflectindo exactamente isso, os perigos da viagem e a redenção do regresso.

Não é preciso ser-se muito machista para se sonhar ter uma Penélope, fiel e leal à nossa memória, pacientemente à nossa espera para nos curar das feridas da aventura, mesmo contra a opinião da sua família que a pressionou a esquecer Ulisses e casar de novo. Sonhar com o regresso é humano, é como querer voltar ao útero quente e confortável que nos deu vida.

A questão é que há pessoas que não o podem fazer. Não por não o terem querido, nem por não terem lutado por isso, simplesmente há quem não tenha encontrado a “sua” Penélope. Não tendo para onde nem para quem regressar, o que lhes resta é a viagem. Uma viagem contínua e constante, em busca de algo novo, de alguéns novos, uma busca interminável por algo que possa tornar-se finalmente definitivo.

Normalmente essas pessoas são pelos outros consideradas perdidas, ou errantes, o que é uma das coisas mais injustas para se dizer a alguém. Como Tolkien muito bem explicou: “nem todos os que vagueiam estão perdidos”.

Para alguns deles, a viagem é o regresso. O regresso a si próprios.

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Publicado em 19 dezembro de 2025
Publicado em 12 dezembro de 2025
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Publicado em 05 dezembro de 2025