Manuel Paiva Brandão, de 27 anos, está a atravessar os Estados Unidos (EUA) sozinho e à boleia, numa aventura que começou em El Paso, junto à fronteira com o México, e que deverá terminar em Montana. O projeto estava pensado há mais de cinco anos e surge depois de uma primeira grande viagem, realizada entre o Canadá e o Alasca.
“Fiquei sempre com este projeto, com esta perna por fechar, e enchi-me de coragem e assumi que este ano ia ser o ano”, contou, em exclusivo ao 24Horas.
Manuel partiu a dia 6 de julho e tem voo de regresso marcado para 6 de agosto. Até lá, precisa de gerir o tempo entre a vontade de explorar cada local e os muitos quilómetros que ainda tem pela frente. Depois de passar pelo Novo México, encontrava-se no Colorado no momento da entrevista, faltando-lhe ainda atravessar Wyoming e Montana.
O dia a dia varia entre caminhadas na natureza e longas esperas por uma boleia: “Uma viagem de 2 horas às vezes pode demorar um dia inteiro. Ontem, por exemplo, uma viagem de duas horas demorou-me 8 horas. E está tudo bem. É preciso ter paciência acima de tudo”, explicou.
Para o português, esta é também uma viagem de descoberta pessoal: “São duas viagens quase paralelas: conhecer novas verdades, novas realidades, e conhecer-me a mim próprio. São duas viagens que caminham juntas, como se fossem o pé esquerdo e o pé direito.”
Apesar de nunca ter vivido uma situação de vida ou de morte, Manuel admite ter sentido medo em alguns momentos, sobretudo no Novo México, onde chegou a recusar duas boleias por não se sentir seguro: “Quando temos o ser humano à mistura, temos de ter um pouco mais de cuidado, porque não há protocolo para lidar com um maluco que me dá boleia”, afirmou.
Ainda assim, são os gestos de bondade que mais o têm marcado. Ao longo da viagem, desconhecidos ofereceram-lhe transporte, comida e alojamento. No Novo México, uma mulher que lhe deu boleia convidou-o a dormir no seu rancho, deu-lhe jantar e pequeno-almoço e, no dia seguinte, o filho levou-o até às montanhas que queria explorar.
Ao perceber que Manuel viajava sem qualquer arma, o homem ficou surpreendido e decidiu oferecer-lhe uma faca de grandes dimensões: “Foi ao porta-bagagens, dá-me um facalhão para a mão a dizer: ‘Tu vais agora viajar com isto até ao final?’”, recordou. Apesar de ter explicado que nunca a usaria, Manuel acabou por aceitar o presente, pensado para o proteger de animais ou de pessoas mal-intencionadas.
“Se voltasse para Portugal hoje, se tivesse de ficar com esta viagem a meio, voltava de coração cheio”, garantiu.
Quando regressar a Lisboa, Manuel quer perceber de que forma esta experiência o transformou. E já admite uma próxima aventura, desta vez mais perto de casa: atravessar Portugal de norte a sul à boleia.

















