O senador Flávio Bolsonaro admitiu esta terça-feira ter visitado o banqueiro Daniel Vorcaro após a primeira prisão do empresário, num desdobramento que já se transformou numa das maiores crises políticas recentes do bolsonarismo. A revelação ocorre no momento em que novas reportagens expõem ligações financeiras e políticas entre aliados da família Bolsonaro, fundos internacionais e o financiamento milionário do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O impacto eleitoral da crise já é mensurável. De acordo com a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada esta terça-feira, Flávio Bolsonaro caiu seis pontos percentuais num eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, registando 41,8% contra 48,9% do petista. No primeiro turno, o senador recuou para 34,3%, enquanto Lula lidera com 47%. O levantamento, realizado após o vazamento dos áudios com Vorcaro, revelou ainda que a rejeição ao senador subiu para 52%, superando a do atual presidente, e que 45,1% dos entrevistados avaliam que o episódio enfraqueceu fortemente a sua pré-candidatura ao Planalto.
Segundo o próprio Flávio, o encontro com o banqueiro aconteceu em São Paulo e teria servido para “encerrar” questões relacionadas com o projeto cinematográfico. A declaração foi feita após a divulgação de informações que apontam Vorcaro como o principal articulador financeiro do longa. A admissão acabou por aumentar a pressão política sobre o senador, pois desidrata as tentativas iniciais de aliados de minimizar a proximidade entre ambos — antes de os diálogos virem a público, o parlamentar havia dito que o envolvimento do banqueiro era "mentira".
De acordo com reportagens do portal UOL e do Estadão, a produtora Karina Ferreira da Gama, responsável pela GoUp Entertainment, confirmou que Daniel Vorcaro intermediou e viabilizou mais de 90% dos recursos da produção de “Dark Horse”. O custo estimado do filme ultrapassa os 65,7 milhões de reais (cerca de 10,6 milhões de euros na cotação atual). O projeto foi desenhado para retratar Jair Bolsonaro como um líder perseguido politicamente e injustiçado pelo sistema brasileiro, trazendo no trailer referências ao atentado à faca sofrido em 2018.
O caso ganhou dimensão nacional porque transcendeu o investimento privado no sector audiovisual. O filme passou a ser interpretado por adversários como uma peça de propaganda ideológica construída a partir de relações íntimas entre o núcleo bolsonarista e o ex-controlador do Banco Master — instituição que sofreu liquidação pelo Banco Central logo após a primeira prisão do banqueiro por fraudes financeiras. A Polícia Federal agora apura se o dinheiro solicitado por Flávio em áudios interceptados teria bancado despesas do deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As críticas da oposição também miram o que classificam como contradição ideológica. Durante anos, sectores bolsonaristas criticaram duramente leis de incentivo à cultura e o financiamento de produções alinhadas à esquerda. Agora, o movimento enfrenta questionamentos sobre uma megaprodução cinematográfica financiada majoritariamente por um único empresário do sector financeiro. Para os adversários, o episódio enfraquece o discurso anti-sistema do grupo ao expor conexões com banqueiros e fundos internacionais.
Outro ponto que ampliou o desgaste foi a revelação, feita pela Folha de S.Paulo, de que deputados do PL vão viajar aos Estados Unidos para reuniões com Eduardo Bolsonaro no Texas. Os encontros coincidem com a explosão do escândalo e aumentam as especulações sobre uma tentativa de reorganização estratégica do movimento no exterior. As investigações apontam que parte dos recursos do filme foi transferida para o Havengate Development Fund LP, um fundo sediado em solo americano e controlado por aliados do deputado.
Aliados de Bolsonaro argumentam que não há qualquer ilegalidade no patrocínio privado do filme e acusam sectores da imprensa e da oposição de tentarem criminalizar relações políticas legítimas. Embora não exista nenhuma decisão judicial definitiva, o estrago político é evidente. O episódio recoloca o grupo no centro do debate sobre transparência e influência económica justamente no momento em que o bolsonarismo tenta reorganizar as suas bases para as eleições de 2026.

















