A recente epopeia da seleção cabo-verdiana no Mundial de futebol, onde surpreendemente chegou aos dezasseis-avos, onde apenas foi suplantada pela Argentina, campeã mundial em título, fez os holofotes da imprensa mundial incidirem sobre um arquipélago que, em 2024, o New York Times (NYT) já tinha ‘descoberto’ ter sido responsável pela verdadeira transformação intelectual de Charles Darwin não começou nas ilhas Galápagos, como habitualmente se acredita, mas sim em Santiago, em Cabo Verde, primeira escala da viagem do HMS Beagle, em janeiro de 1832.
Segundo o longo texto, assinado por Ben Crair, publicado em Janeiro de há dois anos pelo NYT, quando chegou à ilha de Santiago, onde hoje se situa a capital desta antiga colónia portuguesa, Darwin tinha apenas 22 anos, pouca experiência científica e nunca tinha saído da Europa. Depois de semanas de intenso enjoo durante a travessia do Atlântico, desembarcou fascinado pela paisagem tropical, pelas plantas, pelos frutos, pelas aves e pelos insetos desconhecidos.

Segundo os biógrafos de Darwin, foi precisamente em Cabo Verde que o naturalista tomou consciência das suas capacidades como cientista e começou a desenvolver a ambição de contribuir para a história natural. Durante o ano de 2023, Crair viajou até Santiago para seguir os passos de Darwin quase dois séculos depois.
Num longo texto, o jornalista escreve uma ilha onde convivem as influências portuguesa e africana, tanto na arquitetura como na gastronomia e na música. Embora os turistas procurem sobretudo as ilhas do Sal e da Boa Vista, Santiago concentra a maior parte da população cabo-verdiana e preserva um património histórico particularmente rico. Na cidade da Praia, Crair percorre o centro histórico, visita o porto onde atracou o Beagle e segue de barco até ao ilhéu de Santa Maria, onde Darwin realizou algumas das suas primeiras observações científicas sobre polvos capazes de alterar a cor da pele e outros organismos marinhos.
A descoberta da geologia
O artigo sustenta que o verdadeiro fascínio científico de Darwin em Santiago não foram os animais, mas sim a geologia. Acompanhado pelo geólogo cabo-verdiano Jair Rodrigues, o jornalista visitou as formações rochosas que impressionaram Darwin. Foi ali que o jovem naturalista confirmou, através da observação das camadas de basalto e calcário, as teorias geológicas de Charles Lyell, que defendiam que a Terra era moldada por processos lentos e graduais, e não por acontecimentos catastróficos.

Esta forma de interpretar a evolução da paisagem acabaria por influenciar profundamente o pensamento de Darwin e seria mais tarde decisiva para a formulação da teoria da evolução das espécies por seleção natural.
A viagem prosseguiu então até à Cidade Velha, primeiro povoado europeu nos trópicos e hoje Património Mundial da UNESCO, ocasião para recordar o papel central da ilha no comércio transatlântico de escravos, ao mesmo tempo que é referida a presença portuguesa desde o século XV e descrição monumentos como o pelourinho, a antiga catedral e a histórica Rua Banana. Embora Darwin apenas mencione brevemente a escravatura nos seus diários de Santiago, Crair recorda que as experiências posteriores na América do Sul reforçaram a sua profunda oposição à instituição esclavagista.
O emblemático baobá
Outro dos locais visitados é o célebre baobá observado por Darwin em 1832. A árvore continua de pé e permanece um símbolo da ilha. O artigo refere que Darwin ficou impressionado com as suas dimensões e utilizou as medições realizadas para ilustrar como a realidade observada nem sempre corresponde à perceção visual. O percurso de Crair levou-o ainda à região de São Domingos, onde Darwin descreveu o contraste entre a vegetação luxuriante dos vales e a aridez vulcânica da restante ilha. Foi também aí que assistiu a mulheres cabo-verdianas a cantar e dançar batuque, manifestação cultural tradicional que ainda hoje faz parte da identidade nacional.

Apesar da importância histórica da visita, o artigo sublinha que muitos cabo-verdianos conhecem pouco a passagem de Darwin pela ilha. Nos últimos anos, contudo, empresários e investigadores locais têm procurado valorizar esse património através da criação da "Darwin Way", um percurso turístico que assinala os principais locais visitados pelo naturalista e pretende posicionar Santiago como destino de turismo científico, histórico e cultural. Entre os projetos em desenvolvimento encontram-se painéis interpretativos, recriações gastronómicas inspiradas nos diários de Darwin e iniciativas destinadas a divulgar a importância da ilha na formação daquele que viria a ser um dos maiores cientistas da História.
O artigo de Crair conclui que, embora as ilhas Galápagos tenham ficado para sempre associadas à teoria da evolução, foi em Cabo Verde que Darwin deu os primeiros passos como verdadeiro investigador. A ilha de Santiago revelou-lhe uma nova forma de observar a natureza e ajudou a moldar o método científico que, anos mais tarde, revolucionaria a biologia. Ben Crair termina recordando que, mesmo décadas depois, Darwin continuava a evocar com enorme nitidez as paisagens vulcânicas, os recifes e a luz intensa da ilha onde começou a sua transformação intelectual.

















