Terá sido o voluntarismo de Sebastião Bugalho a precipitar um dos momentos mais embaraçosos do executivo na crise dos exames nacionais. Este sábado, o recém-nomeado porta-voz do PSD anunciou em conferência de imprensa, na sede do partido, que o Governo ia pagar horas extraordinárias aos professores classificadores que estão a corrigir provas ao fim de semana. Pouco depois, o Ministério da Educação emitiu um comunicado oficial a confirmar a medida, apresentando-a como reconhecimento pelo esforço dos docentes.

O resultado é um duplo embaraço. Primeiro, porque o pagamento de trabalho suplementar em dias de descanso não é uma decisão política: é uma obrigação prevista no artigo 162.º da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, que garante aos trabalhadores um acréscimo de 50% por cada hora nas primeiras 100 horas anuais e de 100% acima desse limite, além de descanso compensatório remunerado. O Governo anunciou como bónus aquilo que resulta do mero cumprimento da lei. Segundo, porque a sequência dos acontecimentos sugere que foi o anúncio de Bugalho, aparentemente feito sem coordenação com a tutela, que forçou o Ministério a emitir às pressas um comunicado para enquadrar como decisão governamental algo que o porta-voz do PSD já tinha tornado público.

A decisão surge no meio de uma crise organizacional sem precedentes na classificação dos exames nacionais de 2026. A nova plataforma digital de correção ficou marcada por falhas persistentes, com professores a denunciar provas incompletas, páginas em falta, itens que desapareciam do sistema e períodos de indisponibilidade para manutenção. Sindicatos e movimentos de professores exigiram o apuramento de responsabilidades.

Os constrangimentos obrigaram o Ministério da Educação a prolongar a classificação até terça-feira, dia 14, e a adiar a divulgação das notas da primeira fase para sexta-feira, dia 17. A segunda fase também foi alterada, passando a arrancar a 20 de julho, com as provas agendadas entre os dias 21 e 24.

O Eduqa negou as denúncias do movimento Missão Escola Pública de que os professores estariam a ser instruídos para classificar respostas incompletas, e criou um sistema de reporte de desconformidades. Filinto Lima, diretor de um agrupamento de escolas, alertou para a sobrecarga dos classificadores, lembrando que muitos chegam ao período de correção após um ano letivo completo.

Bugalho admitiu que o modelo concreto de pagamento ainda está a ser definido. Na quinta-feira, Fernando Alexandre garantiu que mais de 75% das provas já estavam corrigidas.
Esta nova “desarticulação” entre a comunicação do porta-voz do PSD e o universo social-democrata, entendido aqui como o próprio partido, o grupo parlamentar e o Governo de Luís Montenegro, sucede a outro recente episódio. Esta semana soube-se que o PSD não prevê chamar José Luís Carneiro nem outros ex-ministros dos governos socialistas no âmbito das audições parlamentares que pretende promover sobre o aumento da população imigrante revelado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), apesar de o porta-voz do partido, Sebastião Bugalho, ter afirmado que seria “natural” ouvir o atual secretário-geral do PS e que não seria chamado “só um” antigo governante.