Enquanto os chefes de Estado e de Governo da União Europeia ocupam o centro das atenções nas cimeiras de Bruxelas, existe um português que trabalha nos bastidores para que esses encontros terminem com decisões concretas. Chama-se Pedro Lourtie, tem 55 anos, é chefe de gabinete do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e tornou-se uma das figuras mais influentes, e simultaneamente mais discretas, da arquitetura política europeia.

Um extenso perfil publicado este fim-de-semana pelo Político, uma conceituada publicação que aborda temas da política norte-americana e internacional, descreve-o como o verdadeiro “dealmaker” da União Europeia , o homem responsável por construir pontes entre interesses nacionais frequentemente divergentes e por preparar, ao detalhe, os compromissos políticos que acabam por ser formalizados pelos líderes europeus.

Nas semanas que antecedem cada Conselho Europeu, Lourtie coordena centenas de contactos diplomáticos, promove dezenas de reuniões e ausculta permanentemente as 27 capitais, procurando identificar linhas vermelhas e pontos de convergência antes de os líderes se sentarem à mesa.

O trabalho é tanto mais complexo quanto a União atravessa um dos períodos mais exigentes da sua história recente. A guerra na Ucrânia, a crescente rivalidade económica com a China, a pressão migratória, as negociações comerciais e a preparação do novo orçamento plurianual obrigam Bruxelas a encontrar consensos cada vez mais difíceis entre governos com sensibilidades políticas muito distintas.

Uma 'peça-chave' no diálogo com Moscovo

Foi precisamente nesse contexto que o nome de Pedro Lourtie saiu do anonimato diplomático. Nas últimas semanas tornou-se conhecido que, por indicação de António Costa, estabeleceu dois contactos telefónicos com Yuri Ushakov, principal conselheiro internacional de Vladimir Putin. O Conselho Europeu esclareceu que as conversas não tiveram conteúdo negocial e destinaram-se apenas a criar um eventual canal de comunicação com Moscovo para utilização futura. Ainda assim, a iniciativa suscitou reservas em algumas capitais europeias, que consideraram insuficiente a informação previamente partilhada sobre esses contactos.

Apesar da polémica, o episódio acabou por evidenciar o peso político que Lourtie adquiriu em Bruxelas. Diplomatas ouvidos pelo Político sublinham que a reação foi significativamente moderada porque existe uma confiança generalizada na independência e no profissionalismo do diplomata português, visto como alguém exclusivamente orientado pela defesa dos interesses da União Europeia.

Natural de Lisboa, Pedro Lourtie construiu praticamente toda a sua carreira na diplomacia europeia. Foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus, representante permanente de Portugal junto da União Europeia e conselheiro de vários primeiros-ministros portugueses. Esse percurso conferiu-lhe um conhecimento profundo do funcionamento simultâneo das instituições europeias e das prioridades políticas das capitais nacionais.

Outro dos aspetos destacados pelo Político é a estreita relação que mantém com Bjoern Seibert, o poderoso chefe de gabinete da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Os dois responsáveis falam diariamente, coordenam estratégias e procuram evitar os conflitos institucionais que marcaram a relação entre Charles Michel e a Comissão Europeia durante o anterior mandato.

O maior desafio aproxima-se agora. Até ao final do ano, António Costa pretende fechar um acordo sobre o próximo orçamento plurianual da União Europeia, no valor de cerca de 1,8 biliões de euros. Será provavelmente a negociação mais complexa do seu mandato e também o maior teste à capacidade de Pedro Lourtie para continuar a desempenhar o papel que lhe valeu o reconhecimento de Bruxelas: o de negociador silencioso que, longe das câmaras, ajuda a manter unida uma Europa cada vez mais fragmentada.