Os Estados Unidos anunciaram a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos provenientes do Brasil, medida que entra em vigor na quarta-feira, dia 22. Apesar disso, bens como café, carne bovina, petróleo, gás natural, aeronaves e celulose ficaram excluídos da decisão.

A medida resulta de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), ao abrigo de uma lei comercial de 1974, que permite ao governo norte-americano atuar quando considera existirem práticas comerciais consideradas prejudiciais aos seus interesses.

Em reação, o governo brasileiro garantiu que vai dar início "imediatamente" aos procedimentos previstos na lei da reciprocidade para responder às novas tarifas, responsabilizando ainda a família do ex-presidente Jair Bolsonaro, de 71 anos, pelo agravamento das relações comerciais entre os dois países.

A investigação norte-americana, iniciada em 2025 e concluída ao fim de um ano, analisou temas como o combate à corrupção, a proteção da propriedade intelectual, o impacto da desflorestação ilegal e alegadas barreiras ao comércio digital.

Washington criticou também decisões da justiça brasileira relacionadas com plataformas digitais, considerando que ordens para remover determinados conteúdos políticos e a aplicação de multas às redes sociais constituem "barreiras comerciais desleais".

Outro dos argumentos apresentados pelos EUA prende-se com alegadas vantagens tarifárias concedidas pelo Brasil a produtos oriundos de países como o México e a Índia, em prejuízo dos exportadores norte-americanos, situação que, segundo Washington, cria "uma desvantagem incompatível com as obrigações internacionais".

O tema ganhou igualmente dimensão política no Brasil, numa altura em que o país se prepara para as eleições presidenciais em outubro. Luiz Inácio Lula da Silva (80) acusou Flávio Bolsonaro (45), filho do antigo chefe de Estado, de ter pedido às autoridades norte-americanas o adiamento da entrada em vigor das tarifas para depois do ato eleitoral.

Flávio Bolsonaro esteve em Washington no início de julho para participar numa audiência pública promovida pelo USTR, onde defendeu que a imposição de novas tarifas acabaria por favorecer a campanha de reeleição de Lula.

Segundo o governo norte-americano, ficaram de fora da nova lista produtos que não são produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos ou cuja tributação poderia afetar cadeias de abastecimento essenciais, como acontece com o café, as laranjas, alguns produtos energéticos e componentes da indústria aeronáutica.

A investigação contou com consultas ao governo brasileiro, duas audiências públicas e a análise de mais de 360 contributos escritos, além do depoimento de 77 testemunhas.

De acordo com o USTR, a conclusão foi de que várias políticas adotadas pelo Brasil são "irrazoáveis" e restringem o comércio norte-americano. Entre os aspetos apontados estão o sistema de pagamentos PIX, o comércio digital, o acesso ao mercado do etanol, regras de propriedade intelectual, política anticorrupção e a desflorestação ilegal.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que as novas tarifas procuram defender os interesses económicos norte-americanos perante práticas consideradas desleais, embora tenha garantido que Washington continua disponível para manter o diálogo com Brasília.