António Guterres, de 77 anos, apelou ao fim imediato dos confrontos no norte da Etiópia e alertou para o perigo de a tensão entre Adis Abeba e Asmara alastrar a outros países do Corno de África. O secretário-geral das Nações Unidas manifestou preocupação com a possibilidade de uma escalada militar, nomeadamente perante relatos da presença de tropas eritreias em território etíope.

A posição foi transmitida pelo porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric (61), num comunicado divulgado em Adis Abeba. Guterres pediu às partes envolvidas que interrompam as hostilidades e retomem o diálogo com base no Acordo de Pretória, que pôs termo à guerra no Tigrai, entre 2020 e 2022. O conflito provocou cerca de 600 mil mortos.

O responsável das Nações Unidas lembrou ainda que os países da região devem respeitar a soberania e a integridade territorial dos Estados, evitando ameaças, recurso à força ou interferências nos assuntos internos de outros países. Apelou também aos governos com influência sobre os intervenientes para que contribuam para reduzir a tensão e não tomem medidas que possam agravar os confrontos.

Etiópia e Eritreia trocam acusações

As relações entre a Etiópia e a Eritreia deterioraram-se nos últimos dias. Na sexta-feira, dia 9, o Governo eritreu rejeitou as acusações de agressão feitas pelo país vizinho e acusou Adis Abeba de preparar uma guerra contra Asmara.

Por sua vez, o ministro dos Negócios Estrangeiros etíope, Gedion Timothewos, exigiu na quinta-feira, 8, a saída imediata das forças eritreias do Tigrai. A Etiópia acusa ainda a Eritreia de apoiar a Frente Popular de Libertação do Tigrai (FPLT) e de financiar outros grupos armados no país. As autoridades eritreias negam estas acusações.

A denúncia da presença de militares eritreus na região foi igualmente feita pelas Forças de Paz do Tigrai, uma milícia composta por dissidentes da FPLT que se aliou ao exército etíope.

A escalada de tensão surge depois de os dois países terem cortado relações a 1 de outubro. Entre os fatores que alimentam a disputa estão as ambições da Etiópia de recuperar o acesso ao mar Vermelho, bem como as acusações de apoio a grupos rebeldes.

O cenário é ainda mais complexo devido à criação de uma aliança que reúne sete grupos da oposição e movimentos rebeldes, incluindo a FPLT, com o objetivo de derrubar o Governo etíope.

A evolução dos acontecimentos está a fazer aumentar os receios de uma nova guerra semelhante à de 2020-2022, quando a Eritreia apoiou o exército etíope no combate à FPLT.