O antigo ministro e comentador político Miguel Relvas considera que o chumbo da reforma laboral, ocorrido ontem, expõe não apenas as fragilidades do governo, mas também a incapacidade do sistema político português para construir consensos em torno de mudanças estruturais consideradas essenciais para o futuro do país: “Existe uma clara falta de rumo, o país não se compadece com esta navegação à vista, sem que consigamos descortinar uma estratégia e um caminho a seguir”, afirmou, ao mesmo tempo que admite que uma das soluções para o impasse que o país está a viver poderá passar por eleições no sentido de “clarificar e tentar dar condições ao governo para fazer aprovar as reformas que considera essenciais”

No que se refere ao ‘chumbo’ do pacote laboral, Relvas, em declarações ao 24Horas, defende que o governo tem de esclarecer o que falhou verdadeiramente nas negociações que antecederam a votação. Para o antigo ministro de Passos Coelho, o executivo tem a obrigação de explicar aos portugueses quais foram os pontos de divergência que impediram um acordo: “É o mínimo que se pode esperar de um governo que pretenda manter uma relação de confiança com os portugueses”, afirma.

O antigo ministro aponta ainda críticas à condução política do processo, considerando que a reforma laboral foi marcada também por “uma comunicação deficiente e por uma negociação que transmitiu uma imagem de improvisação e falta de preparação”, afirma. E vai mais longe: “A intervenção do Presidente da República acabou por reforçar o peso político da UGT, e contribuiu, também ela, para travar uma reforma que o próprio executivo elegeu como necessária”,

Para Miguel Relvas, Luís Montenegro “tem de saber lidar com os revezes da vida e da política (...) e mostrar que não se amedronta com sondagens”

Mas o antigo dirigente social-democrata não poupa igualmente PS e Chega, a quem acusa de terem contribuído para o bloqueio da reforma, ainda que, na sua opinião, por razões distintas: “Enquanto os socialistas revelaram resistência às mudanças destinadas a aumentar a competitividade da economia, o Chega esteve excessivamente condicionado por cálculos eleitorais de curto prazo”, afirma, numa clara alusão à coincidência que existiu entre o ‘volte-face’ do partido de André Ventura e a divulgação de uma sondagem, horas antes, que colocava o Chega à frente da Aliança Democrática.

“Não se pode ter medo de eleições”

Para Relvas, o resultado de todo este processo demonstra um país marcado por adiamentos e hesitações. “Quando a tática passa a dominar a estratégia, a governação deixa de ser um exercício de liderança para se transformar numa gestão de sobrevivência”, afirma, concluindo que Portugal carece hoje de uma liderança capaz de definir prioridades, assumir custos políticos e traçar um rumo claro para o futuro.

Na opinião de Relvas, é indispensável ter “cabeça fria nestes momentos”. E adianta: “Temos de saber lidar com os revezes que a vida e a política têm, como também temos de mostrar que não nos amedrontamos, que não são as sondagens, que nos condicionam e amedrontam”. E num claro ‘recado’ enviado a Luís Montenegro, o atual comentador político da CNN, afirma: “Se for preciso ir para eleições, e parece-me ser essa a vontade das oposições, e até para garantir uma maioria clara que permita ao PSD fazer as reformas que o País, mais do que precisa, exige, não se pode mostrar tibieza ou receio, não se pode virar costas.  Sá Carneiro, Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho nunca o mostraram, porque o que hoje está em causa, desenganem-se os que pensam o contrário, tal como algumas vezes esteve no passado, não são os homens ou o partido, é apenas e só o nosso país e o seu futuro”, rematou.