A história repete-se, mas desta vez com uma ironia que a FIFA não consegue proibir. No sábado, dia 27, em Kansas City, a Argélia e a Áustria defrontam-se na última jornada do Grupo J do Mundial num jogo em que, paradoxalmente, ambas as seleções podem ter mais a ganhar com uma derrota do que com uma vitória…
O segundo classificado do Grupo J deverá enfrentar a Espanha, uma das grandes favoritas ao título, logo nos 16 avos de final. O terceiro classificado, por sua vez, terá em teoria um adversário consideravelmente menos exigente nessa fase. É esta equação que transforma o duelo em Kansas City num exercício de cálculo estratégico e de memória histórica incómoda.
Argentina e Argélia chegam à jornada decisiva com três pontos cada. A Argentina já está apurada com seis pontos. A Áustria mantém o segundo lugar pela diferença de golos, enquanto a Argélia venceu a Jordânia por 2-1 e entrou na luta directa pelo apuramento. Com a Jordânia já eliminada, está definido que a Áustria e a Argélia decidirão entre si quem termina em segundo e em terceiro lugar.
Para a Áustria, a situação é particularmente curiosa: a equipa de Ralf Rangnick ocupa o segundo lugar pelo saldo de golos e precisará perder para garantir que termine atrás da Argélia e cair para a terceira posição. A probabilidade de a Áustria terminar em terceiro lugar é de 27,7%, com 25,2% de hipóteses de se classificar entre os melhores terceiros nesse cenário. Para a Argélia, os números são mais favoráveis: as estimativas apontam para 55,2% de hipóteses de classificação como melhor terceiro, caso ocupe essa posição.
A vantagem de que ambas dispõem é assinalável. O jogo disputa-se após a conclusão de todas as outras partidas dos grupos, o que significa que os treinadores saberão exatamente quantos pontos e que diferença de golos precisam para se qualificarem entre os melhores terceiros.
A FIFA criou, sem querer, as condições perfeitas para uma repetição , desta vez legal e matematicamente justificada , do episódio mais embaraçoso da história do futebol internacional.
Porque foi exactamente neste cruzamento entre Argélia e Áustria que nasceu o escândalo que mudou o regulamento dos Mundiais. A 25 de junho de 1982, no Estádio El Molinón, em Gijón, a Alemanha, à época RFA ou Alemanha Ocidental, venceu a Áustria por 1-0. O resultado classificou as duas seleções e eliminou a Argélia. O resultado , até então normal, não foi o problema: a forma como foi construído e mantido foi o que levantou suspeitas. A Alemanha precisava de uma vitória simples para se classificar, e a Áustria podia perder e ainda avançar. Aos dez minutos, Horst Hrubesch marcou o único golo. Dali em diante, a bola circulou
despretensiosamente pelas defesas, sem pressão nem intensidade, com as equipas a recuarem o esférico sucessivamente para os guarda-redes.
O resultado de 1-0 era perfeito para ambos. O que era esperado como um duelo tenso e decisivo transformou-se num pacto tácito de não-agressão (em alemão, o episódio ganhou o nome de Nichtangriffspakt von Gijón, a “Vergonha de Gijón””).As bancadas vaiavam as duas equipas; os adeptos argelinos mostravam dinheiro em alusão a um resultado combinado. Um adepto alemão chegou a queimar a bandeira do próprio país em protesto.
A Argélia apresentou uma queixa à FIFA, sem qualquer resposta. O episódio serviu, porém, para a organização adoptar a norma de jogos simultâneos na última jornada da fase de grupos, a partir do Mundial de 1986. Quarenta e quatro anos depois, essa regra está em vigor e não muda absolutamente nada.
Em Kansas City, Argélia e Áustria jogam à mesma hora que Argentina e Jordânia. Mas desta vez ninguém precisa de combinar nada. A matemática faz o trabalho sozinha.

















