Uma estrutura criada para gerar interações artificiais nas redes sociais voltou a colocar em discussão um problema que pode ganhar importância durante períodos eleitorais: as chamadas 'fazendas de cliques' ou de 'bots'.
O caso foi identificado na Bolívia, onde a polícia encontrou uma pequena estrutura deste tipo num endereço ligado ao argentino Fernando Cerimedo, consultor de marketing político conhecido pela atuação junto de figuras da direita latino-americana.
Cerimedo foi detido na Bolívia num processo relacionado com uma acusação de tentativa de feminicídio, que nega. A descoberta da estrutura, por si só, não prova que ela tenha sido utilizada para interferir em eleições.
Mas afinal, o que é uma quinta de bots? É uma operação que utiliza várias contas, telemóveis ou computadores para realizar ações coordenadas nas redes sociais. Essas contas podem fazer gostos, comentários, partilhas e seguir perfis de forma automática ou organizada.
O objetivo pode ser aumentar artificialmente a popularidade de determinado conteúdo. Uma publicação que recebe milhares de interações num curto espaço de tempo pode ganhar maior visibilidade e chegar a mais utilizadores.
Durante uma campanha eleitoral, esse mecanismo pode ser utilizado para promover uma candidatura, defender uma determinada ideia ou atacar adversários. A operação também pode tentar criar a impressão de que um assunto está a mobilizar uma grande quantidade de pessoas.
O efeito é importante porque as redes sociais utilizam sinais como visualizações, comentários, partilhas e outras interações para determinar quais conteúdos terão maior exposição. Uma grande quantidade de atividade artificial pode, portanto, ajudar a impulsionar uma mensagem.
Após ganhar visibilidade, o conteúdo pode começar a ser partilhado por utilizadores reais. Nesse momento, torna-se mais difícil perceber até que ponto a popularidade inicial foi espontânea ou provocada artificialmente.
O fenómeno não é novo. Redes deste tipo já foram identificadas em diferentes países e utilizadas para influenciar discussões políticas e sociais. As principais plataformas digitais desenvolveram mecanismos para tentar identificar e remover operações coordenadas consideradas inautênticas.
O assunto também interessa ao Brasil, sobretudo porque 2026 é ano de eleições gerais. Uma eventual operação organizada poderia ser utilizada para aumentar artificialmente o alcance de mensagens políticas ou criar uma falsa percepção sobre o apoio a determinado candidato ou discurso.
A ligação de Cerimedo ao Brasil também ajuda a explicar a repercussão do caso. O argentino tornou-se conhecido no país depois das eleições de 2022, quando participou numa transmissão na internet na qual questionou, sem apresentar provas, o resultado das eleições presidenciais.
Isso não significa que a descoberta da estrutura na Bolívia prove qualquer interferência nas eleições brasileiras. Também não há, neste caso, comprovação de que a estrutura tenha sido utilizada para manipular uma eleição.
O alerta é sobre o funcionamento das redes sociais: uma grande quantidade de interações não significa necessariamente que exista uma grande quantidade de pessoas reais por trás delas.
Em ano eleitoral, distinguir mobilização espontânea de atividade artificial pode ser fundamental para evitar que contas falsas consigam transformar uma mensagem fabricada numa aparente tendência de opinião pública.

















