O recente caso de tortura nas esquadras do Rato e do Bairro Alto, em Lisboa, foi denunciado por fonte interna da PSP. O agente que desvendou os abusos começou a investigar, em 2024, por conta própria, após lhe chegarem rumores sobre um grupo de agentes que roubava e agredia toxicodependentes, sem-abrigo ou imigrantes indocumentados.

O caso ganhou forma no início do ano seguinte, como avança o Expresso, que contactou fontes próximas do processo. O agente desconfiou que um caso de agressões numa zona de diversão noturna em Lisboa tivesse colegas de profissão envolvidos. Após ver as imagens de videovigilância do local, estava confirmado que agentes da PSP tinham usado força indiscriminada sobre uma pessoa. Embora não estivessem fardados, pelo menos um terá sido reconhecido.

A prova em vídeo foi "a peça do puzzle que faltava à investigação para avançar com uma operação a alegados abusos policiais cometidos sobre civis". Foi então que denunciou o caso aos superiores hierárquicos, que confirmaram que um dos homens nas imagens integrava a força de segurança.

Ministério Público também suspeitava de abusos

Pela mesma altura, já tinham chegado ao Ministério Público (MP) suspeitas de violência gratuita por agentes da PSP. Uma mulher tinha enviado uma carta ao Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, em que relatava atos de violência de que terá sido alvo. Após ser detida pela PSP, a mulher alega que foi espancada na esquadra do Rato e algemada como se estivesse crucificada. Acabou por ser internada no hospital, devido aos ferimentos.

A operação do DIAP de Lisboa e da própria PSP permitiu encontrar vídeos incriminatórios de agressões a civis nos telemóveis dos agentes suspeitos, entre eles a mulher que escrevera a carta ao MP. Cerca de um ano depois das agressões, em julho de 2025, os agentes Guilherme Leme e Óscar Borges foram detidos. Em janeiro deste ano, foram acusados de mais de 30 crimes de abuso de poder, tortura e violação.

Essa constituiu a primeira detenção da operação. Desde então, novas diligências resultaram na detenção de mais sete agentes, em março, e de mais 15, na semana passada. Há, até ao momento, 24 agentes da PSP envolvidos, entre eles dois chefes. Esta segunda-feira, 11, no entanto, a juíza de instrução libertou oito dos últimos detidos, enquanto quatro ficaram em prisão preventiva até se reunirem as condições para cumprir prisão domiciliária. Dois agentes foram suspensos de funções.

Neste momento, há pelo menos cinco vídeos que mostram as agressões e que constituem as "provas mais fortes de que o MP dispõe": "Trata-se de imagens fortíssimas e muito explícitas. Impressionam qualquer pessoa que as veja pela extrema violência cometida pelos autores e pelo sofrimento das vítimas", avançou fonte policial ao Expresso.