Desde o início, o processo foi marcado por uma reviravolta ética que colocou em xeque a imparcialidade das apurações. A primeira magistrada, inicialmente designada para o caso declarou-se suspeita para atuar após reconhecer uma relação de proximidade com familiares de um dos adolescentes investigados — mas essa suspeição só ocorreu após o caso ganhar contornos de repercussão nacional e forte clamor público. Por pertencerem ao mesmo círculo institucional do Tribunal de Justiça catarinense, a sua colega de magistratura, juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, assumiu a tramitação e validou o arquivamento definitivo, alimentando críticas sobre eventual proteção de grupos socialmente influentes.

Desde o início, o processo foi marcado por uma reviravolta ética que colocou em xeque a imparcialidade das apurações. A primeira magistrada inicialmente designada para o caso declarou-se suspeita para atuar após reconhecer uma relação de proximidade com familiares de um dos adolescentes investigados — mas essa suspeição só ocorreu após o caso ganhar contornos de repercussão nacional e forte clamor público. Por pertencerem ao mesmo círculo institucional do Tribunal de Justiça catarinense, a sua colega de magistratura, juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, assumiu a tramitação e validou o arquivamento definitivo, alimentando críticas sobre eventual protecção de grupos socialmente influentes.

O recuo na responsabilização dos envolvidos choca-se directamente com o rigor demonstrado pela Polícia Civil no encerramento do inquérito original. Nos primeiros meses da investigação, as autoridades policiais sustentavam fortes indícios de violência extrema e maus-tratos qualificados, baseados em relatos de testemunhas e no clamor da comunidade. No entanto, o Ministério Público enfraqueceu a tese policial ao basear o seu parecer num relatório técnico focado em divergências cronológicas das câmaras de monitorização e na ausência de lesões internas apontadas na exumação tardia do animal.

Outro factor crítico que aumentou a percepção pública de desigualdade no processo é o perfil socioeconómico dos investigados. Os adolescentes envolvidos pertencem a famílias empresariais altamente influentes no estado. Durante o curso das investigações, o caso passou a ser acompanhado com ainda mais atenção após familiares serem investigados por suspeita de coação de testemunhas e ameaças contra pessoas ligadas ao processo, incluindo o vigilante do condomínio responsável por guardar imagens consideradas relevantes para a investigação.

Diante de um cenário em que o sigilo processual foi mantido e os pedidos iniciais de internação provisória feitos pela polícia foram negados, a opinião pública e activistas da causa animal passaram a questionar se o desfecho técnico e o arquivamento teriam sido os mesmos caso os investigados fossem jovens oriundos de classes populares da periferia.

Para activistas e parte significativa da população, o arquivamento reforçou a sensação de impunidade num caso que mobilizou o país inteiro. A Justiça sustenta que a decisão foi estritamente técnica. O Ministério Público afirma que não havia elementos suficientes para sustentar responsabilizações criminais. Ainda assim, o Caso Orelha termina deixando uma pergunta que continua ecoando nas ruas e nas redes sociais: se os envolvidos não fossem filhos de famílias influentes de Santa Catarina, o processo teria chegado ao mesmo desfecho?