A gestão do presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Ricardo Nunes, determinou a expulsão de lares de idosos – as chamadas casas de repouso – da Lapa, um dos bairros mais nobres e tradicionais da Zona Oeste da cidade.
A medida surge na sequência de uma intensa e agressiva pressão por parte de associações de moradores locais. No entanto, o conflito no bairro escalou e transformou-se numa guerra aberta, com relatos de intimidação diária, assédio moral e violência psicológica contra os idosos e os profissionais das instituições.
De acordo com denúncias e testemunhos recolhidos no local, alguns residentes do bairro têm recorrido a táticas extremas para forçar o encerramento dos lares. Entre as ações relatadas, destaca-se a colocação de colunas com som alto viradas diretamente para as janelas dos quartos dos idosos com o volume no máximo – uma estratégia para quebrar o sossego dos utentes, muitos deles debilitados, acamados ou a recuperar de problemas graves de saúde.
A hostilidade repete-se nas ruas. Moradores têm sido vistos a filmar e a fotografar, de forma ostensiva, a movimentação de ambulâncias e até a saída de carros funerários das instituições, utilizando as imagens da dor alheia para expor as casas de repouso e pressionar as autoridades nas redes sociais.
Este ambiente de permanente provocação já resultou em insultos, discussões acesas e até confrontos físicos. Familiares de utentes, cuidadores e ativistas que se mobilizam para defender a permanência e os direitos dos idosos são frequentemente recebidos com agressividade por parte dos vizinhos que exigem a desocupação imediata dos imóveis.
"É de uma desumanidade sem precedentes. Filmam os momentos de luto, insultam quem aqui trabalha e tentam tornar a vida destes idosos num inferno na terra só para os ver fora daqui", relatou uma funcionária de uma das instituições afetadas, sob anonimato.
Por trás dos argumentos inicialmente apresentados sobre o plano diretor e o zoneamento urbano da cidade, emergem agora motivações financeiras. Em reuniões e discussões diretas com quem defende os idosos, os moradores contrários à permanência dos lares não escondem o principal receio: A desvalorização dos seus patrimónios. A alegação repetida pelos manifestantes é de que "ninguém quer idosos ali" e que a vizinhança com estas estruturas de acolhimento faz cair drasticamente o valor de mercado das casas e terrenos da Lapa.
O despacho da autarquia paulistana acendeu o pavio de uma complexa polémica jurídica. Os proprietários dos lares e os familiares dos utentes acusam a gestão municipal de ceder à discriminação e à especulação imobiliária, empurrando uma população altamente vulnerável para as periferias da metrópole. Por outro lado, os grupos de moradores que encabeçaram as petições defendem que os lares funcionavam como "empresas clandestinas" em zonas onde a legislação proíbe o comércio e serviços de grande porte.
A fiscalização municipal justifica o encerramento e a consequente ordem de despejo com base em irregularidades administrativas e na falta de licenças específicas de funcionamento para algumas destas unidades. Contudo, entidades de defesa dos direitos humanos e associações médicas já anunciaram que pretendem recorrer aos tribunais para travar as expulsões, alegando que a autarquia está a violar o Estatuto do Idoso e o princípio constitucional da dignidade humana.
Com esta decisão, a autarquia de Ricardo Nunes coloca-se no centro de um fogo cruzado que promete arrastar-se pela justiça.

















