O regresso do Estado à REN e a possibilidade de entrada no Millennium bcp desenham uma movimentação que ultrapassa a simples gestão de participações financeiras. Em ambos os casos estão em causa empresas estratégicas com forte presença de capital chinês, numa altura em que Washington procura reforçar a influência norte-americana em Portugal.

Foi anunciado ontem que a  Parpública acordou comprar 5,32 por cento da REN à Fidelidade, seguradora portuguesa controlada pela chinesa Fosun, o que, somada à participação adquirida à Pontegadea, a operação elevará para 19% a posição do Estado na gestora das redes nacionais de eletricidade e gás, sendo que a chinesa State Grid continuará, contudo, a ser a maior acionista, com 25%.

Quase em simultâneo, o Expresso revelou que o governo de Luís Montenegro admite adquirir até 5 por cento do Millenniumbcp, caso a chinesa Fosun concretize a saída do banco. O grupo chinês controla atualmente cerca de 20,5% da instituição. O objetivo seria impedir a entrada de investidores considerados indesejáveis e integrar a participação no futuro fundo soberano português, uma medida anunciada em Agosto a sete ventos durante a Festa do Pontal, mas que na pratica está ‘hibernada’.

Não existindo prova pública de que estas decisões resultem de uma exigência dos Estados Unidos, a verdade é que também é difícil separá-las do ambiente geopolítico criado nos últimos anos, especialmente tendo em conta que  Washington tem pressionado os aliados europeus para limitarem a presença chinesa em infraestruturas críticas, das redes 5G aos portos, energia, centros de dados e cabos submarinos, exigências essas a que, no caso português, o então governo de António Costa anuiu prontamente.

Pressão norte-americana

Desde há uns anos que Portugal afastou, na prática, fornecedores chineses, caso da Huawei, das áreas mais sensíveis das redes 5G. Sines, pela sua posição atlântica, pelos investimentos energéticos, pelos centros de dados e pela proximidade aos cabos submarinos, tornou-se igualmente uma peça central na competição entre capitais norte-americanos, europeus e chineses.

O complexo de Sines, até pela sua localização geoestratégica, é olhado com ‘apetite’ por norte-americanos e chineses, estando no centro de uma ‘guerra’ de influência que tem o. nosso país como palco

A visita de Marco Rubio a Lisboa, onde esteve de passagem na última quinta-feira, veio reforçar essa mensagem. O secretário de Estado norte-americano classificou Portugal como “a porta ideal” para a tecnologia dos EUA entrar na Europa, destacando os cabos submarinos, a energia, os minerais críticos e os grandes centros de dados. Falou em resiliência perante riscos económicos e tecnológicos — uma linguagem diplomática que, sem nomear diretamente Pequim, deixa claro o adversário estratégico.

A ofensiva do Estado junto da REN e do BCP pode, assim, representar mais do que a recuperação de influência nacional. Pode significar que Lisboa começou a reposicionar os seus ativos estratégicos no novo confronto económico entre Washington e Pequim. A questão é saber se Portugal está a construir uma verdadeira soberania económica ou apenas a trocar uma dependência por outra.