As celebrações do centenário do nascimento de Zeca Afonso, que se assinala em 2029, arrancam simbolicamente esta quarta-feira, dia 24, com a apresentação do ‘Manifesto 100 anos de José Afonso’, uma iniciativa promovida pela Associação José Afonso (AJA).

O documento reúne já mais de uma centena de subscritores, oriundos de áreas como a música, o jornalismo, a investigação, o teatro, o cinema e a sociedade civil, permanecendo aberto a novas adesões.

Entre os primeiros signatários encontram-se nomes como Sérgio Godinho, Capicua, Garota Não, Manuela Azevedo, os jornalistas Adelino Gomes e Joaquim Furtado e o capitão de Abril Jorge Aires, além da investigadora Irene Flunser Pimentel e do musicólogo Rui Vieira Nery.

Em declarações à Lusa, o historiador João Madeira, dirigente da associação, explicou que a intenção é que as comemorações tenham uma forte participação popular, à imagem daquilo que caracterizou a vida e o percurso do cantor.

“Queremos que as comemorações sejam com um cunho popular forte, com capacidade de suscitar a iniciativa das diferentes escalas do mundo associativo”, afirmou, acrescentando que esse espírito reflete “o caráter popular de que José Afonso tanto gostava”.

O manifesto sublinha não apenas a relevância artística da obra do músico, mas também o seu legado cívico. O texto destaca a vontade de celebrar “a criatividade e o impacto duradouro” das suas canções, bem como “o exemplo cívico, feito de coerência, modéstia e persistência, e a sua busca de uma sociedade mais livre, mais justa e mais solidária”.

Segundo João Madeira, esta iniciativa representa “uma declaração de intenções” e o primeiro passo para um conjunto alargado de atividades que se estenderão até 2029.

Entre os projetos previstos estão concertos, exposições, debates, tertúlias, publicações e reedições de obras, além da recolha e preservação de documentos e testemunhos ligados ao percurso do cantor.

A Associação José Afonso pretende igualmente retomar o processo de classificação da obra fonográfica do artista, depois de o anterior procedimento ter sido arquivado em 2025 pela Museus e Monumentos de Portugal. “O que nos move é enfatizar a obra do Zeca Afonso”, sublinhou João Madeira.

Nascido em Aveiro a 2 de agosto de 1929, Zeca Afonso tornou-se uma das figuras mais marcantes da música portuguesa. Iniciou o seu percurso ligado ao fado de Coimbra, mas foi através das canções de intervenção que conquistou um lugar central na história cultural e política do País.

Autor de ‘Grândola, Vila Morena’, tema que serviu de senha para o avanço das tropas durante a Revolução de 25 de Abril, o artista morreu em 23 de fevereiro de 1987, em Setúbal, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Quase quatro décadas após a sua morte, João Madeira considera que a mensagem do cantor permanece atual: “São problemas que têm a mesma raiz, de um certo posicionamento contra a prepotência, as desigualdades, em defesa da paz do mundo e que fazem todo o sentido nos dias de hoje.”