O espetáculo terminou, mas para algumas pessoas as consequências podem só agora começar a aparecer. Um dia depois do eclipse solar de dia 12, surgem relatos de desconforto e alterações na visão entre quem terá observado o fenómeno sem proteção adequada. Em França, vários serviços de urgência oftalmológica receberam chamadas e doentes preocupados com sintomas após a exposição ao Sol.

Nas redes sociais, sobretudo no TikTok, multiplicaram-se também testemunhos de utilizadores que dizem sentir ardor ou dores nos olhos. Alguns procuraram mesmo assistência médica. Ter desconforto, contudo, não significa necessariamente que exista uma lesão na retina.

Quem passou muito tempo concentrado no eclipse, mesmo utilizando corretamente os óculos apropriados, pode ter pestanejado menos do que o habitual. Isso pode provocar secura, irritação ou a sensação de ter areia nos olhos, que tende a desaparecer ao fim de algumas horas.

A situação é diferente quando existe uma retinopatia solar, lesão provocada pela exposição direta à radiação do Sol. O problema pode afetar a mácula, região essencial para a visão central, e tem uma particularidade que dificulta a sua identificação: os danos podem ocorrer sem qualquer dor.

“No momento em que está a olhar para a luz, não sente nada. Não há dor, não tem sensação de nada”, explica Laura Sararols, responsável pela Unidade de Retina do Hospital General de Granollers, citada pela Euronews.

É por isso que sentir-se bem imediatamente depois de ter olhado para o Sol não é garantia de que esteja tudo bem. As alterações podem revelar-se várias horas depois ou apenas nos dias seguintes. A própria Direção-Geral da Saúde alerta que os danos podem não ser percetíveis até ao aparecimento dos primeiros sinais.

Um dos sintomas que merece particular atenção é uma alteração persistente no centro da visão.

“O doente pode notar que na zona central há uma espécie de mancha negra, uma área que não foca ou uma zona acinzentada que está sempre no mesmo ponto”, explica Laura Sararols.

A DGS identifica ainda como sinais de alerta a visão turva ou distorcida, o aparecimento de manchas ou pontos negros, mudanças na perceção das cores, uma diminuição ou perda súbita da visão e dor ocular intensa. Perante algum destes sintomas durante ou depois do eclipse, a recomendação oficial é contactar imediatamente o SNS 24.

E não é preciso passar vários minutos a olhar para o Sol para correr riscos. A DGS sublinha que apenas alguns segundos de exposição direta podem ser suficientes para provocar danos na retina. Durante um eclipse, o perigo pode ser maior porque a diminuição da luminosidade torna mais tolerável manter os olhos voltados para o Sol.

Quem decidiu filmar o fenómeno com o telemóvel também não tem necessariamente motivos para preocupação. Se o equipamento ficou apontado para o eclipse e a observação foi feita apenas através do ecrã, a exposição dos olhos não é equivalente a olhar diretamente para o Sol.

“Se deixar o telemóvel preparado numa posição, carregar em gravar e depois olhar apenas para o ecrã, não há problema”, explica Sararols. O risco surge quando se olha diretamente para o Sol enquanto se posiciona ou utiliza o aparelho. Já binóculos, telescópios ou visores óticos sem filtros solares próprios podem concentrar a radiação e aumentar significativamente o perigo.

A atenção deve ser redobrada no caso das crianças, que podem não contar aos pais que olharam diretamente para o eclipse.

“As crianças não nos vão dizer que estiveram a olhar para o eclipse e que fizeram aquilo que lhes disseram para não fazer”, alerta Sararols. A DGS recomendou, por isso, supervisão permanente de um adulto sempre que crianças utilizassem óculos certificados para observar o fenómeno.

Caso seja diagnosticada uma retinopatia solar, não existe atualmente um tratamento comprovadamente eficaz para reverter a lesão. Ainda assim, a avaliação por um oftalmologista é importante para confirmar os danos e acompanhar a evolução. Há casos em que ocorre uma recuperação parcial espontânea, mas também é possível ficarem alterações permanentes na visão.

“Costumam ser administrados corticoides, mas não foi demonstrado que sejam eficazes. Na realidade, não há nenhum tratamento que funcione para resolver essa situação”, explica Sararols.