Barretos, no interior do estado de São Paulo, voltou a ser o centro das atenções do rodeio e da cultura sertaneja brasileira. Começou nesta quinta-feira (20) a 71.ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, que decorre até 30 de agosto, no Parque do Peão. Considerado o maior evento de rodeio da América Latina, o festival reúne competições, música, gastronomia, manifestações culturais e milhares de visitantes durante 11 dias.

Apesar de ter crescido muito e se transformado num dos maiores eventos de entretenimento do Brasil, a pecuária continua na origem da festa. A história de Barretos está profundamente ligada à criação de gado e às antigas comitivas de boiadeiros que atravessavam o interior brasileiro conduzindo animais.

Foi desse universo rural que nasceu uma celebração que, sete décadas depois, se transformou numa referência internacional do rodeio.

Como nasceu a Festa do Peão

A história começa em 1955, quando 20 jovens de Barretos criaram a associação Os Independentes. O grupo tinha ligação com a agropecuária e nasceu com o objetivo de promover eventos relacionados às tradições sertanejas e arrecadar recursos para ações assistenciais.

Um ano depois, em 1956, foi realizada a primeira Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. O evento aconteceu debaixo da lona de um circo e tinha uma estrutura muito diferente da atual.

O rodeio, porém, já era a principal atração.

Naquela época, Barretos tinha uma forte relação com a pecuária e era uma região de passagem de comitivas que transportavam gado. Os peões que conduziam os animais desenvolveram técnicas e habilidades que acabaram incorporadas às competições de rodeio.

A festa nasceu, portanto, de uma realidade que fazia parte do quotidiano da cidade.

Da tradição rural ao grande evento

Durante as primeiras décadas, a Festa do Peão foi realizada no Recinto Paulo de Lima Correa, no centro de Barretos. Com o crescimento do público e das competições, a estrutura tornou-se pequena.

Em 1985, o evento foi transferido para o recém-criado Parque do Peão.

Quatro anos depois, em 1989, foi inaugurado o Estádio de Rodeios, projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. A arena tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da festa e ajudou a consolidar Barretos como uma das principais referências do rodeio no país.

O Parque do Peão ocupa atualmente uma área superior a 2 milhões de metros quadrados e reúne a arena, palcos, espaços gastronómicos, comércio, camping e estruturas destinadas ao público.

O que começou como uma festa regional passou, assim, a receber competidores e visitantes de diferentes partes do Brasil e de outros países.

O rodeio continua no centro

Mesmo com o enorme crescimento da programação musical, as competições continuam a ser a essência da Festa do Peão.

A edição de 2026 reúne cerca de 3.500 competidores, distribuídos por nove modalidades de rodeio. A premiação ultrapassa R$ 1,5 milhão.

Entre os principais destaques estão as montarias em touros, as provas com cavalos e competições profissionais como a PBR Brazil, a Liga Nacional de Rodeio e o Barretos International Rodeo.

A presença de competidores estrangeiros também reforça a dimensão internacional que a festa adquiriu ao longo das décadas.

Quando a música entrou em cena

Se o rodeio está na origem da festa, a música foi fundamental para transformar Barretos num fenómeno de grandes proporções.

A edição de 2026 tem mais de 120 espetáculos musicais, além de uma extensa programação cultural.

Entre os nomes que integram a programação estão Ana Castela, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Luan Pereira. Gusttavo Lima, que foi anunciado pela terceira vez como embaixador da festa, também fará apresentações durante o evento.

A programação deixou, entretanto, de ser exclusivamente sertaneja.

O Barretão Elétrico leva o axé para o Parque do Peão, com artistas como Jammil, Durval Lelys, Xanddy Harmonia e Chiclete com Banana. A estratégia procura aproximar a festa de diferentes públicos sem abandonar a sua identidade original.

Uma cidade dentro da cidade

Durante os 11 dias de evento, o Parque do Peão transforma-se numa espécie de cidade temporária.

O camping oficial tem capacidade para cerca de 20 mil pessoas por dia e oferece diferentes tipos de alojamento, desde espaços tradicionais para tendas e autocaravanas até cabanas climatizadas e estruturas mais sofisticadas.

Quem permanece no camping também encontra restaurantes, supermercado, serviços e uma programação musical própria, com dezenas de apresentações.

O complexo funciona como um dos principais pontos de encontro do festival, permitindo que milhares de pessoas permaneçam no local durante vários dias.

A tradição que continua viva

Mesmo com toda a modernização, Barretos mantém elementos diretamente ligados à cultura dos antigos boiadeiros.

A Queima do Alho, por exemplo, é uma das tradições mais conhecidas da festa. A prática remete às refeições preparadas pelos cozinheiros das antigas comitivas durante as longas viagens pelo interior do país.

Também fazem parte da programação manifestações culturais como apresentações de catira e o Concurso de Berrante.

Esses elementos ajudam a preservar a ligação entre a festa atual e o modo de vida rural que existia antes da transformação do rodeio num grande espetáculo.

Um evento que atravessa gerações

Uma das características mais marcantes de Barretos é justamente a capacidade de reunir diferentes gerações.

Há famílias que frequentam a festa há décadas e visitantes que chegam pela primeira vez atraídos pelos grandes concertos ou pelas competições.

A organização tem procurado ampliar esse público, combinando a tradição do rodeio com novos formatos de entretenimento, tecnologia e diferentes estilos musicais.

Em 2026, por exemplo, o aplicativo oficial do evento ganhou o Jeromão, um assistente virtual baseado em inteligência artificial que ajuda os visitantes a consultar horários, localizar atrações e organizar a experiência dentro do Parque do Peão.

É uma demonstração de como um evento criado há sete décadas procura adaptar-se aos novos tempos sem abandonar as suas raízes.

De Barretos para a América Latina

Ao longo da sua história, a Festa do Peão tornou-se uma referência para o rodeio brasileiro e passou a receber competidores internacionais.

O evento ajudou também a popularizar um modelo que combina rodeio, música sertaneja, gastronomia, turismo e cultura rural.

Por isso, Barretos deixou de ser apenas uma competição entre peões. A festa tornou-se um dos maiores acontecimentos culturais e turísticos do interior brasileiro.

Setenta anos depois, a história continua

A 71.ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos começou nesta quinta-feira, 20 de agosto, exatamente 70 anos depois da primeira edição.

Em 1956, o público assistia às competições debaixo da lona de um circo. Hoje, milhares de pessoas ocupam um gigantesco complexo construído para receber rodeios, concertos e atrações culturais.

A dimensão mudou completamente. A essência, porém, permanece.

A festa nasceu da relação de Barretos com a pecuária, com os cavalos, com o gado e com os homens que percorriam as estradas do interior brasileiro conduzindo boiadas.

O rodeio profissional e a música transformaram essa tradição num fenómeno de grandes proporções, mas as raízes continuam presentes na arena, nas provas equestres, na Queima do Alho e nas manifestações da cultura sertaneja.

Até 30 de agosto, Barretos volta a reunir tradição e modernidade num dos maiores eventos do Brasil.

Mais do que uma festa de rodeio, Barretos tornou-se um ponto de encontro entre a memória do campo e o entretenimento contemporâneo — uma história que começou debaixo de uma lona de circo e chegou a uma das maiores arenas de rodeio da América Latina.