Mais de meio século após o golpe militar liderado por Augusto Pinochet, o Chile deu este fim de semana mais um passo na longa busca por justiça ao deter Nelson Haase Mazzei, o último ex-militar condenado que permanecia em fuga pelo sequestro, tortura e assassinato do cantor e compositor Víctor Jara, um dos maiores símbolos da cultura e da resistência democrática chilena. A captura do antigo oficial, de 80 anos, encerra um dos processos judiciais mais emblemáticos relacionados com os crimes cometidos durante a ditadura instaurada após o derrube do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973.
Víctor Jara foi detido na Universidade Técnica do Estado, onde lecionava, e conduzido para o então Estádio Chile, transformado pelos militares num centro de detenção, tortura e execução. Durante vários dias foi alvo de brutais espancamentos e humilhações, antes de ser executado a tiro. O seu corpo apresentava dezenas de fraturas e mais de quarenta perfurações de bala, tornando-se um dos retratos mais chocantes da violência exercida pelo regime de Pinochet contra opositores, artistas, sindicalistas, estudantes e apoiantes da Unidade Popular.
A detenção de Haase Mazzei ocorre depois de o Supremo Tribunal chileno ter confirmado, em 2023, a condenação de sete antigos militares a penas de 25 anos de prisão pelos homicídios de Víctor Jara e de Littré Quiroga, então diretor-geral dos Serviços Prisionais. Haase nunca se apresentou para cumprir a pena e permaneceu foragido até ser localizado pela Polícia de Investigações numa propriedade na região de Los Lagos.
O assassinato de Víctor Jara transformou-se num símbolo internacional da repressão desencadeada pela ditadura de Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1990. Durante esse período, milhares de pessoas foram mortas ou dadas como desaparecidas e dezenas de milhares sofreram detenções arbitrárias, torturas e perseguições políticas, num dos regimes mais repressivos da história da América Latina. Cinquenta e três anos depois dos factos, a captura do último condenado em fuga representa não apenas o encerramento de um longo processo judicial, mas também um novo marco no esforço do Chile para responsabilizar os autores das violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar.

















