O canal Conta Lá ainda leva meia dúzia de meses de vida e já está atolado em dívidas. Nada que espante quem conhece o currículo, mais parecido com um cadastro, do seu principal sócio, Maurício Ribeiro, useiro e vezeiro em deixar um rasto de golpes, burlas e trapalhadas, e que quer agora que o Banco Português do Fomento lhe passe para a mão cinco milhões de euros.

Maurício Ribeiro, um fotógrafo de casamentos e batizados que à vezes usa o nome de Rosiel da Assunção, e Sérgio Figueiredo, antigo diretor da TVI e durante anos o ‘homem de mão’ de António Mexia, são os donos do Conta Lá – um quase clandestino canal que ocupa posições mais do que secundárias na grelha dos principais operadores da TV por cabo.

Ao longo dos anos, Maurício Ribeiro, que já usou o pseudónimo 'Rosiel de Assunção', somou golpes, calotes, trapalhadas.

Maurício, através da sua empresa Baú d’Iniciativas, controla 66,67 por cento do capital. Sérgio, por meio da Plataforma Coerente, firma que criou há cinco com a namorada, Margarida Pinto Correia, detém 30 por cento do capital de 102 mil euros.

Em meio ano de vida, o Conta Lá, que no passado mês de abril registou a impressionante média de 400 espetadores por dia, conseguiu acumular dívidas chorudas, não pagar aos seus trabalhadores e ser despejado pelos senhorios por falta de pagamentos das rendas em Lisboa e no Porto – uma autêntica novela ao estilo de Maurício Ribeiro.

Na lista de credores destacam-se a Ibertelco, fornecedora de equipamentos técnicos a ‘arder’ com 450 mil euros, e a GMTS, empresa de meios técnicos da SIC que assegurou para o Conta Lá a cobertura das autárquicas de outubro e que reclama cerca de 300 mil euros. O 24 Horas sabe que há trabalhadores do canal que ainda não viram um único cêntimo desde que começaram a trabalhar para a dupla Maurício & Sérgio. Nesta terça-feira, dia 12, os salários ainda não tinham sido pagos.

“Pelas nossas contas, as dívidas já devem ter ultrapassado os dois milhões de euros, isso para mais e não para menos”, disse ao 24 Horas fonte do canal.

Os patrões do Conta Lá tentam serenar os ânimos entre os trabalhadores cada vez mais inquietos. Têm prometido uma solução a curto-prazo que, segundo dizem, passa por uma linha de financiamento que está a ser negociada com o Banco Português de Fomento e dependente, apenas de “questões meramente burocráticas”.

Enquanto os trabalhadores desesperam pelos vencimentos, o presidente do conselho de administração, Sérgio Figueiredo, passeia-se regaladamente pelas montanhas do Nepal. Ainda no último fim-de-semana, publicou na sua página do Facebook, uma sorridente foto em Kang-La Pass: “Com Conta Lá, sou imbatível”, escreveu ele.

Sérgio Figueiredo pode sentir-se nas nuvens dos Himalaias, a mais de cinco mil metros de altitude. Mas o seu canal, sem audiências nem receitas, está mais raso que o chão. A tábua de salvação, o financiamento por parte do Banco Português de Fomento, tarda. O currículo de Maurício Ribeiro, um rasto de enganos e calotes, em nada ajuda no relacionamento com a banca.

Maurício, homem dos sete ofícios, é um artista: fotógrafo, realizador, produtor, empresário, domina o mundo da imagem, do cinema, das TV, do espetáculo. Como o 24 Horas revelou recentemente, um dos seus maiores talentos é a arte da falcatrua. Abrir empresas de produção de media e atirá-las para o buraco da falência tem sido uma das suas especialidades.

Após ter estoirado com a produtora Just Cine, fundou a Just Up, que acabou tão falida como a primeira. Tem sido capaz de se reerguer das cinzas a cada falhanço e prosseguir no doloroso caminho das falências. Abriu, em 2017 a Maumau Mia. Em 2025, ao fim de oito anos de atividade, a firma enfrentava 12 processos judiciais por dívidas no valor de quase 600 mil euros.

A Maumau Mia passou, estranhamente, a ser detida unicamente pela firma Conta Lá – que, por sua vez, é maioritariamente controlada por outra empresa de Maurício, a Baú d’Iniciativas.