Ainda as buscas por suspeitas de corrupção não tinham terminado em casa do cunhado Ricardo Machado, já o ministro da Presidência, Leitão Amaro, se apressava a dizer que não tem nada a ver com o assunto: o governante “não tem qualquer envolvimento ou relação com a investigação criminal tornada pública e que envolve um seu familiar” e, ainda segundo um comunicado oficial do seu Gabinete, é "inadmissível envolver ou culpabilizar alguém por relações familiares".

A Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC), da Polícia Judiciária, lançou esta manhã, dia 14, a ‘Operação Torre de Controlo II’ com o objetivo de executar 11 mandados de busca e apreensão em domicílios, sedes de empresas e escritórios de advocacia. Estão a ser investigados crimes de burla qualificada, corrupção passiva e ativa e associação criminosa relacionados com a contratação de meios aéreos para combate a incêndios rurais.

Ricardo Machado – hoje, Ricardo Leitão Machado, por adoção do nome da mulher, Vera Leitão Amaro, irmã do atual ministro da Presidência – é o principal alvo desta segunda vaga da ‘Operação Torre de Controlo’: a sua moradia no Restelo, em Lisboa, foi alvo de buscas, assim como suspeitos das suas relações e empresas a que está ligado, a Gestifly e a Gesticopter. O advogado que por várias vezes foi gestor da teia empresarial de Ricardo Machado também foi visado.

Estas buscas estão relacionadas com as que decorreram em finais de maio ano passado, no âmbito da operação “Torre de Controlo I”, e que resultaram na constituição de 12 arguidos – sete pessoas singulares e cinco empresas – por fortes suspeitas de viciação de contratos públicos no valor de 100 milhões de euros. Segundo o Ministério Público. empresas de meios aéreos como a Helibravo, a HTA Helicópteros, a Helipoprtugal, a Helifly e a Gesticopter “tiveram acesso desde 2022 a informação privilegiada”, junto de decisores públicos, que lhes “permitiu apresentar preços concertadas com vista a obterem ganho patrimonial ilegítimo”.

Durante a primeira operação, a PJ tinha dúvidas sobre se o cunhado do ministro estaria ligado a uma das empresas suspeitas – a Gesticopter. Ricardo Leitão Machado apenas adquiriu formalmente a empresa, através da sociedade Gestifly de que era dono, após a viciação dos concursos. Mas os investigadores têm hoje a convicção de que Ricardo Leitão Machado há muito que controlava de facto a Gesticopter, cujo diretor de operações era outro cunhado, Miguel Leitão Amaro, irmão do ministro da Presidência.

António Leitão Amaro tomou posse pela primeira vez como ministro da Presidência em abril de 2024. O Governo, em 11 de março do ano seguinte, caiu no Parlamento. As eleições que se seguiram deram de novo a maioria ao PSD e Leitão Amaro, até aí ministro de um Governo de gestão, voltou a tomar posse em 6 de junho. Disse, então, que iria manter “distanciamento total” de quaisquer decisões governamentais que digam respeito à contratação pública na área da Proteção Civil.

António Leitão Amaro, Ministro da Presidência. MIGUEL A. LOPES/LUSA

A proclamação só lhe ficou bem. Mas o cunhado, em maio, já tinha vencido um concurso para fornecimento de três helicópteros no valor de 16,4 milhões de euros – e, em 4 de junho, um segundo contrato para dois helicópteros por 11,9 milhões.

A contas com a Justiça

Ricardo Machado domina em Portugal nada menos do que 17 empresas: do imobiliário ao turismo, da consultoria em ambiente e gestão às energias renováveis, da agricultura à agropecuária, do comércio de produtos de beleza às águas minerais, da venda de automóveis ao aluguer de helicópteros.

Além do vasto currículo empresarial, Ricardo Leitão Machado arrisca um não menos extenso cadastro. Além de estar a ser investigado por suspeitas de corrupção nos concursos públicos para fornecimento de helicópteros de combate aos figos rurais, é visado num inquérito-crime por branqueamento de capitais – e, como o 24 Horas já revelou, também é suspeito de ter burlado o Estado angolano em 222 milhões de euros. As autoridades angolanas, de resto, já pediram à Procuradoria-Geral da República que o constitua arguido.

O cunhado do ministro tomou-se de amizade com Hugo Pêgo, marido de Tchizé dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos. Melhores credenciais não podia ele exibir para se lançar, em grande, no mundo dos negócios em Angola.

A sua empresa – AEnergia SA, que, entretanto, desapareceu do ninho empresarial que controla em Portugal – assinou entre 2013 e 2017, com o poder que reinava em Luanda, contratos no valor de dois mil milhões de dólares para reparação de oficinas ferroviárias, fornecimento de 100 locomotivas e instalação de novas centrais de produção de energia.

O negócio talvez tenha corrido bem a Ricardo Leitão Machado, mas correu muito mal ao Estado angolano. O atual presidente, João Lourenço, denunciou os contratos com a AEnergia e mandou abrir uma investigação a cargo da Inspeção-Geral da Administração do Estado. O relatório final concluiu que Angola foi lesada em 222 milhões de dólares (cerca de 200 milhões de euros) pela empresa de Ricardo Leitão Machado. O empresário está agora a contas com a Justiça angolana. As autoridades angolanas, pedem em duas cartas rogatórias enviadas à Procuradoria-Geral da República (PGR) que Ricardo Leitão Machado seja constituído arguido – e solicitam a cooperação judicial portuguesa na investigação das burlas ao Estado angolano.