O acordo ortográfico, o uso de estrangeirismos e a forma como o português é ensinado estiveram entre os temas debatidos por escritores de vários países no XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre na cidade da Praia, em Cabo Verde. Apesar de partilharem o mesmo idioma, os participantes apresentaram perspetivas distintas sobre aquilo que gostariam de alterar ou preservar numa língua falada por cerca de 300 milhões de pessoas.
Alberto Oliveira Pinto, escritor nascido em Luanda e autor da ‘História de Angola’, defende a revogação do acordo ortográfico, em vigor obrigatório em Portugal desde 2015. Entre as mudanças que gostaria de ver estão também o abandono de estrangeirismos e o regresso a conceitos gramaticais que marcaram a sua formação.
A posição contrasta com a de outros participantes, que consideram que a língua deve evoluir naturalmente. Hugo Pinto, investigador dedicado a Macau, entende que o principal problema não está no português em si, mas na ideia de que pode ser controlado por decretos ou decisões políticas. Para o investigador, a língua transforma-se diariamente através dos seus falantes e das diferentes realidades em que é utilizada.
Também Joana Matos Frias, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, defende uma reflexão sobre as regras e as normas impostas aos utilizadores do idioma. A responsável considera que a diversidade geográfica, social e profissional deve ser tida em conta e aponta o acordo ortográfico como exemplo de uma mudança que levanta questões sobre a relação dos falantes com a própria escrita.
Ensino e diversidade cultural no centro das preocupações
A forma como o português é ensinado foi outra das principais preocupações manifestadas durante o encontro. Amadú Dafé, representante da Guiné-Bissau, não mudaria a língua, mas considera necessário adaptar os métodos de ensino aos países onde o português não é a língua materna da maioria das crianças.
O escritor alerta que, em contextos multilingues como a Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, aplicar métodos semelhantes aos utilizados em Portugal ou no Brasil pode dificultar a aprendizagem. Na Guiné-Bissau, exemplifica, há crianças que chegam à escola sem contacto prévio significativo com o português e têm de aprender a ler e escrever num idioma que não falam em casa.
Mana Guta, pseudónimo da escritora cabo-verdiana Augusta Évora, também privilegia a educação. Em vez de alterar a língua, investiria na formação de professores e em práticas pedagógicas mais próximas dos alunos, tornando a aprendizagem mais acessível e estimulante.
Na Galiza, Maria do Rosário Bello defende uma maior aproximação entre o galego e o português. A escritora gostaria que todas as escolas galegas tivessem professores de português, promovendo o conhecimento de uma língua que considera ter também uma importante dimensão internacional.
Estrangeirismos, sotaques e significado das palavras
O recurso crescente a palavras estrangeiras é uma preocupação partilhada por Olinda Beja, escritora de São Tomé e Príncipe, e por Alberto Oliveira Pinto. Beja aponta o uso de termos ingleses em situações quotidianas como um obstáculo à compreensão por parte de quem não domina esse idioma, defendendo maior atenção às palavras escolhidas na comunicação pública.
Já António Costa Neto, músico e escritor moçambicano, considera que é necessário ultrapassar preconceitos relacionados com os sotaques e reconhecer que falar corretamente não depende de uma pronúncia específica. O autor de Marrabenta defende também um debate mais aprofundado sobre palavras utilizadas para identificar pessoas de origem africana, tendo em conta a sua história e possíveis conotações discriminatórias.
O XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa reúne participantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Timor-Leste está representado pelo ministro da Administração Estatal, Tomás do Rosário Cabral. A iniciativa, organizada pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e pela Câmara Municipal da Praia, tem como tema central o papel do português num mundo em constante transformação.

















