A aquisição da N1, considerada a última grande televisão independente da Sérvia, por investidores ligados ao fundo Alpac Capital, está a provocar forte polémica nos Balcãs e a reacender dúvidas sobre a crescente influência política e financeira do universo próximo do antigo primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán no setor dos media europeus.

A operação, apesar de ter sido realizada através do fundo luxemburguês European Future Media Investments (EFMI), aponta para que por detrás tenha estado a estrutura controlada pela Alpac Capital, liderada pelos portugueses Pedro Vargas David e Luís Santos, os mesmos investidores que adquiriram a Euronews em 2022, e que, até ao ano passado, controlaram o semanário português Nascer do Sol.

Recorde-se que nos últimos anos, surgiram rumores do envolvimento deste fundo em frustradas tentativas de aquisição do antigo grupo Cofina (hoje Medialivre) e da própria Impresa, onde chegaram a ser vistos como uma possível ‘tábua de salvação’ daquele outrora rentável negócio da família Balsemão.

O receio da tentativa de controle político

Este negócio surge, no entanto, num momento particularmente sensível para a Sérvia, poucos dias depois de o Presidente sérvio ter pressionado para a saída da diretora da estação, aumentando receios de tentativa de controlo político sobre um dos últimos órgãos de comunicação considerados independentes no país.

A controvérsia intensifica-se devido às já conhecidas ligações entre responsáveis da Alpac Capital e círculos próximos do ultraconservador Viktor Orbán, o antigo primeiro-ministro húngaro. Diversas investigações internacionais revelaram que a compra da Euronews terá contado com financiamento indireto oriundo do Estado húngaro e de empresas ligadas ao aparelho político de Budapeste.

Pedro Vargas David, um dos principais rosto da Alpac, a par de Luís Santos, filho do antigo selecionador nacional Fernando Santos, é filho de Mário David, antigo eurodeputado do PSD e próximo de Orbán. Documentos divulgados em 2024 indicaram que pelo menos 57,5 milhões de euros associados a estruturas próximas do governo húngaro terão sido utilizados para financiar a compra da Euronews, naquilo que é considerado como um alegado padrão de expansão mediática alinhado com a estratégia internacional do antigo governo húngaro, que foi frequentemente acusado de procurar criar plataformas de influência política e ideológica dentro da Europa.