O jornal espanhol El País dedica este sábado uma extensa reportagem a Gonçalo M. Tavares, apresentando-o como um dos escritores mais singulares e internacionais da literatura portuguesa contemporânea. Nascido em Luanda há 56 anos, o autor construiu uma obra descrita como rara, cirúrgica e, por vezes, violenta, marcada pela economia das palavras e pela recusa das fronteiras tradicionais entre géneros literários.
Na reportagem, assinada por Tereixa Constenla, Tavares surge como um escritor compulsivo, mas paciente. Escreve continuamente, deixa os textos repousar durante anos e regressa depois a eles com uma exigência quase implacável, eliminando tudo o que considera supérfluo. O resultado é uma bibliografia com cerca de 50 títulos, repartidos por romances, epopeias, poesia, teatro, mitologias e textos de difícil classificação. Traduzido em mais de 50 línguas e publicado em cerca de 70 países, é o terceiro autor português mais traduzido, depois de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.
Primeiro português distinguido com o Prémio Formentor das Letras, Tavares continua também associado à célebre previsão de José Saramago: “Não há direito de escrever tão bem. Dá vontade de lhe bater. Vai ganhar o Nobel.” O reconhecimento, porém, parece interessá-lo menos do que o próprio processo criativo e a capacidade da literatura para obrigar o leitor a pensar.
Parte central da conversa gira em torno de 'O Fim dos Estados Unidos da América', obra distópica na qual uma pandemia conduz a uma guerra civil entre ricos e pobres. É a partir deste cenário que o escritor questiona os critérios usados para medir a prosperidade: “Se num país como os Estados Unidos há 40 milhões de pobres, esse país não é rico, lamento.” Para Tavares, avaliar uma sociedade apenas através do Produto Interno Bruto representa uma obscenidade do ponto de vista da consciência social.
O autor defende que uma democracia só merece verdadeiramente esse nome quando todos dispõem de um mínimo económico e considera elementar a tributação dos super-ricos. Alerta ainda para o regresso dos nacionalismos, estabelece paralelos com o início do século XX e critica a desumanização de fortunas sem qualquer projecto social.
O retrato do El País confirma, assim, Gonçalo M. Tavares como um escritor português de dimensão mundial: disciplinado, avesso às redes sociais e convencido de que a literatura não deve ser um simples entretenimento, mas um instrumento de resistência à violência, à estupidez e à barbárie.

















