A Inteligência Artificial está a ganhar cada vez mais espaço na criação e manipulação de conteúdos falsos na Europa. Em julho, 18% das notícias falsas analisadas por organizações de verificação de factos na União Europeia e na Noruega tinham recorrido a IA como estratégia de manipulação, segundo o relatório mensal do Observatório Europeu dos Media Digitais (EDMO).
Os dados mostram uma nova subida depois da descida registada durante abril e maio. Ao longo de julho, as 30 organizações da rede de verificadores do EDMO, que participaram na análise, publicaram 1.397 artigos de fact-checking, dos quais 253 identificaram a utilização de Inteligência Artificial na produção ou manipulação de conteúdos desinformativos.
A percentagem aproxima-se dos valores mais elevados registados este ano. Em janeiro e março, a utilização de IA tinha sido identificada em 20% dos conteúdos analisados, enquanto nos meses seguintes se verificou uma diminuição.
A evolução preocupa devido à facilidade crescente com que ferramentas de Inteligência Artificial permitem criar imagens, vídeos, áudios e textos aparentemente credíveis. Conteúdos que, à primeira vista, podem parecer reais conseguem ser produzidos ou alterados em poucos minutos, dificultando a sua identificação por parte dos utilizadores das redes sociais.
Durante julho, uma parte significativa destes conteúdos teve como alvo figuras políticas. Entre os visados esteve o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, com conteúdos manipulados destinados a influenciar a perceção pública sobre o chefe de Estado ucraniano.
A Inteligência Artificial também foi utilizada na disseminação de conteúdos de natureza anti-LGBTQ+, num período marcado pelas celebrações do Pride Month em vários países europeus. Segundo o EDMO, a tecnologia foi utilizada para criar ou manipular conteúdos destinados a alimentar narrativas falsas e ataques contra a comunidade LGBTQ+.
Os dados revelam, assim, que a IA não está apenas a ser utilizada para criar conteúdos falsos de forma isolada. A tecnologia começa a assumir um papel cada vez mais relevante dentro de estratégias de desinformação dirigidas a grupos específicos, personalidades públicas e temas socialmente sensíveis.
O fenómeno torna-se particularmente relevante num contexto em que as redes sociais continuam a ser uma das principais portas de entrada para informação de milhões de pessoas. Um conteúdo falso acompanhado por uma imagem ou vídeo aparentemente autêntico pode alcançar rapidamente milhares ou milhões de utilizadores antes de ser identificado e desmentido.
A capacidade de produzir conteúdos cada vez mais sofisticados também aumenta a dificuldade dos verificadores de factos. Se no passado algumas falsificações podiam ser identificadas através de erros evidentes em imagens ou textos, as ferramentas atuais permitem criar materiais muito mais convincentes e adaptados ao contexto em que são divulgados.
O relatório do EDMO reúne dados de dezenas de organizações especializadas na verificação de informação em diferentes países europeus. Entre as entidades que participaram na análise encontram-se agências de notícias e organizações como a AFP, Deutsche Welle, EFE Checks, Maldita.es, Newtral, Polígrafo, TjekDet e Verificat, entre outras.
A rede inclui organizações de vários países da União Europeia, além da Noruega, permitindo acompanhar a evolução das técnicas utilizadas na produção e disseminação de desinformação no espaço europeu.
A subida registada em junho e julho surge depois de dois meses de descida e volta a colocar a Inteligência Artificial no centro das preocupações relacionadas com a circulação de informação falsa. Com 18% dos conteúdos verificados em julho a apresentarem recurso a IA, os números mostram que a tecnologia já é uma ferramenta relevante nas campanhas de manipulação identificadas pelos verificadores europeus.

















