O romance ‘O Nosso Reino’, de Valter Hugo Mãe, de 54 anos, vai passar a estar disponível em língua mirandesa. A tradução, realizada por Alcides Meirinhos, membro da ACLM, será apresentada na sexta-feira, dia 18 de setembro, integrada nas comemorações do Dia da Língua Materna.
O trabalho de tradução começou em 2018 e prolongou-se até 2022. A obra terá como título ‘L Nuosso Reino’ e assinala também os 30 anos de carreira de Valter Hugo Mãe.
Em declarações à agência Lusa, Alcides Meirinhos destacou a importância desta edição para a valorização do mirandês enquanto língua literária: “Esta publicação pretende afirmar o mirandês como língua capaz de acolher e recriar literatura contemporânea, aproximando uma das vozes mais reconhecidas da literatura portuguesa de uma língua com raízes históricas particularmente ligadas ao território transmontano.”
Uma das principais dificuldades encontradas durante o processo esteve relacionada com a adaptação da linguagem utilizada por Valter Hugo Mãe, sobretudo quando o autor descreve elementos associados ao litoral português.
“A grande dificuldade foi a adaptação da terminologia que caracteriza a região do litoral para a paisagem do interior”, explicou o tradutor. Termos relacionados com “praia” ou “marés”, por exemplo, tiveram de ser ajustados à realidade e à paisagem da Terra de Miranda.
Publicado originalmente em 2004, ‘O Nosso Reino’ foi o primeiro romance de Valter Hugo Mãe. A narrativa acompanha uma criança de oito anos que procura respostas em Deus e constrói, através desse olhar infantil, um retrato de um Portugal pobre e distante, ainda marcado pelo final da ditadura do Estado Novo.
A obra, que integra o Plano Nacional de Leitura para o ensino secundário, aborda também o processo de aprendizagem e crescimento, numa perspetiva marcada pela procura de sentido e pela descoberta do mundo.
Para Alcides Meirinhos, a tradução demonstra igualmente a capacidade do mirandês para abordar diferentes realidades e conceitos: “A língua mirandesa é capaz de descrever o mundo, como só ela sabe fazer e adaptar-se a qualquer conceito e qualquer realidade linguística.”
Esta não é a primeira obra de relevo a ser traduzida para mirandês. Entre os textos já disponíveis nesta língua encontram-se a ‘Declaração Universal dos Direitos Humanos’, publicada no site da UNESCO, e vários textos do Diário da República.
A Constituição da República Portuguesa, também traduzida por Alcides Meirinhos, terá a sua apresentação pública na quinta-feira, 17.
A literatura e a banda desenhada também já fazem parte deste conjunto de traduções. Existem atualmente sete álbuns de Astérix e um das aventuras de Tintin em mirandês, além de obras como ‘Mensagem’, de Fernando Pessoa, ‘Os Lusíadas’, de Luís de Camões, e ‘Os Quatro Evangelhos’, entre outros textos.

















