O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho voltou esta terça-feira a ser particularmente duro para o governo liderado por Luís Montenegro, deixando críticas severas à forma como o executivo PSD/CDS está a conduzir o país e àquilo que considera ser uma ausência de coragem reformista.

Numa intervenção à porta fechada na Universidade Lusíada, durante um colóquio subordinado ao tema ‘Governação em contecto de crise’, Passos Coelho lamentou o “rumo escolhido” por Montenegro no que se refere à reforma do Estado, e deixou claro o seu incómodo com aquilo que entende ser uma política excessivamente condicionada pelo cálculo político e pela preocupação eleitoral. Segundo o antigo líder social-democrata, Portugal continua sem enfrentar reformas estruturais essenciais, preferindo “histórias da carochinha” e soluções de curto prazo. 

O antigo chefe do governo mostrou-se particularmente crítico relativamente ao crescimento da despesa pública, à falta de transformação profunda da Administração Pública e ao que considera ser um recuo ideológico do PSD em matérias económicas. Sem nunca colocar diretamente em causa a liderança de Montenegro, Passos, no entanto, deixou várias mensagens interpretadas nos meios políticos como um forte sinal de distanciamento em relação ao atual executivo, nomeadamente uma frase que foi entendida pelos presentes como uma farpa dirigida ao atual primeiro-ministro: “Liderança é dizer o que se tem de fazer”, afirmou

A intervenção teve ainda maior impacto por surgir numa altura em que o governo enfrenta crescente pressão política, desgaste provocado por polémicas relacionadas com a Spinumviva e dificuldades em afirmar uma agenda reformista clara. Nos bastidores do PSD, muitos dirigentes reconhecem que as palavras de Passos Coelho têm um peso político especial junto da base tradicional social-democrata e do eleitorado mais liberal e conservador. 

Apesar de continuar a garantir que está afastado da vida política ativa, Pedro Passos Coelho continua a ser uma referência influente no centro-direita português. E a dureza das críticas dirigidas ao Governo de Luís Montenegro mostra que a relação entre o antigo líder do PSD e a atual direção do partido continua longe de ser pacífica.