A algo inopinada tomada de posição pública da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa a propósito da recompra de 13,7% da REN pelo Estado português, veio lançar uma nova 'pista' sobre os verdadeiros motivos que poderão ter levado Luís Montenegro a gastar 380 milhões na compra da posição até agora detida pela holding familiar de Amancio Ortega, o dono da Zara.
Há vários anos que os Estados Unidos pressionam Portugal e outros países europeus para limitarem a presença chinesa em setores estratégicos. A entrada da Parpública no capital da gestora das redes elétrica e de gás pode, por isso, representar mais um episódio dessa disputa geopolítica.
No entanto, a principal acionista da REN continua a ser a State Grid, empresa controlada pelo Estado chinês, com 25%. A posição portuguesa, adquirida à Pontegadea por 380 milhões de euros, transforma o Estado no segundo maior acionista, permitindo-lhe acompanhar decisões, influenciar investimentos e vigiar mais de perto uma infraestrutura essencial, ou seja condicionar a gestão daquela grossista do setor elétrico.
Ao saudar os “esforços continuados” de Portugal para reforçar a segurança das infraestruturas críticas e defendeu o “uso total das ferramentas disponíveis” para responder a riscos, Washington, através da sua representação diplomacia na capital portuguesa, não escondeu a satisfação.
O precedente mais evidente da influência norte-americana junto dos decidires portugueses ocorreu em 2023, quando o Governo de António Costa aprovou critérios que afastaram, na prática, a Huawei das redes 5G. A decisão, uma das mais duras da Europa, alinhou Portugal com a estratégia norte-americana de contenção tecnológica da China.
O peso chinês na economia portuguesa não se limita à REN. Estende-se à EDP, Fidelidade, Banco Comercial Português e Mota-Engil, sendo que diversos embaixadores dos Estados Unidos têm alertado publicamente nos últimos anos para os riscos dessa presença em setores vitais.
Pese embora não existam provas de que Luís Montenegro tenha comprado a posição da REN por indicação de Washington, o entusiasmo norte-americano e a linguagem utilizada permitem levantar a suspeita: mais do que baixar a fatura da eletricidade, Portugal poderá estar a tentar recuperar influência sobre uma empresa estratégica e, simultaneamente, condicionar o avanço de Pequim.

















