Parque Arqueológico assinala três décadas de portas abertas com 401.387 visitantes e 60 novas gravuras descobertas apenas no último ano.

De diferentes pontos do mundo, os visitantes continuam a procurar aquele que é um dos mais importantes santuários de arte rupestre do planeta.

O número é considerado muito positivo pela Fundação Côa Parque, que pretende continuar a aumentar a afluência. E os dados mais recentes são animadores: só este ano, o número de visitantes já cresceu 8% face ao mesmo período de 2025.

Em declarações à Lusa, João Paulo Sousa, presidente da Fundação Côa Parque, explicou que o Vale do Côa continua a ser “um processo inacabado”, mas enfrenta algumas limitações. Durante os primeiros meses do ano, as condições meteorológicas e eventuais cheias do rio Côa podem impedir o acesso às gravuras. Já no verão, as temperaturas extremamente elevadas dificultam as visitas, podendo chegar perto dos 50 graus.

A abertura do Museu do Côa, em 2010, veio dar um novo impulso ao espaço, juntamente com a colaboração de operadores privados que organizam visitas aos diferentes locais de arte rupestre.

Apesar do crescimento do número de visitantes, existem desafios logísticos que preocupam a Fundação. As viaturas todo-o-terreno utilizadas para transportar os turistas aos vários núcleos de arte rupestre têm quase tantos anos como o próprio parque. “O conforto e segurança das viaturas são uma preocupação”, admitiu João Paulo Sousa.

Está atualmente em curso um processo para ultrapassar as burocracias relacionadas com a aquisição de cinco novas viaturas, destinadas ao transporte dos visitantes, num investimento estimado em 400 mil euros.

Também a investigação científica enfrenta dificuldades. Na última década, a Fundação Côa Parque perdeu cinco dos oito arqueólogos que tinha ao serviço, uma situação que já foi comunicada à tutela. Para tentar colmatar esta falta, deverá ser elaborado este ano um protocolo com o instituto público Património Cultural, no valor de 150 mil euros, destinado à contratação de serviços de pelo menos um ou dois arqueólogos durante dois anos.

A solução não é considerada ideal, mas pretende garantir a continuidade do trabalho de investigação, preservação e divulgação do património. Ao mesmo tempo, têm sido reforçadas as parcerias com universidades e institutos politécnicos da região. Atualmente, são 20 os bolseiros que trabalham no Côa e, graças a este trabalho, só no último ano foram descobertas 60 novas gravuras em diferentes locais do Parque Arqueológico.

Os números ajudam a perceber a dimensão do património existente no Vale do Côa. Estão atualmente identificados 1.615 painéis, distribuídos por 104 sítios arqueológicos, com motivos rupestres do Paleolítico Superior, numa área de cerca de 200 quilómetros quadrados.

A primeira descoberta aconteceu em 1995, na zona da Cardina, mais especificamente em Salto do Boi, revelando uma ocupação humana do Paleolítico Superior com cerca de 25 mil anos. Mais recentemente, em 2025, foram encontradas novas gravuras com aproximadamente 26 mil anos.

Em 2020, o Vale do Côa voltou a surpreender com a descoberta, no sítio do Fariseu, do maior auroque do mundo picotado na rocha, com mais de três metros de comprimento e também datado do Paleolítico Superior. Já em 2018 foi comprovada a presença do homem de Neandertal, com uma cronologia entre 350 mil e 35 mil anos antes de Cristo, na zona da Cardina em Salto do Boi.

A preservação deste património é, por isso, uma das grandes preocupações da Fundação Côa Parque. A segurança do Museu do Côa e das áreas classificadas pela UNESCO é atualmente assegurada pelos próprios assistentes operacionais, devido à falta de verbas para garantir uma cobertura mais abrangente.

João Paulo Sousa alerta para a necessidade de reforçar a segurança, nomeadamente para prevenir atos de vandalismo e incêndios. “Não estamos a falar de um vale qualquer. Estamos a preservar a maior biblioteca da arte rupestre do mundo”, defendeu.

O responsável rejeita que a interioridade seja o principal problema do Vale do Côa. Na sua opinião, as dificuldades estão sobretudo relacionadas com os estatutos e com a falta de autonomia financeira da Fundação Côa Parque, que gere o parque e o Museu do Côa. “As pessoas querem fazer, mas o sistema não deixa”, afirmou.

A história do Vale do Côa ficou ainda marcada pela polémica em torno da construção da barragem do Côa. As descobertas arqueológicas acabaram por levar à suspensão do projeto, decretada a 17 de janeiro de 1996, acompanhada pelo pedido de elaboração de um relatório sobre o valor patrimonial e arqueológico da região pela UNESCO.

Em julho de 1997, o conjunto arqueológico do Vale do Côa foi classificado como monumento nacional. Em dezembro de 1998, chegou o reconhecimento internacional, com a inscrição na lista de Património Mundial da UNESCO.

Trinta anos depois de abrir as portas ao público, o Vale do Côa continua, assim, a atrair visitantes de todo o mundo e a revelar novos vestígios de milhares de anos de história, mantendo vivo um património que ainda parece ter muito para contar.