Novas informações obtidas pela Polícia Federal e tornadas públicas nesta terça-feira (1.º de setembro) ampliaram as dúvidas sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. As revelações envolvem mensagens trocadas pelo banqueiro, um contrato de mais de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro e a autorização para cartões de crédito destinados aos filhos de Moraes.

Os elementos fazem parte das investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master e foram divulgados depois de o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, determinar o levantamento do sigilo de parte da apuração. O material ainda será analisado no âmbito do Supremo.

Vorcaro perguntou se deveria deixar o Brasil

Uma das revelações mais sensíveis diz respeito a mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes poucos dias antes da primeira prisão do banqueiro.

Em 14 de novembro de 2025, três dias antes de ser detido, Vorcaro escreveu ao ministro: “Estamos juntos sempre”. Na mesma mensagem, afirmou ter “gratidão da minha vida” a Moraes e disse que a sua família, funcionários, parceiros e amigos tinham uma “dívida de vida” com o ministro e a sua família.

A mensagem foi enviada às 21h19. No dia seguinte, 15 de novembro, o tom mudou. Vorcaro passou a questionar diretamente o que poderia acontecer com ele diante do avanço das investigações.

“Que loucura, bem na semana em que estou resolvendo tudo”, escreveu. Em seguida, perguntou se era o mesmo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, responsável posteriormente pela ordem de prisão, se Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, tinha conhecimento da situação e se ainda seria possível fazer alguma coisa.

Então veio a pergunta mais direta: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Dois dias depois, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar num avião particular. O plano era seguir para Malta e, posteriormente, para o Dubai.

Segundo a Polícia Federal, as mensagens analisadas pelos investigadores levantam a possibilidade de que Vorcaro tivesse informações antecipadas sobre medidas que poderiam atingi-lo. Essa, contudo, é uma interpretação da investigação e não uma conclusão definitiva sobre o que o banqueiro sabia ou sobre a origem de eventual informação.

Mensagens e possível pedido de intervenção

Os diálogos recuperados pela Polícia Federal também mostram Vorcaro a procurar informações sobre o avanço das investigações.

Em 4 de novembro de 2025, por exemplo, perguntou a Moraes se uma medida classificada como “média a grave” poderia significar uma busca ou uma quebra de sigilo. Em seguida, questionou se já existiria alguma decisão que pudesse ser travada.

Noutras mensagens, Vorcaro perguntou sobre o juiz responsável pelo processo e sobre a situação junto do Banco Central.

Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores envolve referências feitas pelo banqueiro a “Andrei” e “Paulo”. De acordo com a interpretação apresentada pela Polícia Federal, os nomes poderiam ser uma referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

A investigação analisa se Vorcaro teria procurado Moraes para tentar obter algum tipo de intervenção ou informação relacionada às autoridades. Não se deve, porém, tratar essa identificação como um facto definitivo nem afirmar que Moraes tenha actuado junto das autoridades apenas com base nesse trecho das mensagens.

André Mendonça pediu esclarecimentos à Procuradoria-Geral da República sobre o episódio. A PGR deverá analisar os elementos apresentados pela investigação.

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal

Há ainda uma particularidade na forma como parte das conversas foi enviada.

Segundo a documentação da investigação, Vorcaro escrevia algumas mensagens no bloco de notas do telemóvel, fazia uma captura de ecrã e enviava a imagem pelo WhatsApp utilizando o recurso de visualização única.

Isso permitiu aos investigadores recuperar o conteúdo enviado pelo banqueiro, mas não necessariamente as respostas do destinatário.

A ausência das respostas completas dificulta a reconstrução integral das conversas. Por isso, o conteúdo das mensagens de Vorcaro precisa ser analisado em conjunto com outros elementos da investigação, e não isoladamente.

Contrato de R$ 131 milhões com a mulher de Moraes

Paralelamente às mensagens, a investigação encontrou dados relacionados com um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.

O documento previa pagamentos mensais ao escritório durante três anos. Segundo os dados analisados pela PF, o contrato previa R$ 3,6 milhões por mês e poderia atingir aproximadamente R$ 131,2 milhões em valores brutos até ao início de 2027.

O valor líquido previsto seria de cerca de R$ 108 milhões, com impostos e outros encargos elevando o montante bruto.

Um dos pontos que despertou a atenção dos investigadores está nos metadados do documento. A última versão teria sido aberta e editada por uma conta identificada no sistema Office 365 como “Ministro Alexandre de Moraes”.

A alteração ocorreu em 15 de janeiro de 2024, depois de Vorcaro ter devolvido uma versão do documento com alterações.

O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato e que analisou o documento. A explicação apresentada foi de que o sector de compliance do escritório procurou o ministro, na condição de marido da sócia-directora, para verificar se existiria algum impedimento legal para a contratação.

A defesa sustenta que Moraes nunca julgou qualquer processo envolvendo o Banco Master e que não havia previsão de atuação do escritório no STF.

Pagamentos ao escritório

Mensagens encontradas no telemóvel de Vorcaro também tratam de pagamentos ao escritório de Viviane.

Em março de 2024, o banqueiro reclamou de um pagamento que estaria atrasado. Numa conversa, classificou o desembolso como particularmente importante e determinou que fosse realizado.

Segundo os elementos divulgados na investigação, uma funcionária do Banco Master posteriormente enviou um comprovativo de pagamento no valor de cerca de R$ 3,4 milhões.

As mensagens também revelam preocupação com a forma como determinados pagamentos deveriam ser realizados. Em outro momento, Vorcaro teria orientado que certos valores não fossem transferidos por Pix.

A investigação também identificou conversas relacionadas com o acesso ao contrato e com a preocupação sobre quem poderia visualizar o documento.

Cartões para os filhos de Moraes

Outro elemento revelado pela investigação envolve os filhos de Alexandre de Moraes.

Segundo relatório da Polícia Federal, em outubro de 2025, Guilherme Benazzi, ligado ao escritório de Viviane Barci de Moraes, procurou Vorcaro para tratar da emissão de cartões de crédito do Banco Master para Giuliana e Alexandre, identificados na documentação como filhos da advogada.

Vorcaro encaminhou o contacto de uma funcionária do banco. Na sequência, a funcionária perguntou ao banqueiro se poderia avançar com a emissão dos cartões.

“Limite de 300 para cada”, escreveu a funcionária.

Vorcaro respondeu: “Ok”.

Os elementos divulgados pela investigação apontam para a autorização da emissão dos cartões. No entanto, as informações tornadas públicas não demonstram, por si só, quanto teria sido efetivamente gasto nem se os cartões chegaram a ser utilizados.

O que está em investigação

As novas informações colocam diferentes episódios sob análise conjunta: as mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes, o contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes, os pagamentos realizados pelo Banco Master e a emissão de cartões para os filhos do ministro.

O ponto central agora é determinar o significado desses contactos e se houve alguma atuação irregular.

As informações divulgadas pela Polícia Federal não equivalem, por si só, a uma conclusão de crime cometido por Alexandre de Moraes. A investigação ainda precisa estabelecer a natureza e o contexto de cada episódio, além de confrontar os documentos com os depoimentos e demais provas reunidas.

Moraes já negou acusações anteriores relacionadas com Vorcaro e afirmou não ter recebido determinadas mensagens atribuídas ao banqueiro. O escritório de Viviane Barci de Moraes também nega irregularidades e sustenta que os serviços contratados pelo Banco Master foram efetivamente prestados.

O caso deverá agora ser analisado pelo Supremo e pela Procuradoria-Geral da República. A partir dessa análise, as autoridades poderão decidir se os elementos apresentados pela PF justificam novas diligências ou outras medidas no âmbito da investigação.