O que pode ser a maior fraude bancária do Brasil está a transformar-se também numa das maiores crises institucionais da história recente do Supremo Tribunal Federal.

O epicentro da nova crise está num relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal a partir da análise do telemóvel de Daniel Vorcaro, fundador e antigo controlador do Banco Master. O documento, tornado público nesta terça-feira, 1 de setembro, por determinação do ministro André Mendonça, detalha mensagens, encontros, registos de chamadas, contratos e outros elementos que mostram a proximidade entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

As mensagens entre os dois já tinham sido reveladas anteriormente. A novidade agora é que a investigação da PF identificou formalmente Alexandre de Moraes como o interlocutor de Vorcaro. O contacto aparecia guardado no telemóvel do banqueiro com nomes como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. Segundo a investigação, o número foi transmitido a Vorcaro pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, no final de 2023.

A partir daí, a relação tornou-se frequente. O relatório identifica pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes, entre 2023 e 2025, incluindo jantares, almoços e reuniões privadas em São Paulo e Campos do Jordão. Fábio Faria aparece como um dos principais intermediários dessa aproximação, organizando encontros e transmitindo mensagens entre o banqueiro e o ministro.

Um dos primeiros encontros ocorreu em dezembro de 2023, na residência de Moraes, em São Paulo. Depois, surgiram outros contactos sociais. Numa das mensagens, Faria fala sobre um jantar com “o Careca”, expressão que a PF interpretou como uma referência a Moraes. Noutra ocasião, Faria informou a Vorcaro que Moraes teria disponibilidade para “tomar um whisky”.

A relação também aparece ligada a negócios. Um dos principais pontos do relatório é o contrato celebrado entre o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, dirigido por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O acordo envolvia um valor bruto na ordem dos 131 milhões de reais.A perícia da PF encontrou nos metadados do documento registos de alterações feitas por um utilizador identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Segundo o escritório, Moraes analisou a minuta a pedido do departamento de compliance, para verificar se existiria algum impedimento à contratação. A defesa sustenta que não havia impedimento legal, uma vez que o ministro não julgava, naquele momento, uma causa do Banco Master.

As mensagens reveladas pela PF mostram, contudo, que os pagamentos ao escritório eram tratados por Vorcaro como uma prioridade. Em determinada conversa, o banqueiro afirmou que o pagamento “não pode atrasar um dia” e classificou-o como “o pagamento mais importante” do banco. A investigação também encontrou uma transferência de cerca de 3,4 milhões de reais para o escritório.

Mas é nas semanas que antecederam a prisão de Vorcaro que o caso ganha uma dimensão muito mais grave.Em outubro e novembro de 2025, o banqueiro passou a procurar Moraes repetidamente devido ao avanço das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público. Segundo a PF, Vorcaro pediu que Moraes tentasse sensibilizar Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, para evitar ou adiar medidas contra o Banco Master.

Numa das mensagens, Vorcaro pede que “ninguém de baixo” faça uma “sacanagem” contra o banco. Noutra, pergunta se uma eventual busca ou quebra de sigilo poderia ser bloqueada. Em 4 de novembro, escreve: “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade”.

Dias depois, a situação tornou-se ainda mais urgente. Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou a Moraes se seria possível reverter o avanço das investigações. No dia seguinte, menos de 24 horas antes de ser preso, voltou ao assunto e questionou se Andrei Rodrigues poderia adiar o cumprimento das medidas.“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra”, escreveu o banqueiro, segundo o relatório da PF.Foi também nessa altura que Vorcaro perguntou directamente a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. A mensagem foi enviada dois dias antes da prisão. Na sequência, o banqueiro procurou saber se deveria deixar o Brasil e chegou a tentar viajar para o estrangeiro num jacto privado. Acabou detido no aeroporto de Guarulhos.Outro episódio envolve Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. Vorcaro pediu a Moraes que tentasse viabilizar uma conversa com Galípolo e afirmou que não poderiam “estourar uma bomba atómica na hora da solução”.

O relatório também menciona mensagens nas quais Vorcaro fala sobre a necessidade de contar com a “proteção” de Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Foi precisamente esse conteúdo que levou Mendonça a determinar o aprofundamento das diligências para identificar quem era o interlocutor do banqueiro. A PF concluiu que se tratava de Alexandre de Moraes e Mendonça pediu informações complementares à Procuradoria-Geral da República.Há, no entanto, uma ressalva essencial: as mensagens recuperadas pela PF não permitem conhecer integralmente as respostas de Moraes. Vorcaro escrevia textos, fazia capturas de ecrã e enviava as imagens pelo WhatsApp como mensagens de visualização única. Segundo a investigação, Moraes utilizava o mesmo método. Por isso, o conteúdo divulgado mostra sobretudo as mensagens enviadas pelo banqueiro, e não permite afirmar, sem outros elementos, que Moraes tenha atendido aos pedidos ou praticado qualquer irregularidade.

O relatório também encontrou outros elementos que demonstram a proximidade entre os dois. Vorcaro chegou a dizer que tinha uma “dívida de vida” com Moraes e agradeceu ao ministro “por tudo”. Em outra situação, o banqueiro intermediou até a obtenção de ingressos VIP para os filhos de Moraes assistirem a um jogo do Atlético-MG.A investigação revelou ainda um segundo contrato relacionado com o escritório de Viviane Barci de Moraes, envolvendo a empresa Viking Participações, além de outros contactos e benefícios que passaram a ser analisados pelos investigadores.

Toda esta sequência provocou uma crise dentro do próprio Supremo. Segundo o Metrópoles, Moraes e André Mendonça tiveram uma discussão extremamente acalorada depois de Moraes tomar conhecimento de que o colega havia determinado o aprofundamento da investigação. A publicação afirma que os dois quase chegaram às vias de facto. A informação, contudo, é de bastidores e deve ser atribuída ao veículo, não tratada como um facto judicialmente comprovado.Mendonça decidiu retirar o sigilo dos documentos e indicou que os novos elementos deverão ser analisados pelo plenário do Supremo. A Procuradoria-Geral da República também foi chamada a pronunciar-se sobre parte do material.

A Ordem dos Advogados do Brasil já pediu uma “apuração rigorosa e isenta” de todos os factos, com respeito pelo devido processo legal, pela ampla defesa e pela presunção de inocência.

O caso, portanto, deixou de ser apenas uma investigação sobre as suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master. Agora, envolve também a relação pessoal e empresarial de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, contactos com autoridades responsáveis pelas investigações, contratos milionários com o escritório da mulher do ministro e uma disputa interna no próprio Supremo.O conteúdo do relatório da PF é grave e levanta questões que ainda precisam de respostas. Mas uma coisa é o que os documentos mostram; outra é a responsabilidade criminal de cada envolvido. Essa distinção será fundamental para determinar se o caso ficará restrito a uma crise política e institucional ou se poderá evoluir para uma investigação formal contra um ministro do Supremo Tribunal Federal.