O Governo brasileiro expulsou o cidadão russo Sergey Cherkasov, apontado pelas autoridades dos Estados Unidos (EUA), dos Países Baixos e pela Polícia Federal (PF) como um alegado agente do serviço de informações militares da Rússia (GRU). Atualmente, Cherkasov encontra-se detido na Penitenciária Federal de Brasília, onde cumpre pena por utilização de documentos brasileiros obtidos com uma identidade falsa.

Apesar do decreto de expulsão, o cidadão russo não regressará de imediato ao seu país. O Supremo Tribunal Federal autorizou a sua extradição para a Rússia, mas determinou que a transferência apenas poderá ocorrer após o cumprimento da pena imposta pela Justiça brasileira. Até lá, Cherkasov permanecerá detido em Brasília e a expulsão administrativa decretada pelo Governo também ficará suspensa.

A suspeita de que cidadãos russos utilizavam identidades brasileiras para operar no estrangeiro ganhou projeção internacional após uma investigação publicada pelo The New York Times e confirmada posteriormente pela BBC News Brasil. Segundo a investigação da Polícia Federal, pelo menos nove alegados agentes russos utilizaram identidades brasileiras como parte dos seus disfarces.

Segundo as investigações, o Brasil não era o alvo das alegadas operações de espionagem. As autoridades concluíram que as identidades brasileiras serviam para construir um historial de vida credível, permitindo aos agentes viver, trabalhar, estudar e obter documentação brasileira antes de seguirem para outros países.

Foi o caso de Sergey Cherkasov. Em abril de 2022, o russo foi impedido de entrar nos Países Baixos quando tentava ingressar no país com a identidade brasileira de Victor Muller Ferreira. Com esse nome, tinha sido aceite para um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia. As autoridades neerlandesas concluíram que se tratava de um alegado agente do GRU e deportaram-no para o Brasil.

De volta ao Brasil, Cherkasov foi preso e posteriormente condenado por utilização de documentos falsos. A pena inicial de 15 anos foi reduzida para cinco anos e dois meses. Durante o processo, admitiu ter utilizado uma identidade brasileira falsa, mas negou ser agente dos serviços de informações russos. A investigação por alegada espionagem aberta no Brasil acabou arquivada.

Segundo a BBC News Brasil, Cherkasov é o único dos alegados agentes identificados pela Polícia Federal que permaneceu em território brasileiro. Os restantes deixaram o país antes ou durante o avanço das investigações.

Entre os outros casos investigados está o de Mikhail Mikushin, que utilizava a identidade brasileira de José de Assis Giammaria e foi detido na Noruega em novembro de 2022. Em agosto de 2024, integrou uma troca de prisioneiros entre a Rússia e países ocidentais.

Outro caso é o de Artem Shmyrev, que utilizava a identidade brasileira Gerhard Daniel Campos. Segundo a investigação da Polícia Federal, abandonou o Brasil antes de uma operação destinada à sua detenção e nunca mais foi localizado.

A investigação identificou ainda Yekaterina Leonidovna Danilova, Vladimir Aleksandrovich Danilov, Olga Igorevna Tyutereva, Aleksandr Andreyevich Utekhin, Irina Alekseyevna Antonova e Roman Olegovich Koval como pessoas que utilizaram identidades brasileiras.

Em março de 2023, a BBC News Brasil revelou que Cherkasov terá oferecido um colar avaliado em cerca de 400 dólares a uma funcionária de um cartório para facilitar a obtenção de documentação. Segundo a investigação, não foram encontrados indícios de que a funcionária soubesse que lidava com um alegado agente russo.

Após a detenção de Cherkasov, os Estados Unidos solicitaram a sua extradição para responder a acusações relacionadas com alegadas atividades de espionagem. A Rússia apresentou igualmente um pedido de extradição, alegando que o cidadão era procurado por crimes comuns no seu país.

Enquanto permanece detido na Penitenciária Federal de Brasília, o caso de Sergey Cherkasov continua a ser acompanhado pelas autoridades brasileiras e internacionais devido às investigações sobre a utilização de identidades brasileiras por alegados agentes russos.